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incidente em Vila de Fátima parte 4

4 - EM CENA O JORNALISTA
Quando a segunda luz do flash foi disparada, Vieira saiu para o corredor a ponto de flagrar  Camões , o único jornalista da cidade, cego de um olho mas ótimo fotógrafo por não ter a incômoda necessidade  dos ditos normais em tapar um olho para bater as chapas,  ainda ajeitando a máquina fotográfica, a única da cidade, essa eu não empresto, não alugo, não vendo e não troco, procurando um ângulo melhor para enquadrar Tico entre as grades.
O que faz aqui, seu Camões, desculpe a pergunta imbecil, se o senhor está com a máquina de tirar retratos e essa é a sua profissão, só pode ser pra retratar o acontecido, pois é, seu delegado então também lhe faço uma pergunta imbecil mas como é a minha profissão de jornalista, lá vai, do que morreu o morto se na corda está, só pode ser enforcado, pois é, seu Camões, deixando de lado a troca-troca de imbecibilidades, aí está o pobre pendurado feito cabrito no açougue e já mandei Cabo Solto buscar a escada pra tirar o coitado dessa posição infame.
Camões, no afã de conseguir um furo de reportagem, pois numa cidade pequena era preciso engrandecer o acontecimento, qualquer que fosse ele, para quebrar a rotina, mesmo que depois tivesse que desmentir tudo e pedir desculpas e deixar o dito pelo não dito, mas isso também já era parte do assunto de um lugar sem assunto e tudo era perdoado, voltou-se para o pendurado, mediu a cela com seu único olho e soltou a sua versão: não sei qual  a  sua opinião, mas pra mim, seu delegado houve um assassinato, um assassinato, seu Camões, sim um horrendo crime, um homicídio! Veja bem, seu delegado, tenho um olho só mas além deste que é bom não ser míope, tenho faro de mais de 20 anos de jornalismo que sente de longe, no ar, quando ocorre algum crime. Apesar de nunca ter provado nada porque aquele era o primeiro caso, mas isso não vinha ao caso e o caso pelo caso, não se deve nunca deixar no descaso o que não se pode demonstrar, e assim continuou, eu garanto que aqui houve foi um homicídio, afinal como pode um homem de pouco mais de um metro, usar uma cadeira de 30 centímetros, até então Vieira não tinha notado que havia uma cadeira de pé quebrado dentro da cela, e dessa forma alcançar uma viga que está a  3 metros de altura  para lançar o lençol, além da falta de peso, o anão deve pesar entre 35 a 40 quilos no máximo, cadê peso pra se enforcar doutor delegado, é uma questão puramente de lógica matemática. Vieira não entendeu quase nada do tal raciocínio lógico de Camões, mas algo dizia que ele estava certo.
O senhor disse em remover o corpo, continuou Camões, acho que o fato merecia uma investigação mais apurada, descobrir o culpado, puni-lo, esclarecer a razão do crime, reconstruir passo a passo esse acontecimento hediondo e o senhor é a única pessoa habilitada a fazer isso com toda a certeza, confio no senhor, não só eu, mas todo mundo que era amigo do Tico, que Deus o tenha, e amantes da verdade e da justiça, onde já se viu, assassinar o único anão da Vila de Fátima, dando a entender que foi suicídio, isso não se faz e é preciso ir até o fim em busca da verdade.
Camões abraçou emocionado o delegado, como a desejar-lhe boa sorte em sua missão, e saiu apressado em direção  à redação do jornal.
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 18/04/2005
Código do texto: T11870
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
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