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DEL. POL.

13º distrito
 
 
 
 
 
 
 
 
É difícil, doutora, acreditar que ele  vai abandonar o vício. Durante toda nossa vida juntos eu o vi sair de casa à noitinha e só voltar alta madrugada. E quase sempre, sem nada. Ou melhor, com mais uma dívida de jogo. Eu trabalho na cantina da escola do bairro, no período noturno, para aumentar nossa renda. Durante o dia sou auxiliar de enfermagem. Ele não tem emprego fixo. Sempre me disse que não aceitava isso de ter hora pra entrar, cartão de ponto e hora pra sair. Que gostava de ser livre. Então, vivia de bico. Houve época em que os bicos, de certa forma, eram quase fixos. Era só ficar no ponto e pegar o serviço. Mas, de uns tempos pra cá, nem ponto e nem bico. Ele passa semana parado. Mas nunca fica em casa. Bem que ele podia me adiantar o serviço. Eu ia adorar chegar e não ter fogão pra enfrentar, roupa pra lavar ou passar- que um dia lavo e noutro, passo. Ia adorar não ter que faxinar no sábado a casa e no domingo, a cozinha e toda roupa de cama, mesa e banho. Ia adorar encontrar, ao menos, o banheiro limpo, sem aquele cheiro de cigarro que tem nas suas roupas e de urina, que ele é mesmo péssimo de pontaria. Pra ser bem verdadeira, doutora, tenho quase certeza que não é que ele é ruim de pontaria, não. É que nunca se importou mesmo se acertava ou não. Se respingava ou não. Se escorria ou não. Assim como fazia comigo: nunca se importou se eu estava gostando ou não, desde que ele estivesse gostando. Nosso casamento, doutora, sempre foi muito bem, mas muito bem mesmo enquanto nós dois amamos a mesma pessoa: ele.
É, porque eu amava este homem pra caramba, doutora. E nem sei explicar como ou quando foi que o amor foi-se acabando. Tenho pra mim que foi desde que fiquei muito amiga de Elizete, a psicóloga da escola. Ela ficava na cantina, conversando comigo, sempre, entre um atendimento ou outro e no final da noite, todas as noites, enquanto esperava a carona pra ir pra casa. Ela fazia com que eu olhasse pra mim, de vez em quanto. E fui me comparando: eu era moça ainda. Sou moça, doutora. Não pareço, mas tenho só 36 anos...E fui vendo Elizete, tão mais moça, com mais de quarenta e lá vai lambança. Sempre bonita e tão cheirosa! Eu fui ficando com vontade de ficar cheirosa, pelo menos de vez em quanto. E fui querendo ajeitar o cabelo, as unhas e ter tempo e um dinheirinho que fosse, só pras essas minhas coisas, entende doutora? Elizete me disse outro dia que eu estava gostando- também- de mim e que isso era uma coisa muito boa! E eu sentia que era. Era mesmo. Mas as coisas lá de casa é que foram- também- mudando. Eu fui deixando alguns trens pra lavar de um dia pro ouro, fui deixando pra passar a roupa só na hora que fosse usar. E acho que nisso fui deixando a dele de lado. É por isso que ele me acusa dizendo que abandonei meu lar, que não cuido da casa, que devo ter outro. Mas juro, doutora, não tenho. Sou mulher direita, fui criada assim. Mas, preciso dizer uma coisa: eu quero o divórcio, doutora, porque eu quero ter outro. Quero ter um homem que me ame. Mas, escute doutora, o divórcio, eu estou pedindo também porque não quero mais pagar dívida que não é minha. Não quero pagar mais nenhuma dívida de jogo. A última paguei ontem. Bateram lá em casa, fizeram a cobrança. Quando ele chegou, meio alto demais da conta, falei que iriam voltar pra receber e que , desta vez, era muito dinheiro e que ele tinha exagerado, ido além da própria conta e que eu não tinha como ajudar, que ele haveria de se virar. Levei um safanão tão forte- está vendo as marcas, doutora?- que tonteei. Mas não o suficiente. Aliás, penso que aquele safanão fez brotar de dentro de mim uma coragem de que nem eu sabia que era dona. Pois foi nessa coragem toda, doutora, que abri a bolsa, fiz um cheque e dei na mão dele. Depois fui pro quarto, tirei toda roupa dele do armário, todas as coisas e coloquei numa mala - a que viajou só quando me casei, e foi pra trazer a minha roupa. Depois, fui até a sala, abri a porta e chutei com vários chutes a mala pra rua. Olhei firme pra ele e, dedo na cara sibilei entre os dentes: rua, moço! rua! E aí ele foi e me chamou aqui na polícia. E eu chamei a doutora. E olha, mesmo que eu acredite que ele abandonará o vício, agora é tarde doutora. Muito tarde. Nós dois já não amamos a mesma pessoa. Eu me amo.
Linda Maria
Enviado por Linda Maria em 13/04/2005
Código do texto: T11164
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Sobre a autora
Linda Maria
Piratininga - São Paulo - Brasil, 66 anos
9 textos (640 leituras)
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