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CONTO: "A VIAGEM DO 'MASCOT'", DE WALTER BENJAMIN, SEGUIDO POR BREVES CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS

      Numa insólita odisséia, a “Nau dos Modernos” veleja em mares do continente sul-americano.
     O narrador Walter Benjamin navega sobre um mar de palavras. Essa trama evocatória de imagens no presente em que a transcrevemos parece se fazer na própria tessitura do tempo. Com a roupagem de outra época, chegam os personagens a nos segredar os sentidos dos fatos, e estes assumem o tamanho exato do assombro que o presente nos provoca:

     “É uma daquelas histórias que se ouvem em alto-mar, e para as quais o casco do navio é a melhor caixa de ressonância e o ritmo das máquinas, o melhor acompanhamento, uma daquelas histórias, cuja origem é melhor não indagar.
     Era depois do fim da guerra, me contou um amigo, o telegrafista de bordo, quando alguns armadores tiveram a idéia de trazer de volta para a Alemanha veleiros, cargueiros de salitre, que tinham sido surpreendidos no Chile pela catástrofe. A situação jurídica era simples; os navios continuavam sendo propriedade alemã, e agora se tratava simplesmente de arranjar a tripulação necessária para retomá-los em Valparaíso ou Antofagasta [norte do Chile]. Havia um bom número de marinheiros esperando nos portos por um emprego. Mas a coisa tinha um pequeno porém. Como fazer chegar as tripulações até lá? Evidentemente podiam embarcar apenas como passageiros e começar seu serviço apenas no lugar de destino. Por outro lado, sabia-se muito bem que eram pessoas com as quais o capitão poderia dificilmente tomar as mesmas medidas que lhe competem no caso de passageiros comuns; e muito menos naqueles tempos, quando os marinheiros ainda sentiam na carne o clima da rebelião de Kiel.
     Ninguém o sabia melhor que os habitantes de Hamburgo, de onde era o comando do veleiro a quatro mastros, o ‘Mascot’, comando formado por uma elite de oficiais da marinha, decididos e experientes. Eles encaravam essa viagem como uma aventura em que arriscava a sua pele. E já que prudente morre de velho, não confiaram somente na sua coragem, mas, na hora da contratação, examinaram muito bem a cada um dos candidatos. Se, apesar disso, havia entre os contratados um rapaz alto, cujos papéis não estavam totalmente em ordem e cujo estado físico também deixava a desejar, seria precipitado atribuir-lhes alguma negligência. Mais tarde veremos por quê.
     Mal se havia navegado umas cinqüenta milhas além de Cuxhaven, e já se notaram as coisas que lançavam um mau-agouro sobre a travessia. No convés e dentro dos camarotes e mesmo nas escadas se reuniam desde a manhã cedo até noite adentro os mais diversos grupos e círculos, e antes de se passar a ilha de Helgoland, já estava funcionando três clubes de jogos, um ringue permanente de boxe e um  teatro amador, cuja freqüência não se recomendaria a pessoas delicadas. No salão dos oficiais, cujas paredes tinham sido enfeitadas durante a noite com drásticos desenhos, os cavalheiros dançavam ‘jimmy’ durante as tardes, e no compartimento de carga se estabelecera uma bolsa de valores cujos membros, à luz de lanternas, faziam negócios com dólares, binóculos, fotos pornográficas, facas e passaportes. Numa palavra, o navio era uma ‘magic city’ flutuante, de modo a fazer pensar que todas as maravilhas da vida dos portos poderiam ser criadas, mesmo sem mulheres, a partir do nada, ou melhor: a partir de paus flutuantes.
     O capitão, um daqueles tipos de marujo que unem um mínimo de saber escolar com um máximo de sabedoria de vida, não perdeu o controle da situação, mesmo nessas circunstâncias tão pouco aconchegantes, e manteve a cabeça fria mesmo quando, uma bela tarde - isso deve ter sido na altura de Dover - apareceu na popa, de cigarro na boca: Frieda, uma moça de Sankt Pauli, bem-feita de corpo, porém mal-afamada. Sem dúvida, havia gente a bordo que sabia qual tinha sido até então o seu esconderijo, e as mesmas pessoas também tinham uma idéia muito clara das medidas a serem tomadas, se os de cima fizessem alguma tentativa de afastar a passageira sobressalente.
      Daí em diante, a vida noturna tornou-se cada vez mais digna de ser vista. Afinal, não estaríamos em 1919, se a todas essas diversões não se juntasse o divertimento político. Ouviam-se vozes querendo que essa expedição se tornasse o começo de uma vida nova em um mundo novo; outros viam aproximar-se o momento tão almejado de acertar as contas com os donos do poder. Sem dúvida - agora os sinais eram de tempestade. E dentro em pouco também se sabia de onde vinham: havia um rapaz chamado Schwinning, alto e flácido, cabelo ruivo penteado à risca, de quem se sabia que tinha trabalhado em diversas linhas de navegação como comissário de bordo, e que estava perfeitamente a par dos segredos profissionais dos contrabandistas finlandeses de álcool.
     No começo ele se mantinha reservado, mas agora topava-se com ele a todo momento. Quem o escutava, tinha de admitir que se tratava de um agitador dos mais rematados. E quem não o escutava, quando no ‘bar’ ele envolvia ora este ora aquele numa conversa barulhenta e de briga, em que sua voz era mais alta que o gramofone, ou quando no ‘ringue’, sem que ninguém pedisse, ele dava informações precisas sobre a filiação partidária dos lutadores. Dessa maneira, enquanto a massa se entregava aos divertimentos, ele trabalhava incansavelmente no sentido de sua politização, e finalmente seus esforços foram coroados de sucesso numa reunião de plenária noturna, em que foi eleito presidente de um conselho de marinheiros.
     Ao se entrar no Canal do Panamá, começaram a se agitar as eleições. Não eram poucos os cargos e mandatos: uma comissão orçamentária, uma coluna de controle, um secretariado de bordo, um tribunal político - em suma, montou-se um aparato fabuloso, sem que ocorressem os mínimos choques com o comando do navio. Por outro lado, porém, houve freqüentes desentendimentos dentro da liderança revolucionária, tanto mais desagradáveis que, olhando bem, todo o mundo fazia parte dela. Quem não tinha um posto, podia ter a esperança de obtê-lo na próxima reunião da comissão, e assim não passou um dia em que não houvesse dificuldades a serem esclarecidas, votações a serem verificadas, resoluções a serem tomadas. Quando finalmente o Comitê de Ação havia fixado com todos os pormenores o plano para um golpe - na noite de depois de amanhã, às onze em ponto, o comando do navio seria posto fora de combate e mudava-se o rumo para o Ocidente, em direção às ilhas Galápagos -, o “Mascot”, sem que ninguém soubesse, já tinha passado Callao. Mais tarde, viu-se que os cálculos de posição tinham sido falsificados. Mais tarde, isto é, na manhã seguinte, quando - 48 horas antes do motim planejado e cuidadosamente preparado - o veleiro atracou no cais de Antofagasta, como se nada tivesse acontecido.
     Até aí, o relato do meu amigo. Estava terminado o segundo quarto. Entramos na sala dos mapas, onde nos esperava cacau, em profundas xícaras de cerâmica.
     _ Eu fiquei calado, tentando encontrar um sentido para o que acabara de ouvir. O telegrafista, porém, prestes a tomar o primeiro gole, de repente parou e me olhou por cima de sua xícara. “Deixa pra lá!”, ele disse. “Naquela altura, nós também não sabíamos o que estava acontecendo. Mas quando eu, três meses depois, no prédio da administração em Hamburgo encontro o Schwinning, fumando um gordo charuto Virgínia e acabando de sair da sala da diretoria - - - aí eu entendi muito bem a viagem do ‘Mascot’.”
  (Walter Benjamin. A viagem do “Mascot”, 1932)

     Detenhamo-nos numa das frases da narrativa de Benjamin: “O capitão, um daqueles tipos de marujos que unem um mínimo de saber escolar com um máximo de ‘sabedoria de vida’”. Consultemos, então, o dicionário, buscando, dessa forma, evitar o risco de perder o sentido da expressão assinalada, isto é, “sabedoria de vida”.
     Diga-se de passagem, em Benjamin, o termo “sabedoria de vida” relaciona-se com a barbárie moderna. O ensaio em que Benjamin tematiza esta questão, e que passamos agora a comentar, intitula-se “Experiência e Pobreza” (1933). O vocabulário constitutivo do texto compõe-se das seguintes expressões: “ações da experiência”; “pobres em experiências comunicáveis”; “experiências transmissíveis”; “experiência estratégica”; “experiência econômica”; “experiência do corpo”; “experiência moral”; “pobreza de experiência” ... É certo que Benjamin está a pensar sobre o nosso “páthos”, a fim de refletir sobre nossas experiências em tempos de barbárie.
     Lancemo-nos, portanto, no vasto mar das línguas e, mantendo os olhos fixos nos horizontes da Antiguidade, solicitemos, então, significados:

PÁTHOS = acontecimento, experiência, sofrimento, emoção, atributo. 1. A história da palavra ‘pathos’ está obscurecida por uma multiplicidade de conotações. A sua acepção mais geral significa ‘algo que acontece’, quer em referência ao próprio evento (assim Heródoto V, 4; Sófocles, O.T., 732) quer à pessoa afectada (assim Platão, ‘Fédon’ 96a: ‘as minhas experiências’), o último tipo de uso consideravelmente alargado em sentidos éticos, como, por exemplo, no ‘sofrimento instrutivo’ dos trágicos (ver Ésquilo, Aga. 177) ... (1)

     Em correntezas mais próximas, nos horizontes da modernidade:

ERFAHRUNG = [do alemão] experiência: troca de conhecimentos adquiridos pela prática; troca de experiências feitas; troca de ensinamentos como a experiência ensina...

     e,

ERLEBNIS = [do alemão] experiência: acontecimento, ocorrência, aventura, emoção, mera vivência... (2)

     A esse respeito, parece-nos esclarecedor que Walter Benjamin inicie o ensaio “Experiência e pobreza” (1933) a indagar de forma perturbadora:

“Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? ‘Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência’?...” (os grifos assinalados com ‘ ou’  são nossos) ( Benjamin 1985, p.114)

     E, logo em seguida, operando um autêntico redimensionamento dentro dos cânones da racionalidade filosófica moderna, Benjamin responde:

“... ‘está claro que as ações da experiência estão em baixa’, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história (...) Na época, já se podia notar como os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. (...) ‘Uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica’, sobrepondo-se ao homem (...) Sim, é preferível confessar que essa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda humanidade. ‘Surge assim uma nova barbárie.’
‘Barbárie? Sim.’ Respondemos afirmativamente para introduzir um conceito novo e positivo de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de experiência? Ela o impele a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir com pouco [novos bárbaros no sentido positivo do termo, consoante Benjamin, dentre eles:  Descartes, Einstein, Newton, Paul Klee, Brecht ...] (...) Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio cultural (...) ‘A tenacidade é hoje privilégio de um pequeno grupo dos poderosos, que sabe Deus não são mais humanos que os outros; na maioria, bárbaros, mas não no bom sentido.’”  (os grifos assinalados com ‘ ou’  são nossos)       (Benjamin 1985, pp.114-9)

     Tecidas tais considerações, pensamos que a teoria do “Erlebnis” (experiência vivida, individual, enfim, característica do indivíduo solitário) é atual e devemos trabalhar junto a tal conceito. A ciência moderna não pode cuidar disso, pois ela é produtora de “Erlebnis”. No entanto, temos a impressão de que a teoria do “Erlebnis” é marginal à discussão da filosofia contemporânea, mas é um conceito extremamente importante, como já apontara Walter Benjamin, em 1933!



                      NOTAS

1. Peters, F.E. “Termos filosóficos gregos: um léxico histórico”. 2 ed., Lisboa: Calouste, 1983, pp.183-186.
2. Definições dos verbetes recolhidas do “Dicionário Alemão-Português”. Lisboa: Porto Editora, [s.d.].


                    BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. “Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura”. Tradução Sérgio P. Rouanet. In ‘Obras Escolhidas I’, v.1, São Paulo: Brasiliense, 1985.

______. (Seleção e apresentação Willi BOLLE). “Walter Benjamin – Documentos de Cultura / Documentos de Barbárie: escritos escolhidos”. Tradução Celeste H.M.Ribeiro et al. São Paulo: Cultrix: Editora da Universidade de São Paulo, 1986.

. Além dos dicionários acima mencionados in NOTAS.



              PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                    verão de 2006









SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 20/01/2006
Reeditado em 20/01/2006
Código do texto: T101265

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS