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O Camponês "burro"

Certa vez, numa pequena chácara à beira de uma rodovia, “seu” Moacir, o proprietário, acabando de almoçar, saiu para fazer a sesta à sombra de uma velha e frondosa mangueira. Ali naquele lugar calmo e tranqüilo, aproveitando o tronco forte da árvore, mantinha uma rede esticada, atracada num moerão que para isso tinha ali aprumado. E assim como todo dia neste horário, deitava ele nesta rede e ficava a contemplar  o verde da  sua pequena plantação de hortaliças, legumes, milho, feijão e algumas frutas. Sua área era realmente pequena, mas totalmente plantada, com exceção apenas de um trecho, no qual havia construído um pequeno lago, onde criava alguns peixes para sua própria subsistência.
Estava então ele ali deitado, apenas esperando seu cigarrinho acabar de queimar, para dar sua costumeira cochilada.
Coincidentemente, estava chegando naquelas paragens dois empresários, que viajando em uma limusine, vinham discutindo seus rentáveis negócios. Ao passarem perto da propriedade de “seu” Moacir, um deles, notando o capricho da plantação e a presença do dono preguiçosamente estirado naquela rede, imediatamente mandou seu motorista parar, e comentou com seu colega de viajem.
--- Veja bem.... ali naquela rede está um homem de muito valor. Apenas lhe falta alguém que o oriente, para se prosperar na vida. Vamos descer e falar com ele, pois isto até é um ato de caridade que podemos fazer.
Assim, desceram do carro e passando por entre o arame farpado da cerca, chegaram perto do camponês que a esta altura já estava começando a pegar no sono. Bateram palmas, e estas então o acordou. E sentando-se então atravessado na rede, de frente para os estranhos, perguntou:
--- Quê que voismecês deseja?
--- Estamos aqui admirando a sua plantação. Disse o empresário, que havia se impressionado com a propriedade, ao mesmo tempo que se aproximava do agricultor.
--- Hummm!!!... Fez ele.
--- Escuta aqui... esta terra é do senhor? Perguntou.
--- É, uai ?...
--- O senhor é quem cuida de tudo? Tornou a indagar
--- Sim... uai?
--- Pois então...   posso lhe dar um conselho?
--- Se o sinhô quizé... pode falá. Respondeu o matuto.
--- Olha... disse o entusiasta. ... por quê o senhor não colhe estes produtos que já estão no ponto de ser comercializados,  em vez de ficar aí deitado.
--- Mais pra quê eu vou coiê agora?... se eu inté já armocei, agorinha memo?
--- Não... o senhor não está me entendendo... o que eu quero dizer é que uma vez colhido, o senhor vai até a cidade e os vende... e fazendo isso sistematicamente, em pouco tempo terá o dinheiro suficiente para comprar estas terras aí ao lado...
--- Mais pra quê que eu vou querê mais terra?
--- Veja bem... comprando esta terra aí do lado, que é apenas pasto e portanto tem preço baixo, sua área de plantio ficará bem maior. E consequentemente seu faturamento irá aumentar tanto, que isso lhe proporcionará a condição de comprar uma camioneta.
--- Mais moço... pra quê que vou querê isso?
Com esta pergunta, o entusiasta olhou para o colega e falou baixinho, se referindo ao campônio:
--- É um asno mesmo... mas já que cheguei até aqui, agora  vou até ao fim.
E voltando ao diálogo, continuou expondo seu raciocínio.
--- Com esta camioneta, o senhor poderá levar toda a colheita para o mercado sem pagar frete a ninguém. E esta pequena economia, em pouco tempo, lhe proporcionará a oportunidade de comprar uma fazenda bem maior.
--- Mais pra quê eu vou querê uma fazenda mais grande, moço?.
--- Raciocina homem... - Tornou o “economista”, e continuou. ... Com uma fazenda maior, o senhor vai produzir tanto, que logo terá de contratar muitos empregados... e aí então... o senhor começará a exportar alimentos para o mundo... vai ganhar tanto dinheiro, que não vai nem saber o que fazer para gastá-lo.
--- Mais moço... pra quê eu vou querê tanto dinheiro assim?
--- Olha aqui seu burro. Disse o empresário já perdendo a paciência com tanta ignorância. ... este dinheirão, que o senhor poderá ganhar, vai lhe proporcionar vários meses de férias... em qualquer lugar... como você é mesmo da roça, poderá então ir para o campo sossegado, viver uma vida pescando... deitado numa rede... sem se preocupar com os rumos da vida... quer coisa melhor que isso?
--- Então voismecê acha que eu devo fazê isso tudo, pra despois vortar  e ficá  no qui já tô?
--- Vamos embora, disse o outro que tinha ouvido toda a conversa. ...acho que nós é que somos os únicos asnos  por aqui.
João de Assis
Enviado por João de Assis em 17/04/2005
Código do texto: T11693
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Sobre o autor
João de Assis
Cruzeiro - São Paulo - Brasil, 70 anos
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