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Contorno-hinduísta-obsessivo

Ele veio com a camisa lilás novamente. A indefectível e infecta camisa lilás. Como se vivesse em um universo paralelo, ou fosse um personagem de desenho animado, ele insiste em repetir dia após dia, irritantemente, a maldita camisa lilás. Posso imaginar seus filhos gordinhos e idiotas, sua gorda esposa assistente social, seu cachorrinho cockspaniel, todos felizes no churrasco de domingo no condomínio, e ele, é claro, envergando em sua pêra disforme, como um veleiro inflado, a maldita camisa lilás.

Confesso que venho amolecendo. Até suportei as manchas de café, o cheiro de bolo caseiro que invariavelmente ele trazia num ritual macabro de previsibilidade – assim como seu bom-dia, seguido de um “campeão” -, as fotos dos tais gordinhos brincando com Fido, até suportei. O que me dava náuseas nele e nas pessoas em geral, é que basta um fiozinho, por mais fino e improvável que este seja, de esperança, para que elas se agarrem a este como a corda de segurança de um bungee jump. Essa idiotização otimista causadora de diversos males modernos, do Green Peace ao Criança esperança. Foi-se a utopia comunista e ficou uma doença ainda pior: a utopia do desenvolvimento sustentável. A ingenuidade reinante de que dias melhores virão, de que cada um faz sua parte, cuidando da do outro, zelando, e sendo assim, infalivelmente todos venceremos. O resultado dessa equação são dúzias de universitários esperançosos que, ingênuos, deixam de comer carne, desconsiderando milhares de anos de evolução – cagando na cabeça de Darwin – em função do sofrimento dos frangos. Tenha dó, né. O que, por tabela, abarca dentro do mesmo conceito e valida estilos de vida altamente modorrentos, como o do meu “amigo” da mesa 12. Nessa luta, a camisa lilás uma bandeira, um sinalizador flamejante, um farol aceso no mar de mediocridade.

Ah, meus tempos. Meus velhos e distantes tempos. Porra nenhuma de bons tempos. Por aqui: totalmente nublado e chuvas constantes, desde os mais tenros anos, aqueles de juventude e flores. Nuvens e relâmpagos, som e fúria. Minha infância foi, assim por só falar, comum. Aquele tipinho chinfrim correndo de lado a outro, desviando astuto dos cintos que eventualmente voavam e de uma ou outra bebedeira mal curada que resultava em marcas de vara de goiabeira. O que me custou um pavor por goiabada, compotas e tal. Deu-se foi que sem muita escolha cresci desajustado, um pária metido. A besta. Graças a Seu Agenor, nosso – “nosso”; pronomezinho mentiroso de infância, nada foi “nosso”, tudo era deles, seu, meu – vizinho erudito e pedófilo. Professor de piano, Agenor além do gosto por garotinhos desgarrados do rebanho, adorava se exibir, um puta dum eruditismo desnecessário. A bicha meio que me apadrinhou, um pouco por pena e necessidade de um pigmalião e um pau duro, não sei bem em que grau; e outro tanto por falta do que fazer mesmo, já que as aulas escasseavam e se tornava deveras difícil arrumar desculpas para segurar em pintinhos não empenados. Era um covarde. Desde o incidente em que um garoto de programa abriu um sorriso mais largo em sua face, que ficou conhecido à boca pequena, claro, como “noiva de Frankenstein”. A turma não perdoava, caçoava mesmo. Gritavam pelas ruas, a anunciá-lo (a?) cada vez que saía de sua casa amarela. Morava em uma vila, herança de família, toda pintada de amarelo. A casa dourada. Seu refúgio. A própria princesa emparedada na moral de subúrbio, donzela de masmorra. Os garotos zoavam, mas adoravam as fotonovelas pornôs e os agrados do Titio Agenor. Pois bem. Hormônios em ebulição, troca-troca, búlica, bala e pipoca. Piroca era o que se dava em troca. Minha primeira visita foi por ocasião. Mamãe que havia arrumado um segundo emprego de meio período e Papai que havia arrumado uma nova Kátia de nome amante. Por causa da escola, eu tinha de ler “O Alienista” e, pra variar, não tinha um puto no bolso. Quem me salvou? Ã-hã. A partir desse dia, foram visitas e mais visitas, das quais eu saía sempre em contradição: saco vazio, bolso cheio. Maravilhas do capital. Verdade que extraí muito mais disso, verdade. Lições de Marx a puta que o pariu; O chato do Faulkner e o clima anuviado de minha alma; do Velho Machado ao Jovem Werther; enfim, me pegou pra maridinho e aluno, quando o que eu queria mesmo era carinho e gozar. Foda-se. Lembro disso sem um pingo de saudosismo ou vergonha que, aliás, jamais tive.

Todos os dias ele come o mesmo. Quase tudo do bufê, pra ser exato. Arroz, feijão, frango, salada e salgadinhos (pastéis, coxinhas, etc.). Não confio em pessoas que misturam as refeições diárias com salgadinhos de festas, desses que se comem com guaraná em copo de plástico. Nesses tipos e em evangélicos. Não confio mesmo. Por duas vezes conversamos. Por duas vezes tive vontade de matá-lo.

- Bom-dia, campeão.
- Bom-dia.

Fim do diálogo. Algo na entonação da voz dele, uma voz fina, dissonante, descombinada com o corpanzil de leão-de-chácara, me assustava. De uma maneira estranha, um canto de sereia. Agenor tinha uma voz grave de barítono. Freud explica.

Daí que passei de repulsa a atração. Queria saber mais sobre o elefante. Encurtando: os tais gordinhos, a traição da assistente social, seus dois casamentos anteriores fracassados; Pormenores interessantes numa vida sem-graça. Isso prum vampiro de personalidades como eu, acostumado às transferências de afeto que uma educação falha causa – de Agenores a conhaques de alcatrão em bares a gordos mal casados.

Todos os dias a cena se repetia. Apesar de passar do meio-dia, esperar que dissesse boa-tarde era o mesmo que sentar e esperar o cometa Halley.

- Bom-dia, campeão.
- Bom-dia.

E eu o servia com o prato misto de costume. Meio prato executivo, meio festinha de criança. Houvesse brigadeiro de sobremesa, o auge. De longe o lilás o denunciava. Não sabia sua posição na empresa, nem mesmo seu nome, mas sabia detalhes de sua vida. Como? Influência com as meninas que limpavam os escritórios. Uma coisa puxa outra, samba na sexta, forró no sábado, caipirinhas e motéis baratos: pronto, ficha completa do gordo; calda, chantilly e cereja por cima. Então eu comia a Neuza, e em troca, e talvez por ser burra demais pra perceber minha real intenção, ela me contava tudo. Se tivesse terminado o ginásio pelo menos, eu pediria que me redigisse um relatório diário das desventuras adiposas do objeto de meu estudo. Uma pesquisa minuciosa ao estilo Marc Bloch sobre os acontecimentos passados e lilases. No rigor do método, claro. Mas não. Tive de me contentar com a especulação. E a porra da imaginação, minha companheira na falta de brinquedos e de mulheres – um dia cansei do Agenor, naturalmente.

A Neuza freqüentava um supletivo noturno, uma dessas iniciativas governamentais. Foi o gancho pra bater um papo sobre as condições difíceis de estudo para quem trabalha, a idade e tal, choro aqui, choro ali. Isso e as balas de coco depois de servir o cafezinho, criou um laço de confiança entre eles. Um talento pra fofoca, devo confessar. Pra alguma coisa se tem que prestar não é mesmo? Ah, uma bunda redonda também. No fim do dia, no meio dos lençóis encardidos do motel Espinha, meio a contragosto me repassava o briefing. As informações meio picotadas, fragmentos mal recortados de um relato suculento. Das migalhas e do farelo eu sugava com meu aspirador de pó espiritual o que fosse possível para meu deleite voyeur-obsessivo. Dei pra romancear as memórias. Como o próprio biógrafo não autorizado, compilei anotações que viravam parágrafos, que viravam capítulos, que viravam meu pão, meu vinho, carne e sangue. Naqueles garranchos escritos às pressas, transcrevia também minha alma, desnuda, entranhas à mostra, as varejeiras interiores revoando em nuvens. Mesclado àquele marasmo suburbano, minha própria aura sob a luz de memórias que, quem dera, fossem minhas. Fui moldando o paquiderme ideal, acendendo meus incensos escondidos em recantos mentais até então reprimidos. Naqueles dias, o elefante foi meu salvador. Meu adorável Ganesha.

Fantasiava então, o seu dia-a-dia fora dali, metido em shorts e em tênis brancos com meias de cano alta, repuxadas até o meio das canelas e, surpreendentemente com a camisa símbolo. Surgia assim nos meus sonhos, melhor, nos meus devaneios, fluxos criativos em que o transformava em meu próprio Budazinho, uma ilhota de tranqüilidade em meio a um oceano de moedas de metal barato. Um Tio Patinhas generoso, sempre pronto a dar-me de beber caso tivesse sede.

Ir ao trabalho deixou de ser a obrigação chata e quase automática de sempre. O alheamento que, contraditoriamente, sentia em função da entrega de corpo e espírito ao cotidiano esmagador da labuta diária, deixou de existir. Tudo passado. Meu Ganesha sempre a materializar-se, a começar pelas noites e madrugadas a fio reescrevendo sua vida, só que desta feita, por linhas menos tortuosas e muito mais líricas, diga-se de passagem – meu Mahabharata; até o encontro real, carnal, a comunhão com meu ídolo nomeado, por volta de 12:45, por aí.

Não que minha aversão houvesse, assim como a borboleta que sai da crisálida, evoluído para um amor sem fim. Nada disso. Muito menos tinha devoção à pessoa do bolo fofo. Não. O que ocorre é que na falta de algo a se amparar, agarras seguras, as pessoas descrentes e céticas como eu tendem a supervalorizar momentos, tal qual as namoradinhas tímidas de ginásio – nada a ver com esperança. Aí são juras de amor, flores, bombons e no fim brigas judiciais pela guarda do Júnior. Não, nada dessa merda. Apaixonei-me, de forma pura, por suas memórias. Digo: por minha alteração de suas memórias; pelo poder de conceber nova vida, ou talvez novos ares a um indivíduo completamente descartável, tornando-o importante para alguém mais – um ser pra posteridade, como os cágados de mais de século – que a família nuclear burra em que era o rei.

Pois foi exatamente assim que as coisas transcorreram. Entre uma foda e outra no cu de Neuza, eu rabiscava meu épico e visceral poema, tom sobre tom, estrofe por estrofe, valorizando as variações de lilases possíveis e existentes. Até o dia do inesperado. Tenho uma pré-disposição genética para uso de drogas e para fortes decepções. Mas não estava preparado para nenhuma de minhas duas overdoses ou para o que iria acontecer há exatos três meses após a criação de minha seita transcendental. Não é que o filhodaputa resolveu aparecer com outra blusa?! Antes uma camisa, mas blusa?! Como assim?! Desrespeitou toda liturgia e sacramentos por mim, sacerdote em chefe, desenvolvidos. Herege! Pra tal comportamento nem a ira de Átila, o Huno, seria suficiente; nem ser atropelado por bigas e ter o corpo coberto por sal grosso; nem ter o fígado comido por um falcão e no dia seguinte ter o mesmo regenerado para novamente ser devorado; Não, seu castigo seria muito pior.

- Bom-dia, campeão.
- Bom-dia.

Minha vontade era de enfiar-lhe por dentro do focinho de porco a travessa quente de lasanha, porém ataquei como os lordes ingleses o fariam em duelos sob o sol cálido da tarde. Elegante, limpo, cirúrgico.

- Não fizeram coxinhas hoje, desculpe.

A expressão de desolação se armou no seu rosto redondo, num crescendo, como um bote inflável alimentado por um compressor defeituoso. Um vai e vem de ar e energia, desenrugando-se, desenrolando-se, só pra notar que o esforço é desnecessário, impossível vencer. Veias explodindo, nervuras sulcadas na pele que jamais tornariam a voltar para o lugar, vitalidade desaparecendo com um efeito devastador, em se tratando de uma bola de gás sem sentimentos. O ramerrão cotidiano uma pedra amarrada em seus pés, puxando pro fundo do rio da vida do suicida. Resolveu mudar: quebrou o encanto. E sofreu as conseqüências. Satisfação maior só no funeral de meu progenitor, apelidado de Pai. Depois disso perdi totalmente o interesse. O preço pago por revirar velhos baús, espantar antigos fantasmas. A Neuza continua sendo meu quebra-galho. Que bunda.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 11/02/2006
Código do texto: T110538
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista