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Texto

O Diabo e a Coca-Cola

Na festa de aniversário de um amigo comum, Luiz Mário reencontra Pedro, companheiro de muitas festas, que não via há alguns anos. Ele se formara em Letras e era professor da Universidade Federal. Pedro abandonara os estudos antes de completar o ensino médio.
“Pedro, há quanto tempo não o vejo. O que você anda aprontando?”, pergunta Luiz.
“Eu, agora, estou vendendo umas coisas que eu busco no Paraguai”, respondeu Pedro.
Sentaram-se em uma mesa para continuar a conversa. Luiz acha estranho Pedro não estar bebendo nada e pergunta:
“Hei, Pedro, não vai tomar nada?”
“Não – respondeu – eu parei de beber há algum tempo.”
“Mas parou por quê?”
“Entrei pra Igreja, agora sou um homem de Deus.”
“Então toma uma Coca-Cola”, disse Luiz.
“De jeito nenhum – respondeu Pedro – Coca-Cola é do demônio.”
“E você me diz que parou de beber!”, brincou Luiz.
“Não brinca com essas coisas, Luiz, - repreendeu-o – olha, se você ler o nome Coca-Cola de traz para frente, verá que está chamando o diabo.”
“Pirou de vez, Pedro!”
“Estou falando sério, pegue um rótulo de uma garrafa e observe”, disse Pedro.
Luiz foi até a cozinha da casa do aniversariante, retirou o rótulo de uma garrafa vazia de Coca-Cola e voltou para mesa onde estava Pedro.
“Vou te mostrar como me ensinaram na Igreja, – disse Pedro tomando o rótulo das mãos do Luiz – olha aqui, - Pedro mostrou o rótulo contra a luz – por traz do rótulo da pra ver o nome ao contrário, se você prestar atenção vai ler “alô diabo.””
“Explica-me uma coisa, Pedro, como a Coca-Cola é americana, esse escrito aí ao contrário não deveria estar em inglês?”
“Claro que não, se o rótulo foi fabricado aqui no Brasil, vai estar escrito em português; meu amigo o demônio conhece todas as línguas do mundo. Pra você que não tem nenhuma crença é difícil entender.”
“Ô, como é difícil, mas continua a explicação que eu estou curioso.”
“Pois bem, no final da palavra, o “ola”, vira “alô”.”
“Mas não deveria ter acento no “alô” do rótulo?”
“Não, o acento não importa, o que importa é a escrita; não atrapalha!”
“Claro, me desculpe, você tem toda razão. Não vou te atrapalhar.”
“Depois do “alô” começa o diabo; o “c” da “cola” vira o “d” do diabo, está vendo?”
“Um “c” virar um “d”..., não estou vendo nenhum “d” aí.” respondeu Luiz.
“Mas se “forçar” um pouquinho você vê, - disse Pedro – agora vem o “i”.”
“Sinto muito, Pedro mas em Coca-Cola não tem a letra i.”
“Você não conhece as artimanhas do demônio, aqui ele usou a perninha do “a” e o tracinho como o pingo, e formou a letra i”, explicou Pedro.
“Esse tracinho chama-se hífen, Pedro, e não tem não se parece com um pingo.”
“Pois é, mas forma o “i”; depois vem o “a” que é o “a” mesmo, e o “b”...”
“B?” Luiz perguntou estupefato.
“Isso mesmo – respondeu Pedro – este outro “c” refere-se à letra b.”
“Impossível! - disse Luiz, e continuou – esse “c” virar um “b”: nem aqui nem no inferno.”
“Neste “c”, Luiz, você tem que imaginar uma reta fechando a abertura da letra e terminando um pouco acima. Depois vem a letra o que é o próprio “o” e pronto, fechou a frase.”
“Espera aí, faltou o último “c”.”
“Este último “c”, é apenas um símbolo, é a cauda o diabo.”
“Pedro, sinceramente, eu nunca ouvi tamanha bobagem, você não está falando sério!”
“Eu não brinco com essas coisas, Luiz, são muito sérias e você não deve brincar com aquilo que não conhece. Você não acredita nessas coisas, pois, tome muito cuidado, poderá ter uma surpresa”, disse Pedro com o semblante austero.
Luiz não quis provocar o amigo e tentou mudar de assunto.
“E os estudos, Pedro, você não vai voltar pra escola e termina-los?” perguntou Luiz.
“Por enquanto não, agora eu estou me dedicando á Igreja, que é a minha escola. Lá eu aprendo só coisa importante. Bom, agora tenho que ir, eu vou ao culto.”
“Foi bom te ver depois de tanto tempo”, disse Luiz se despedindo.
“Vem comigo, Luiz, pra você conhecer minha Igreja, você vai gostar”, disse Pedro entregando um cartão com o endereço da Igreja para Luiz.
“Qualquer dia eu apareço lá.”
“Deus te abençoe”, despediu-se Pedro.
Luiz nunca apareceu na Igreja do Pedro e desde a festa de aniversário não teve mais notícias dele.
Leandro de Araujo
Enviado por Leandro de Araujo em 19/06/2008
Reeditado em 07/09/2010
Código do texto: T1041318
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Leandro de Araujo
Goiânia - Goiás - Brasil, 40 anos
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