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Fazendo de conta

Tem coisa melhor que fazer de conta? Não conheço. A gente cresce e esquece como era bom fechar os olhos e voar por aí. Gente grande fica besta, boba e burra. Despreza o melhor que há em nós, sejamos adultos ou crianças: a imaginação!

Pois hoje acordei fazendo de conta. E, fazendo de conta que acordei, estou na Bahia. Hoje, honrarei o sangue e serei pura baianidade. Farei de conta que tenho a alma apaixonada de Vinícius - baiano por opção e talento. O espírito sossegado de Caymme, o olhar de Jorge Amado sobre a vida.  Itapuã não preciso pedir emprestado nem fazer de conta, não. Trago no coração e na lembrança.

Quero Itapuã e Abaeté da minha infância. Nada de realidade. Na minha Abaeté, não tiraram areia para construção, não a poluíram com esgoto doméstico nem a esvaziaram com poços artesianos. Na minha Itapuã, não há casas luxuosas ou condomínios sofisticados. A minha Itapuã ainda é uma vila de pescadores, lugar de veraneio de tão longe que fica da cidade.

De olhos fechados,  estou lá.
   
Vagueio pelas dunas de Abaeté, subo até o topo só para descer de bunda até às margens da lagoa. Nela, não entro não. Água escura, não se vê o fundo, dá medo. Minha mãe diz que a Iara mora lá. Nunca vi, mas é melhor não abusar. Vou p'ra praia. Até lá é um estirão.

Quero o acarajé da dona Maria, que fica sentada logo na entrada da praia. Acarajé do tamanho do Big Bob, cheio de vatapá, camarão. Sem salada, que é coisa p'ra turista. Pimenta não. Arde que nem o cão e não é comida de menino, diz tia Dith. De abará gosto muito também não. Como, mas não de regalo. Só na falta do acarajé e a fome for grande.

Depois vou correr em volta do farol, contar quantas listas brancas e vermelhas ele tem, imaginar qual a sua altura. Tentar descobrir como se entra nele. A porta 'tá sempre trancada. Cadeado grande, velho, enferrujado pela maresia. Alguém mora lá? Quem manda nele? Gosto disso e de ficar sentada no murinho da casa abandonada.

Uma vez, a maré subiu e cobriu a casa. Quando a água baixou, deixou somente o murinho e a fachada da frente. Nem a água nem a areia, nem o sol tiraram a cor. Dá pra ver que era azul. Ficaram algumas paredes com areia quase até o teto. É o que o povo conta. Não 'tava aqui, 'tava no Rio, quando aconteceu.

Sento no murinho, só olhando p'ro alto do farol. Minha conta nunca dá certo. Quanto mais conto, mais listas ele tem! Vermelhas e brancas, brancas e vermelhas. Melhor parar, 'tô tonta já. Vou andar, que é para passar esse enguio. Foi o acarajé, na certa. Tenho de lembrar na volta de reclamar com dona Maria, muito dendê nesse vatapá.

Também, quem mandou eu ficar olhando p'ra cima, que nem besta? Azar. Inês é morta. Vó Pomba sempre diz isso, quando acontecem coisas assim. Se eu entrar no mar, será que melhora? Todo mundo diz que pessoa empachada não pode nadar que morre.

A praia 'tá vazia. Tem ninguém. Não é época de veraneio, as casas 'tão fechadas. Ninguém vai ver que eu 'tô me afogando. É, mas também vazia assim ela é só minha. Ninguém p'ra dizer: não faz isso menina, não corre menina, cuidado menina, não mexe aí menina, se pique daqui menina!

Ai que raiva desse menina! Tenho nome, fui batizada. E registrada em cartório. Tenho certidão de nascimento que eu já vi, guardada na caixa de minha mãe, onde ela esconde cartas e outros papéis que não deu tempo p'ra eu ler.

Melhor andar p'ra melhorar. Quando cansar, sento nas pedras, estico as pernas, molho os pés, as pernas. Acho que molhar só isso não mata não. Eu acho. Quando cansar de descansar, volto a andar pela areia molhada catando conchinhas.

Tenho uma coleção porreta, viu? Tem concha de tudo quanto é forma e tamanho e cor. Umas são prateadas, outras cor de areia, umas são bem escuras, cinzas e brilham. Gosto mesmo é das cor-de-rosa, minhas preferidas. São lindas e dá p'ra fazer colar. As outras vou guardar p'ra fazer presépio.

Seu Tito - minha mãe chama de compadre, só que nem eu nem minha irmã somos afilhadas dele - que mora na praia da Sereia, pesca todo dia. Prometeu me dar uma daquelas grandonas, que a gente bota no ouvido e escuta o barulho do mar. Mas ele só promete, faz é tempo que disse que me dava. Até hoje, óhhh....... deu nada!

Quando voltar p'ra casa, passo lá. É caminho mesmo. Cobro dele minha conchona. Vai ser a rainha das conchinhas até chegar o Natal. Oh, homem esquecido. Se não for lá p'ra lembrar, vou ganhar é nunca! Lembro e ainda como castanha passada no açúcar, que dona Tilde, mulher dele, faz.

Se não tiver castanha, chupo sirigüela no pé, que ela deixa eu subir e não briga. Minha mãe é que não pode saber, senão amanhã, nada de praia, nem de farol, nem de acarajé. Bestage de mãe.Vou ficar é de castigo na varanda, olhando tudo quanto é menino se divertir.

E eu lá, com cara de bocó, bestona, só na vigia. Melhor combinar segredo com dona Tilde antes. Vó Pomba sempre descobre, não sei como ela faz. A danadinha descobre é tudo. Acho que lê na minha cara de gato-quando- quebra-prato. Não sei fingir. Só que ela não conta. Ri e pisca o olho p'ra mim. E sorrimos juntas dos nossos segredinhos. Acho mesmo que mainha sabe, mas ela não tem coragem de desobedecer Vó Pomba. É adulta, mas é filha.

'Tô aqui na praia faz é tempo. Nem avisei em casa p'ra onde ia. Será que 'tão me procurando? Deixa, depois explico. Vou ficar até os pescadores voltarem. Adoro ajudar a puxar as redes. Sempre ganho peixe, carangueijo. Aí, ninguém briga em casa. Mas hoje, se eu quiser passar na casa do seu Tito, não vou poder demorar no arrastão. Tem barulho vindo lá da ponta da Sereia, acho que são eles. Vou correr lá.

Um, dois, três... puxa! Um, dois , três... puxa! Um, dois, três... puxa!  A pesca foi farta hoje! Tem namorado, vermelho, arraia, tainha, garoto. Os pequenininhos a gente devolve p'ro mar, p'ra crescer. Seu Tito me deu um polvo, diz que vó Pomba gosta.

Não deixo mesmo escapar a oportunidade e faço a minha cobrança.

        - Seu Tito, oh seu Tito! Cadê minha conchona, que o senhor prometeu?
        - Vou trazer, vou trazer, menina. Mas agora não aperreie, que 'tô na lida! Leva o polvo p'ra dona Pomba. Diz que é presente meu p'ra ela. Cuidado com a corda, menina! Vai assar a mão! E se pique daqui que é tarde p'ra menina andar sozinha nessas praias. Ói, o sino da igreja já 'tá batendo!

Badalada do sino é lei. Deu o Angelus hora de ir p'ra casa. Hoje, sem castanha, sem sirigüela. Nem brigar com dona Maria vai dar tempo. Quando comprar acarajé novamente eu falo. Tem nada não. O resto, dá p'ra fazer tudo amanhã.

Corro de volta p'ra casa com um só pensamento:

      - Será que vai ter fruta-pão com manteiga derretida no café?

Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 20/04/2005
Código do texto: T12245
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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