Rumos

Sentou-se em posição de lótus, olhos semicerrados, penumbra e silêncio. Precisava tomar contato com seu eu mais profundo, era o que havia lido na revista. Existia uma técnica especial, como era mesmo? Ah sim, contar de trás para frente: 50, 49, 48, 47, parece que vai chover, que boa essa umidade, 46, 45, 44, amanhã vou ao supermercado, preciso comprar sabão em pó... 40, 41... ah não, é de trás para a frente, parei onde mesmo? Bem, na revista dizia que, caso nos perdêssemos, deveríamos começar tudo de novo: vamos lá. 50, 49, 48, 47... esqueci de trancar o portão... 39...?

Desistiu da técnica. Começou a tentar prestar atenção às batidas de seu coração: tum-tum, tum-tum. Incrível essa máquina, o ar entra e sai, um músculo frágil é o responsável por levar sangue a todo o corpo, dos pés à cabeça, literalmente... E se esse músculo resolve falhar? Foi ficando agoniada, a respiração ficou acelerada, o ritmo cardíaco também se acelerou: tumtumtum, tumtumtum. Respirou fundo, acalmou-se e abriu mão de bancar a cardiologista.

Resolveu reviver boas recordações. Começou a lembrar do dia em que conheceu aquele homem... Mas as imagens vinham rápido demais, atropelando-se em seqüências cronológicas inexatas. Outro homem entrou. E outro. E uma mulher. E a sua vida de um emaranhado de relações superficiais foi ficando clara à medida que os rumos de sua vida ficavam cada vez mais obscuros.

Preciso de uma luz, pensou. Preciso de um rumo, uma meta, um objetivo. Preciso saber quem sou e o que quero. 39, 38, 37. Tum-tum. Fulano. Cicrano. Beltrano. E a Maria. E a cintura crescendo, e os anos se acumulando em suas costas, fazendo-a vergar na posição de lótus. E as dívidas, e o chefe, e a mãe e o pai, o filho que ainda não tinha, o diploma que ainda não conseguira, a casa alugada, a vida emprestada, a perna enformigada, dobrada em lótus. Uma flor que nem existia no seu quintal.

Que, aliás, não tinha flor nenhuma.

Levantou-se de um salto, tomou um banho quente e prometeu a si mesma: amanhã dou um rumo na vida. Começo o regime, dou um basta nessa relação doentia, volto a estudar. Amanhã adoto um gato vira-latas, compro um vaso de flor. E abro uma poupança.

Logo, de um sobressalto, lembrou-se de que o hoje já havia sido o amanhã de ontem...