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Ainda ontem

"Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram." Caio Fernando Abreu

Ainda ontem Fernando e Cláudia escolhiam a cor das cortinas da sala, Cláudia insista no bege claro, e Fernando no branco opaco. Ainda ontem Fernando e Cláudia tomavam um café na padaria do bairro há três quadras do apartamento o qual dividiam, discutiam o trabalho, os livros que liam, conversavam animadamente, enquanto enchiam o cinzeiro de tocos de cigarro. Cláudia era uma mulher bonita, inteligente, falava bastante e fumava muito. Tinha um trabalho frustrante, no ministério público, um trabalho nada empolgante, ficava o dia inteiro dentro do escritório em frente ao computador, não gostava do que fazia, mas era feliz, era feliz com Fernando. Fernando era um pouco mais novo que Cláudia, não era bonito, era magro, e alto, era professor de história e falava empolgado do seu trabalho, amava história, era um homem inteligente.Os dois se amavam muito, Fernando nunca traíra Cláudia e isso nem passara pela sua cabeça, só tinha olhos para ela, admirava sua mulher. Já Cláudia, se interessava por outros homens,  quase teve um caso com seu colega de trabalho, mas não tivera coragem, amava muito Fernando e não arriscaria perde-lo por uma aventura amorosa.Antes de conhece-lo havia tido muitos namorados e até uma paixão intensa, já Fernando tivera poucas namoradas, mas nada que fosse estarrecedor, Cláudia era sua maior paixão, por essa razão, Cláudia não tinha medo que Fernando o traísse, sempre pensara que se alguém fosse trair, esse alguém seria ela. Os dois se davam muito bem, tiveram vidas diferentes, Cláudia sempre trabalhara desde os 16 anos, e sempre quisera ser muito mais na vida, Fernando era acomodado, seus pais sempre tiveram condições de pagar uma boa faculdade para ele, para que ele não precisasse trabalhar. Se davam bem , tinha suas brigas, claro, como todos casais, mas nunca passavam de briguinhas pequenas e nunca haviam se separado.
Se conheceram através de amigos, em um aniversário. Fernando não chamou a atenção de Cláudia que chegou a chama-lo de "burguesinho filhinho de papai", secretamente para sua amiga, ele nunca soubera disso. Cláudia ao contrário encantara Fernando, seu jeito meio revolucionário, e maduro, o encantou. Mais para o final da noite Fernando se aproximou e pediu fogo para Cláudia que fumava sem parar sentava do lado de fora do bar, eles começaram a conversar, primeiro sobre o livro 1984 de George Orwell, que ambos haviam lido a pouco tempo, depois vieram as perguntas clichês, quantos anos, o que você faz, onde você mora, e aos poucos Cláudia mudou sua opinião sobre o "burguesinho"- afinal ele não era tão ruim assim, ela passou a dizer para ela mesma. Com o tempo veio o namoro, o noivado e o casamento, optaram por não casar e dividir um apartamento, fato que deixou a mãe de Fernando um pouco frustrada, ela sempre sonhara ver o único filho casando na Igreja, já a família de Cláudia, não se importou muito, o pai havia morrido há muito tempo, os irmãos (um mais velho e outro mais novo) moravam em outras cidades, a mãe, muito velinha já, morava sozinha em um velho apartamento da cidade, e ficara feliz pela filha, mas só fora visitar o casal a muito custo, uma única vez, na ocasião do aniversário de Cláudia, ela também não costumava visitar a mãe, bastavam as ligações do final de semana, Fernando nunca entendera a relação entre sua sogra e sua mulher, ele costumava visitar a mãe quase todos os fins de semana, nos domingos, contra a vontade de sua mulher que muitas vezes preferia ficar em casa descansando.
Aos olhos dos amigos, especialmente os de Cláudia, o casal, era o típico casal de vida monótona, e rotineira, moravam em um apartamento classe média, tinha uma vida relativamente estável, aos olhos de todos eles nunca se desentendiam e ambos se amavam muito, não eram muito dados a festas e bebedeiras, na verdade Fernando não era, Cláudia sim, mas com a convivência ela aprendeu a abrir mão de algumas coisas.Pode se dizer que eram um casal feliz, seja lá o que for que signifique felicidade,
Ainda ontem Fernando e Cláudia decidiam-se comprar um filhote de cão, ainda não pensavam em filhos, queria ter uma vida mais estável e um pouco melhor, Ambos amavam animais, Cláudia tivera um cachorro quando morava na casa dos pais, logo depois que seu pai faleceu o cachorro morreu também, Fernando nunca tivera um, sempre havia morado em apartamentos e sua família nunca permitira que ele tivesse um cachorro, depois de muita conversa decidiram se por adotar um, um vira lata, idéia de Cláudia, claro, Fernando queria comprar um na pet shop do bairro, queria um labrador, mas Cláudia o convenceu que havia tantos cachorros abandonados que era melhor adotar um, além de sair mais barato, Foi em uma quinta feira a tardinha que ele foram busca-lo em um canil, quando viram o pequeno vira lata preto com manchinhas brancas, decidiram ambos por ele, foi um consenso, deram-lhe o nome de Winston, nome do protagonista do romance de George Orwell que ambos eram fãs. Ainda ontem ambos passeavam com Winston pelo bairro onde moravam, felizes, juntos,rindo e conversando, eram um casal de vida monótona, mas o que importa? se amavam e isso bastava, não importa como viviam, mas sim, importa que eles se amem, Cláudia repetia para si mesma.
Hoje ambos se encontravam sentados na sala, um a frente do outro, Cláudia sentada na cadeira, a seu lado, um mesa com um abajur branco,  presente da mãe de Fernando, ele sentado no sofá cor marron, com os cotovelos apoiados nos joelhos, na mesa de centro em mogno, um cinzeiro lotado de tocos de cigarro, um copo de água pela metade, um porto retrato com a foto de Cláudia e Winston, uma carteira de cigarro, um isqueiro preto, Winston estava deitado ao lado do sofá com a cabeça entre as patas.
Cláudia olhava para o Fernando tentando reconhecer naquele rosto já com marcas da idade, o mesmo rosto que vira pela primeira vez quando o conhecera, o rosto do "burguesinho filhinho de papai", mas não encontrou, só viu um rosto marcado, de um homem cansado, com olheiras profundas, olhos caídos e sonolento. Fernando procurava consolo no rosto de Cláudia, mas só via frieza, e rispidez, a boca serrada, mesma boca que já pronunciara "te amo como nunca" ainda ontem, mesma boca que beijou calorosamente quando entraram pela primeira vez no apartamento que morava, ainda ontem, mas não mais a mesma,os olhos fixos em Fernando como que procurando alguma coisa, pensou ele, mas não encontrou, ambos não se encontraram.
A sala tomava-se pela fumaça do cigarro de ambos, a carteira de cigarro estava no fim - É preciso comprar mais cigarro disse Cláudia. - Eu vou parar de fumar- respondeu Fernando. os dois se cruzaram olhares mas logo desviaram. -Você vai engordar - disse ela. Fernando a encarou como quem dissesse , que não importava, nada mais o importava, Teve vontade de dizer que amava Cláudia,e que nada mudaria o que sentia por ela, mas sabia que ela não se importaria, isso já não era o suficiente. Cláudia deu a última tragada no cigarro, apagou no cinzeiro da mesa de centro com muita força enquanto soltava a fumaça, Winston levantou a cabeça observando-a. Pegou a bolsa, sobre a mesa de jantar, levantou, olhou para Fernando,eles se olharam, mas não se viram, Afagou a cabeça de Winston que balançou o rabo, olhou para última vez para as cortinas cor bege claro que ainda ontem haviam escolhido.

 
Débora R
Enviado por Débora R em 07/02/2006
Código do texto: T109099
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Sobre a autora
Débora R
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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