Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A CIGANA DA ROSA

O dia era 23 de maio, o sol já desaparecia no horizonte e o acampamento cigano se preparava para mais uma noite na estrada, os ciganos e ciganas mais jovens estranhavam porque não estavam se preparando para a festa de Santa Sara que seria no dia seguinte, tudo que o velho líder pedira era que separassem alguns tonéis de vinho para receber convidados.

A fogueira estava acesa e a fumaça branca subia em direção ao céu estrelado, o povo cigano aguardava os visitantes, ninguém sabia quem eram e isso aguçava a curiosidade dos jovens e crianças.

Um tropel de cavalos era ouvido a distancia e o barulho estava cada vez mais perto, olhavam para o velho líder e ele sorria feliz, ninguém entendia o que estava acontecendo, os jovens e crianças agitadas, os velhos calmos e sorrindo.

E foram chegando, eram aproximadamente cem soldados, armados e prontos para uma guerra, cercaram todo o povo cigano e o líder daquela tropa adentrou ao acampamento, seu cavalo, negro como uma noite sem luar parecia marchar em direção ao velho líder cigano, apeou do animal e o abraço dado mostrou que eram velhos conhecidos.

Os velhos da tribo bateram palmas, os mais jovens acompanharam.
O comandante ordenou que a tropa armasse um acampamento, alimentassem os animais e descansassem, passariam a noite com o povo cigano e pela manhã seriam a escolta dos convidados da Duquesa da Rosa.

O povo cigano estava todo reunido em volta da fogueira e Kael junto com o comandante conversavam, o vinho foi mandado para os soldados que também estavam reunidos bem próximos, eles não entraram no acampamento.

Todos esperavam as palavras de Kael e ele parecia se divertir com a curiosidade dos jovens, depois de algum tempo ele disse:
- Meus irmãos esse amigo que nos visita é uma gadje muito querido por nós, um verdadeiro cigano de alma e coração e nosso povo tem uma divida de gratidão para com ele, então para que vocês mais jovens conheçam o motivo da nossa confraternização, vou lhes contar a historia da Cigana da Rosa.
- Um dia, um de vocês ainda vai liderar nosso povo e, portanto devem saber como proceder. Diferente do que se pode imaginar, a mudança do acampamento é feita com muitos cuidados, a saúde dos nossos velhos e das nossas crianças é verificada, todos devem estar em boas condições para se enfrentar uma viagem, assim como as carroças e os animais.
Nosso destino é previamente escolhido, também calculamos o numero de dias que serão necessários para percorrer a distancia entre duas cidades ou povoados e além de todos os esses cuidados a segurança do nosso povo deve ser garantida, agir dessa maneira é uma regra de sobrevivência..
Para tanto um batedor segue alguns dias antes e escolhe os lugares com condições seguras para que a caravana passe a noite descansando, para continuar a viagem no dia seguinte.
A muitos anos atrás, daquela vez e somente daquela vez o povo cigano mudou seus hábitos, descansar durante o dia e viajar durante a noite, tudo era feito para que pudessem atravessar essas terras sem serem percebidos.
Essas terras pertenciam ao Duque Dimitri, também conhecido como o Duque Negro, sua maldade havia ultrapassado todas as fronteiras e todos o temiam e nosso povo pacífico por natureza queria evitar esse encontro.

Quem liderava essa caravana era Marko, um cigano forte e decidido, viúvo, perdeu a esposa e nunca mais se casou,  tinha ao seu lado na carroça que liderava a caravana sua filha Sarita, uma linda cigana que na época tinha dezoito anos idade, essa cigana tinha um dom maravilhoso na leitura das mãos e era conhecida por todos como a cigana da rosa, isso porque em seus cabelos negros sempre havia uma rosa.
Depois de dois dias de viagem o cigano Marko ordenou que parassem para descansar, haviam chegado aos limites das terras do Duque.
Uma pequena clareira ao lado da estrada é o local escolhido para se improvisar um acampamento, descansariam e se preparariam para atravessar as terras do Duque durante a noite, agindo assim esperavam que ao romper de um novo dia já estivessem longe daquelas terras. Tudo para evitar um confronto com os soldados do Duque.

Pela posição da lua no céu Marko calculou que seriam 23 horas, uma boa hora para seguir a viagem. Não era fácil comandar mais de 38 carroças e aproximadamente 320 ciganos entre homens, mulheres e crianças, alguns seguiam a pé ao lado da caravana, a marcha era acelerada, mas ninguém reclamava.
O primeiro sinal da mudança do tempo foi o vento forte que alcançou o povo cigano, aos poucos a lua foi desaparecendo no céu e a chuva chegou sem aviso, em poucos minutos a estrada de terra batida foi ficando impossível de ser vencida e os problemas começaram a acontecer, um das carroças perdeu a roda e tiveram que parar e esperar que a chuva acalmasse um pouco para que pudessem fazer os consertos e tentar seguir viagem.

Era tudo que Marko não queria, mas não podia evitar.

Um novo dia chegou e ainda chovia, a chuva agora era fraca e já podiam arrumar a carroça quebrada e aos poucos tentar seguir adiante, se pudesse Marko deixaria a estrada e montaria por ali mesmo um acampamento para esperar alguns dias e retomar a viagem, mas estavam nas terras do Duque e isso poderia ser considerado como uma invasão.
Era uma luta contra o tempo, os ciganos tentavam levantar aquela carroça em meio ao barro, velhos, mulheres e crianças dentro das carroças, a chuva fina castigando e em meio a tudo isso chegaram os soldados.

O que vocês viram aqui hoje foi exatamente como aconteceu há muitos anos atrás, os soldados cercaram o povo cigano e o comandante entrou a cavalo, a diferença era o tratamento e esse soldado perguntou:
- Quem lidera esse bando de ladrões?
Marko tendo ao lado Sarita deu um passo à frente e disse:
- Sou eu senhor, tivemos problemas e por isso estamos aqui, mas não somos ladrões, somos um povo pacífico e só queremos seguir em paz nossa viagem.
- Isso é o que todos dizem, disse o soldado, mas vocês estão nas terras do Duque Dimitri e aqui os ladrões e invasores são enforcados.
- Veja senhor, não temos armas, temos muitos velhos, mulheres, crianças, não somos uma ameaça ao grande Duque, permita que consertemos nossa carroça e vamos embora em paz.
- Essa decisão cabe ao senhor Duque, meus soldados ficarão aqui e você vai comigo, vamos ver o que o Duque decide, por hora seus homens podem continuar o conserto, mas a sua viagem acaba aqui.
- Vou com você meu pai, disse Sarita.
- Não filha. Fique aqui com os outros, eu logo voltarei.
- A mulher que se diz sua filha vem com a gente. Disse o soldado.
- Somos prisioneiros?  Perguntou Sarita
O soldado deu um sorriso e nada respondeu.

O comandante e seis soldados partiram levando com eles Marko e Sarita, os outros mantiveram o povo cigano  a mira de suas armas.
Cavalgaram por quase uma hora e adentraram ao povoado, as pessoas olhavam curiosas para os dois, mas nada falavam, o medo imperava naquele lugar.
No topo de uma elevação havia um imponente castelo, cercado por grandes arvores e muito bem guardado por muitos soldados.
Um grande portão de ferro separava a riqueza de seu morador da pobreza do povoado, por ali entraram os soldados com os ciganos, passaram por um grande corredor onde existiam  muitas portas e foram deixados em uma grande sala, antes de trancar a porta o comandante disse:
- Vocês esperam aqui para serem recebidos pelo Duque e agradeçam por não estarem no calabouço que é o lugar onde deveriam estar.
Nesta sala uma grande mesa com algumas cadeiras e animais empalhados em todas as paredes, eram os troféus de caça do Duque, a sala era fria como todo o castelo.
As horas passando e Marko e Sarita prisioneiros naquela sala, as roupas molhadas, a sede, o sono pela noite não dormida aos poucos lhes roubava a coragem..
- Eu falei que você não devia vir filha. E agora?
- Jamais eu o deixaria sozinho meu pai, vamos nos preparar para o que vem por aí.
- Temo por nosso povo minha filha, também são prisioneiros desse Duque.
- Tudo vai ficar bem pai, vamos confiar.
- Quem sabe você não consegue ler nas minhas mãos o nosso destino?
- Não me peça isso meu pai, acho que não quero saber o que nos aguarda.
- Por favor, filha, faça a vontade do seu velho pai, quem sabe não será minha ultima?
- Não fale assim meu pai, pensamentos negativos atraem energias negativas, pense positivo e eu vou fazer o que me pedes.
Marko estendeu a mão para a filha e ela com os olhos fechados fez uma oração silenciosa antes da leitura. A mão do velho pai tinha muitas linhas, algumas cortadas por cicatrizes e calos, mãos de um homem que trabalhou toda a sua vida.
- O que vê minha filha?
- Vejo a sua linha da vida, é longa tem muitos anos pela frente, vejo também nosso povo abandonando este lugar e é você meu pai quem os guia. Viu? Nada errado.
- E porque não te vejo sorrindo filha?
- Nada pai, estou apenas cansada e com sede.
Sarita não contou ao pai que vira realmente a caravana deixando a cidade conduzida por ele, mas ela não estava com eles.

No final da tarde, dois soldados entraram na sala trazendo água e comida.
- Comam porque o senhor Duque resolveu atendê-los. Sejam rápidos já voltamos.

E realmente voltaram quase em seguida, mal deu tempo de colocar algo na boca, saíram mastigando o que podiam.
- Ao chegar perante o Duque vocês devem se ajoelhar, só falar se algo lhe for perguntado, não olhem diretamente para ele, mantenham sempre a cabeça baixa, agindo assim talvez ele reserve uma sorte melhor para vocês.
- Por mim eu os enforcava. Disse o outro soldado.
Foram entrando por um grande salão, Sarita olhava com os cantos dos olhos a riqueza daquele lugar era impressionante, um longo tapete vermelho se estendia da porta até o trono, quadros nas paredes, cortinas de veludo, lacaios vestidos como nobres, os soldados em traje de gala e finalmente ele, o Duque Dimitri, sentado no seu trono.
Os soldados empurraram os ciganos até sua presença e os forçaram a se ajoelhar.
- Então são esses os invasores? Perguntou o Duque
- Sim senhor Duque, o velho é o líder do bando.
- De onde vocês são velho? Perguntou o Duque.
- Somos de todos os lugares senhor, não temos pátria, somos pacíficos, vivemos da venda daquilo que fabricamos e comemos o que plantamos senhor. Somos ciganos.

- Pelo visto minha fama ultrapassou as fronteiras velho, o que dizem de mim por aí? Responda já que como você diz não tem pátria.
Marko pensou na resposta, não podia dizer o que ouvira e muito menos o que pensava. Não devia contrariar esse homem.
- Nada demais senhor, apenas que o senhor dirige seu reino com segurança e justiça, que não gosta de forasteiros, por isso tentamos passar ao largo para não contrariá-lo.
A resposta pareceu ter agradado ao Duque.
- Veja como são as coisas velho, para mim disseram que todo cigano é ladrão, que cigano bom é cigano morto. O que você acha disso?
- São historias senhor, não sabemos onde elas começaram e convivemos com essa discriminação em todos os lugares por onde passamos.
- E você mulher, o que tem a dizer em sua defesa?
Até aquele momento Sarita permanecera de cabeça baixa, não tinha coragem de enfrentar o olhar do Duque, sentia a energia negativa que emanava daquele homem. Levantou a cabeça e seu corpo gelou, aqueles olhos transmitiam maldade.
- Nada mais do que meu pai falou senhor, temos velhos, mulheres e crianças entre nós, somos uma grande família seguindo seu caminho.
O Duque ao ver o rosto da cigana, cabelos negros, olhos verdes, ficou encantado, não conseguia tirar os olhos da cigana que neste momento abaixou a cabeça.
- Olhe para mim cigana.
Sarita obedeceu e a muito custo tentava segurar as lágrimas que teimavam em cair.
- Porque chora cigana? Não sou seu executor, não sou malvado, sou apenas justo e tal qual o que falam de vocês é historia. Vocês não são ladrões e eu não sou um ditador e vou provar o que digo.
Chamou o comandante da guarda e ordenou:
- Você deve trazer essa família como disse a cigana, para perto do povoado, deve permitir que eles montem seu acampamento, vendam seus artefatos e podem partir quando quiserem, mas por hora são meus convidados.
- Vá velho, volte para os seus, mas fica o compromisso comigo, quero você e sua filha na minha presença dentro de dois dias, não me faça desfeita e não me obrigue a buscá-los.
Dito isto com um sinal deu por encerrada aquela entrevista, mas estava hipnotizado por aquela cigana, ela seria sua.

Marko e Sarita voltaram à estrada onde o povo cigano esperava, a carroça quebrada já estava em condições de viagem e escoltados pelos soldados foram em direção ao povoado.
Já era noite e o acampamento cigano foi montado, a fogueira acesa, o povo reunido, mas não havia musica, não havia a alegria de sempre, todos sabiam que eram prisioneiros. Na manhã seguinte não haveria a buena dicha, os artefatos ficariam guardados, não haveria venda, ninguém deixaria o acampamento, tinham que esperar os dois dias que o Duque exigira, usariam esse tempo para arrumar as carroças para uma nova viagem.
Dois dias que pareciam uma eternidade, o que esperar daquele louco, Sarita temia por sua vida, mas não contara ao pai, o velho cigano já tinha muitos problemas. Despediram-se dos ciganos e partiram rumo ao castelo, como o Duque não havia dito a hora chegaram cedo e Iriam esperar.
Foram encaminhados para aquela mesma sala, desta vez a porta ficou aberta e havia uma jarra com água para eles. Depois de algum tempo foram encaminhados ao Duque, os ciganos já sabiam o ritual, ajoelharam-se e permaneceram de cabeça baixa frente ao grande Duque.
- Como vocês estão sendo tratados cigano?
- Bem senhor. Estamos agradecidos
- Ouvi dizer e acho que desta vez não é historia, que as ciganas lêem a sorte nas mãos das pessoas, é verdade?
- Sim senhor Duque, algumas ciganas nasceram com esse dom.
- E você cigana? É uma dessas?
- Sim senhor. Disse Sarita
- Então venha até aqui e leia a minha mão, talvez você veja um futuro distante.
Era tudo que a cigana não queria, se estivesse sozinha iria recusar e enfrentar as conseqüências, mas vendo o pai de joelhos submisso e o povo cigano prisioneiro teve que concordar. Subiu os degraus que levavam até o trono segurou a mão do Duque estendida.
- Olhos fechados em oração, aquela mão fria na sua, o coração batia acelerado, não queria abrir os olhos para ver o que estava por vir.
- E então. Porque a demora? Disse o Duque.
Sarita abriu os olhos e descobriu porque não queria ver o que as linhas daquela mão revelavam, o futuro que aquela mão estampava não era do Duque, era o dela e mostrava muito sofrimento, seu futuro era negro, como negra era a alma do Duque.
Tentou se recompor e pela primeira vez mentiu ao consulente, disse que via muita fortuna, saúde, prosperidade no futuro dele, disse que suas façanhas ficariam escritas na historia, que seu nome seria lembrado por muitos e muitos anos.
O Duque não tirava os olhos da cigana, nem ouviu o que ela disse e retirou sua mão.
- Pode voltar ao seu lugar mulher. Cigano diga o preço.
- Preço do que senhor?
- Do dote de sua filha.
- Minha filha não está à venda senhor.
- Ouvi dizer que entre vocês quem pagar o maior dote fica com a mulher.
- Em parte é verdade senhor, mas no caso de minha filha isso não vai acontecer, já recusei ofertas de ciganos para se casarem com minha filha, mas prometi a minha mulher no seu leito de morte que nossa filha escolheria com quem se casar, o preço é o amor.
O Duque mostrou que a resposta o havia desagradado, seu rosto se contraiu, os olhos pareciam soltar faíscas de ódio e ele fez um sinal para que o comandante se aproximasse e falou algo ao seu ouvido.

- Vocês podem voltar para onde estavam, depois mando chamá-los.
Marko e Sarita foram conduzidos à sala e desta vez a porta foi trancada..

- Filha minha, o que vamos fazer?
- Não sei meu pai, esse homem me dá medo, ele é capaz de tudo para conseguir o que deseja, pode fazer atrocidades com o nosso povo.
- Prefiro morrer a permitir que esse homem se una a você minha filha.
- Vamos todos morrer pai, vamos orar por todos nós.

No acampamento todos aguardavam a volta de Marko e Sarita com uma boa noticia, quem sabe poderiam seguir viagem, sair daquele lugar, mas quem chegou foram os soldados do Duque invadiram o acampamento improvisado derrubando tudo que havia pela frente e o comandante disse:
- Doze bastam por enquanto.
Rapidamente os soldados prenderam doze ciganos, os mais fortes, os mais jovens, aqueles que formavam o alicerce do grupo e foram embora com os prisioneiros, amarrados um a um seguindo os cavaleiros.

No castelo Marko e Sarita oravam pela sorte dela e do povo cigano, um soldado entrou e  novamente os levou a presença do Duque. O mesmo ritual, os dois ajoelhados perante aquele homem e ele disse:

- Velho. Vou te dizer o que não é historia. O que eu quero, eu tomo, não peço. Mas no seu caso ainda quero fazer uma troca. O que vale mais para você velho um ou doze?
Marko não entendeu a pergunta, um ou doze o que queria o Duque?
- E então velho. Responda o que vale mais um ou doze?
- Doze senhor.
- Você é esperto velho, eis minha proposta. Como você já ouviu falar em minhas terras os ladrões são enforcados e tenho doze deles para trocar por sua filha.
Fez um sinal e os guardas trouxeram os ciganos amarrados e os colocaram de joelhos ao lado de Marko e Sarita.
- Vamos negociar velho? Lembre-se o que eu quero, eu tomo, você não tem muita escolha e digo mais, posso aumentar a oferta para vinte, trinta, tem muitos ladrões no lugar de onde vieram esses, inclusive crianças..
- Aceite meu pai.
- Espero que um dia você me perdoe filha, trocaria minha vida pela sua felicidade, mas não tenho essa escolha. Perdoe-me filha. Adeus. Que Santa Sara fique ao seu lado.
- Pelo visto tomou a decisão certa velho, agora você tem um dia para deixar as minhas terras com o seu bando e não voltem nunca mais por aqui porque mando enforcar a todos. Saía das minhas terras vá embora, sua filha está em boas mãos e deu uma gargalhada.
Os soldados empurraram Marko e os doze ciganos para fora do castelo, Sarita continuava de joelhos e ainda de cabeça baixa.
- Chamem as camareiras, quero esta mulher limpa de toda essa sujeira, perfumada e vestida com roupas novas para me servir.
As mulheres entraram e ajudaram Sarita a se levantar em seguida a levaram para os aposentos do Duque.

Enquanto isso Marko acompanhado dos ciganos chegava ao acampamento, àquelas horas de aflição no castelo haviam acrescentado vários anos a sua vida, estava cansado de tudo,
Perdera a filha querida, sentia-se impotente para continuar guiando seu povo, o velho líder chamou um dos ciganos e pediu que ele liderasse a caravana para longe daquelas terras, depois o tribunal cigano escolheria um novo líder, a partir daquele dia ele e sua carroça seriam os últimos.

No castelo as camareiras banharam a cigana com óleos perfumados, pentearam seus longos cabelos negros, roupas finas e muitas jóias, estava linda, parecia um anjo, um anjo triste, e orgulhoso com uma lagrima solitária descia dos seus olhos.
- Precisa mais alguma coisa moça? Perguntou uma velha camareira.
- Quero uma rosa senhora.
- Não me chame de senhora, sou mais uma das infelizes que Deus colocou neste lugar para pagar nossos pecados, seja forte menina, Deus está com você e ele não abandona seus filhos, vou buscar sua rosa.
Sarita parou diante do grande espelho e viu a transformação, se a situação fosse outra ia se achar linda, retirou a tiara de diamantes dos cabelos e colocou a sua rosa, podiam mudar sua forma de vestir, podiam matar sua vontade de ser livre, mas ninguém no mundo poderia fazer com que ela deixasse de ser cigana.

A caravana cigana abandonava aquelas terras deixando para trás a sua alegria, mais uma vez foram vitimas e mais uma iriam superar, assim estava escrito. O povo cigano na estrada e a cigana da rosa nos braços de seu carrasco.

O que passou a jovem cigana foi algo que não merece ser lembrado, foi agredida, espancada por aquele animal, ele roubou sua inocência e a abandonou a própria sorte.
Na manhã seguinte a camareira a encontrou muito machucada, o sangue manchara os lençóis mostrando que ela era uma virgem, com muita pena a velha camareira ajudou Sarita a se levantar, cuidou dos seus ferimentos e a levou a um quarto nos fundos do castelo, seria seu novo lar por ordem do Duque. As jóias e as roupas finas ficaram sobre uma cadeira, para mostrar que ela não foi comprada, continuava livre e cigana.

Já bem distante das terras do Duque Célio que agora guiava o povo cigano notou que a carroça de Marko já não acompanhava as outras, estava parada ao lado da estrada, ordenou que parassem e foi verificar o que estava acontecendo. Ao se aproximar achou que Marko estivesse dormindo, nada mais justo havia passado por maus bocados, se pudesse deixaria ele descansando, mas a caravana não podia parar, então chamou por ele:
- Pai grande temos que seguir, depois você descansa!
Não houve resposta então Célio desceu do cavalo e subiu na carroça, o velho cigano não estava dormindo, estava morto.
- Quanta desgraça meu Deus, o que fizemos para dar tudo errado? Ele era um bom homem, um bom pai, um grande líder de nosso povo e parte assim de repente, eu não entendo senhor.

A noticia da morte de Marko correu como rastilho de pólvora entre as carroças, homens, mulheres, crianças desceram de suas carroças e vieram até onde estava o velho cigano, alguns homens o retiraram de sua carroça e colocaram seu corpo sem vida no chão, o povo cigano que ainda não havia chorado pela perda de Sarita, chorava agora pela perda dos dois.

No castelo Sarita sentiu que alguma coisa havia acontecido e mesmo sem saber o que era começou a chorar, a velha camareira se aproximou e disse:
- Não chore menina, o pior já passou, talvez o Duque nunca mais volte a vê-la e depois de algum tempo você poderá voltar para o seu povo.
- Nunca mais vou voltar para a minha gente, eu sei disso, choro por meu pai.

O enterro de Marko foi rápido e triste, desta vez o povo cigano não pode homenagear seu líder como devia e sua carroça não foi queimada como mandava a tradição, por ordem de Célio ela voltaria a liderar a caravana, era a herança de Sarita e um dia ela viria buscar..

A cigana da rosa era como todos a conheciam naquela parte do castelo, ficou amiga dos serviçais e se apegou muito a velha camareira que se chamava Brenda, a cigana linda e juvenil que havia chegado ao castelo hoje era outra pessoa, um pássaro engaiolado, não se cuidava, mal vestida, havia comida, mas ela recusava e o pouco que comia voltava, parecia muito doente, queria morrer aquilo não era vida, mas jamais deixou de usar a sua rosa nos cabelos.

- Filha. Disse brenda. Acho que você está grávida.
- Não me diga isso pelo amor de Deus Brenda, não posso gerar o filho do monstro.
- Ele ou ela não tem culpa menina foi concebido no ódio por isso deve ser amado.
- Amado por quem Brenda? Aquele animal nem sabe que espero um filho dele. Maldito seja.
- Não fale assim minha filha, esse ser que você carrega no ventre pode ser a resposta para muitas perguntas, quem sabe não é ele quem trará a luz para as nossas terras?
- Duvido muito amiga, se depender de mim ele não terá essa chance.
Os dias e meses que se seguiram foram terríveis, a cigana não se alimentava, o pouco que comia era quase forçado por Brenda e lutando contra tudo o filho indesejado crescia em sua barriga.
No oitavo mês da gestação Sarita mal conseguia ficar de pé, Brenda cuidadosa ajudando sempre, achava que aquela criança mudaria o mundo e tudo faria para que ele vivesse, fazia caldos e sopas para manter um pouco de saúde no corpo da mãe para a chegada do filho. Então em uma noite as dores do parto, Sarita estava tão fraca que não tinha forças para ajudar seu filho nascer e na realidade não queria ajudar, Brenda correndo de um lado para o outro, fervendo água, trazendo panos e rezando por aquela criança.

- Tente fazer força cigana, mostre a guerreira que você sempre foi, mostre para todos a força da sua raça, lembre-se do seu pai cigana.
- A citação do seu pai fez com que a cigana passasse a ajudar.
- Meu pai. Sim meu pai eu vou fazer força e vamos nos encontrar de novo.
Um último esforço e a criança veio ao mundo enquanto sua mãe o deixava.
A vida é como um grande castelo, duas portas, por uma se entra, por outra se sai e foi o que aconteceu.
Brenda abraçou a criança, era uma menina linda como a mãe, cortou seu cordão e a cobriu com alguns lençóis, olhou para Sarita sem vida e chorou, naquele momento resolveu que esconderia a criança.

A noticia da morte da cigana chegou ao Duque Dimitri, ele mal se lembrava dela, era apenas mais uma de suas muitas conquistas e nem mesmo ao saber que estava grávida e que a criança morrera no ventre da mãe o abalou. Ordenou que a enterrassem longe do castelo e que fosse esquecida.

Brenda feliz da vida tinha agora uma filha e deu-lhe o nome de Bárbara, na realidade já tinha um filho que era um dos soldados do Duque, mas ele estava sempre distante, raras vezes vinha ao castelo e em uma dessas vindas conheceu a menina e se encantou com a criança, a mãe não escondeu sua historia e isso fez com que ele se apegasse à menina.

Sete anos se passaram, Bárbara era uma criança linda, muito parecida com a mãe, os cabelos negros, os olhos verdes, a pele morena clara, muito alegre e ativa, não obedecia muito as ordens que diziam que ela devia ficar naquela parte do castelo, curiosa, todos os dias andava pelo castelo, indo cada vez mais longe em suas descobertas.
Um dia andando por onde não era permitida a sua presença encontrou o Duque, ele ao ver a criança ficou paralisado, era a cigana, como era possível duas pessoas tão parecidas, aqueles olhos verdes não tinham iguais.
- Venha cá menina. Disse o Duque.
Ela se assustou e saiu correndo dali, o Duque chamou pelos guardas e mandou que seguissem e trouxessem aquela criança a sua presença.
Bárbara já estava nos braços de Brenda quando foi alcançada pelos guardas.
- O Duque quer que levemos a menina até ele.
- Porque? Disse Brenda. Ela é apenas uma criança, não faz mal a ninguém.
- Disso nós sabemos, mas são ordens do Duque, se quiser venha com ela.
Meu Deus. Pensou Brenda, ele vai mandar me matar quando descobrir que a menina é sua filha.
Chegando a presença do Duque a menina estava assustada e ele não tirava os olhos da criança, era o mesmo rosto da cigana.
- Filha de quem é essa menina? Perguntou o Duque.
- Ela é órfã senhor. A mãe morreu durante o parto e eu a crio.
- E quem era a mãe?
- Não vou mentir senhor, era aquela cigana que o senhor mandou que eu cuidasse.
- Quantos anos tem essa criança?
- Sete senhor.
- E quem é o pai? Com certeza algum cavalariço.
- Desculpe senhor, mas preciso dizer.
- Diga logo quem é o pai dessa criança.
- É o senhor meu Duque.
Dimitri ficou calado e com um sinal dispensou a todos, queria ficar sozinho.
Brenda com a criança no colo voltou aos seus aposentos, sabía que o Duque mais cedo ou mais tarde tomaria uma atitude, temia por sua vida e pela da criança.
Aquela foi uma noite estranha, Brenda que por sinal era a mãe desse nosso amigo que nos visita não dormiu com medo do que o Duque poderia fazer e o Duque não dormiu pensando ora na criança, ora na cigana e ao amanhecer chegou à conclusão que eram a mesma pessoa.

Levantou muito cedo e mandou os soldados buscarem Brenda com a criança e elas foram trazidas até ele.
Brenda se ajoelhou e mandou que a criança fizesse o mesmo, mas o Duque impediu.
- Ela não é minha filha?
- É sim senhor Duque.
- Então não deve reverencia a ninguém, é uma Duquesa. E você a partir de hoje vai se mudar para os meus aposentos com a criança, que nada lhe falte e pensei muito durante a noite, vou te recompensar pelo que fez.
- Obrigado senhor, vamos nos mudar hoje mesmo.
E assim foi feito Bárbara agora era a filha do Duque Dimitri, quando ela passava todos tinham que fazer reverencia, para ela tudo era engraçado, as pessoas se abaixavam e ela se abaixava também, todo o ódio e o medo que o Duque inspirava, a filha pelo contrário transmitia segurança e amor.
Dimitri com a criança ao lado mudou completamente, claro que não virou um anjo, mas, se tornou menos duro com as pessoas, algumas vezes chegou a ser bom e todo mundo sabía que Bárbara havia conseguido um milagre.

Depois que completou 14 anos Bárbara passeava pelos jardins do castelo e parou em frente a uma roseira, retirou uma rosa e colocou nos cabelos.

A cigana da rosa estava de volta.

Um dia chegando de viagem Dimitri entrou no castelo e encontrou a filha sentada em seu trono com uma rosa no cabelo, seu sangue gelou, o coração disparou e o medo tomou conta daquele homem.
- É aquela  cigana que voltou para se vingar.
A menina nem conhecia a historia da mãe, agira por impulso e gostara do novo visual, usaria sempre uma rosa nos cabelos. O Duque pelo contrário estava assustado e mudou o comportamento, andava pelos corredores do castelo procurando quem era o seu assassino, mal se alimentava com medo de ser envenenado, o terror que durante anos havia imposto ao povo agora ele sentia na carne, não confiava em ninguém, vivia trancado em seus aposentos, não atendia ninguém, nem mesmo os médicos queria ver, a única pessoa que conseguia falar com ele era Bárbara.

Diante da filha ele se ajoelhava submisso, cabeça baixa, só falava quando ela perguntava alguma coisa, a menina não entendia o comportamento do pai, tentava demovê-lo dessa loucura que o estava matando aos poucos, o inimigo dele era ele mesmo.

Bárbara assumiu o controle das propriedades do pai, seu jeito sereno e contagiante logo conquistou todo o povoado e redondezas e ela era humana, foi ao encontro do povo e ouviu suas queixas, mudou tudo, devolveu a vida àquelas pessoas e eles agradeciam tudo que conquistavam á Duquesa da Rosa.

A vida nos ensina, mas nós não queremos aprender, as lições nos são dadas todos os dias.
Durou exatos oito meses a agonia do Duque Dimitri, o mesmo tempo que durou a agonia da Cigana da Rosa, durante oito meses ela tentou morrer, durante oito meses ele tentou viver.
Dimitri desencarnou no dia que Bárbara completou 15 anos e só depois da passagem do Duque foi que Brenda já bem velhinha contou a Duquesa a historia de sua mãe.
- Não me canso de ouvir e nem de contar essa historia disse Kael ao amigo gadje, ele sorriu e disse:
- Nem eu amigo.
- Agora meus amigos. Disse Kael acho que nem preciso dizer de quem é aquela carroça vazia que há muitos anos acompanha nossa caravana. È a carroça da cigana da Rosa e nós vamos entregá-la a sua filha a Duquesa da Rosa, uma cigana nobre ou se preferirem uma nobre cigana.
Vamos dormir porque amanhã o povo cigano é o dono da cidade, Santa Sara será homenageada por todos, ciganos e não ciganos que são agradecidos a Duquesa da Rosa, toda a cidade vai participar da nossa festa.

Salve você Pai grande Marko
Salve a Cigana da Rosa,
Salve a Duquesa da Rosa,
Salve Santa Sara
Salve o povo cigano.

Hoje, amanhã e sempre.

FIM
Gidelson E. da Silva
25/05/2008
Gil o sete
Enviado por Gil o sete em 30/07/2008
Reeditado em 27/07/2010
Código do texto: T1105260

Copyright © 2008. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Gil o sete
São Paulo - São Paulo - Brasil, 65 anos
14 textos (10573 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 30/10/14 16:13)
Gil o sete



Rádio Poética