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A MULHER DA NOITE

 



Para Cristina... a mulher da noite.

Tenho vontade de sair gritando, de cantar como você, minha velha amigadesconhecida.

Cantar dentro da noite.

Sua voz era tão aguda como sua solidão, sua voz era deuma profundidade que me angustiava.

Você era a mulher desconhecida que vivia dentro da noite.

Era a solidão, a angustia vestida de mulher.

Seu canto era um pedido de amor.

Sua voz era escutada de longe.

Em uma rua você ficava e eu em outra, no vigésimo primeiro andar eu a escutava.

Lá de cima a sua musica era um imã a me atrair.

Descia, na calada da noite, não havia ninguém nas ruas, era só você e sua voz.

Andava um pouco, virava a esquina e a encontrava com sua roupa suja, seuscabelos em desalinho.

Você me olhava e dizia: -minha filha, dê-me um cigarro.

Eu dava com prazer e maior ainda era vê-la fumar, como se aquele cigarro fosse o seu ultimo.

Não sei se lembra.

Eu sentava naquela porta do banco, você vinha e sentava aomeu lado e começava a falar sobre sua vida sofrida e amargurada.

Tivera uma filha e lhe tiraram.

Teve um amor, mas alguém lhe roubou.

Você ficou só e na pobreza.

Você chorava quando dizia o nome de sua filha.

Um dia chorei com você.

Um dia você cantava e um homem parou ao seu lado e mandou que você se calasse.

Aquilo me atingiu fundo, foi como uma bofetada em minha face e eu sem ver agredia o homem com palavras pesadas.

Disse-lhe também que você era livre para cantar.

E que estava ali para lhe defender.

Era muito louca naquele tempo.

Talvez fosse a época em que realmente fui eu e vivi com intensidade.

Falei muito e ele se foi e você continuou acantar.

Eu esquecia de tudo, do tempo, da vida, do voltar e queria só ficar ao seu lado.

Um dia você me disse: -quando casar e tiver um filho, não deixe que o tomem.

Não tem nada como um filho.

Você falava e chorava ao mesmo tempo.

Você não tinha casa, morava nas ruas, era uma bêbada.

Era uma mulher perdidadentro da noite.

Era a solidão, o tédio, o retrato de uma humanidade e daprópria vida.

Um dia quando a chuva caia ainda de leve, eu a caminho de casa, era uma madrugada qualquer, de longe, em uma esquina comecei a ouvir sua voz.

Sempensar fui ao seu encontro e você estava no mesmo lugar, sozinha e sua voz era ainda mais forte, mais alta e dolorida.

Sentei ao seu lado, você nem sentiu minha presença, só depois que você parou de cantar é que me viu.

Este dia você apertou minha mão e sorriu.

Seu rosto era triste e eu sofri.

Queria poder te dar tudo aquilo que você queria, amá-la, queria poder te levar para minha casa, que fizesse parte da nossa vida.

Mas sua vida era outra e nada aceitava.

No fundo eu a amava e hoje, ainda sinto uma ternura imensa por você.

Este foi o ultimo dia que a vi, você cantou a minha música, hoje nem me lembro o nome, mas quando você cantava, eu não era eu, me transformava em um ser estranho, são sei explicar.

Eu fui e você ficou cantando.

Esta noite não dormi e nem você.

Da janela escutava-a de longe e me sentia feliz por ter você dentro da noite.

Creio que você queria se despedir, pois depois desta noite nunca mais escutei o seu canto, nunca mais a vi.

Mas todas as noites eu a esperava, você não veio nunca mais.

Eu mudei, depois vim embora e hoje sinto uma saudade de você.

Daria tudo para ouvi-la, para sentir o seu sofrer, a sua solidão e angústia.

Senti-la bem perto e poder dizer: te quero muito, mulher desconhecida que surgiu dentro da noite.

Você apareceu em minha vida de uma maneira estranhae ficou com sua música.

Não sei onde você se encontra, talvez presa, morta,quem sabe?

Morta...

Seria muito triste pensar que nunca mais poderei escutar sua voz.

Nada sei a seu respeito, apenas o seu nome,

Cristina,

a mulher da noite.

Cristina gostaria de estar ao seu lado e pedir: cante, cante bastante, cantepara mim, cante por você, cante para todos.

Morra cantando e nunca pare, pois cantar é a sua vida e eu amo o seu canto.

Mas hoje o passado esta longe, deve ter uns três anos que eu conheci essa mulher estranha, numa rua de BH, na porta do Banco do Brasil.

A vida tem encontro que nos apavora.

Nunca esquecerei o que essa mulherrepresentou para mim.

Nunca esquecerei sua voz, creio que é a única, mais forte de todas as vozes, a mais linda.

Era como algo que não se explica, apenas sente-se.

Era estranha, era um enigma que eu nunca consegui decifrar.

Hoje quando lembro de tudo, tenho uma vontade de sair correndo, vontade de ser eu, de esquecer tudo e não viver, parar e ficar à espera de alguma coisa.

Vontade de esquecer tudo, de ser outra pessoa.

Fim de tarde e a angustia chega de mansinho.

Estou passando por uma crise horrível.

Fui jogada na solidão e é preciso me acostumar com ela.

Se ao menos Cristina aparecesse hoje!

Mas ela nunca mais virá.

Cristina morreu, a mulher da noite morreu e hoje canta em outro mundo.

Não sei onde...

Não sei em que mundo, não sei nem se há noite para ela cantar, nada sei, apenas sinto uma grande saudade de tudo e uma vontade de ver e ouvir novamente aquela mulher desconhecida.

1968 *****

De que adianta querer trazer o que passou para o presente.

Um minuto é apenasum minuto.

E um minuto nada é em relação ao tempo da vida.

Cristina morreu de verdade.

Só hoje sinto isto.

Morreu sem nada ter, sem nadadeixar.

Morreu e levou o seu canto triste.

Infelizmente é a verdade.

Cristina está á morta há dois anos.

 

Zelisa Camargo
ZEL
Enviado por ZEL em 05/01/2005
Código do texto: T1181
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Sobre a autora
ZEL
Aparecida de Goiânia - Goiás - Brasil, 69 anos
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8 e-livros (803 leituras)
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