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incidente em Vila de Fátima parte 5

5 - CABO SOLTO CHEGA COM A ESCADA

Não era o seu hábito fumar àquela hora, vício reservado para o fim da tarde e ainda não era nem dez horas da manhã, mas mesmo assim revirou a gaveta e entre os objetos que levaria para casa, achou o maço, tirou um cigarro e sem desentortar como costumava fazer, colocou na boca aquele autêntico V,  e passou a fumar tal e qual os detetives dos livros americanos que gostava de  ler e tentou reconstituir o dia de ontem na fumaça que fazia espiral. Fizera a ronda, almoçara, tirara a sesta,  jogara xadrez com cabo Solto, lera, fizera a ronda e fora para casa, jantara e dormira, ou não fizera nada disso e os fatos  que vinham na sua memória eram coisas de dias atrás ou de meses ou de anos, pois quando o dia a dia é literalmente dia-a-dia, em que nada se adia nem adianta, fica difícil lembrar o dia anterior uma vez que ele fora exatamente igual a todos os outros.
Levantou - se então e pegou o chaveiro com duas chaves, a da porta da frente e a da cela pois a do gabinete perdi não sei há quanto tempo, decidido a dar uma olhada no morto. Já deveria ter feito isso se não fosse a intromissão do jornalista e fotógrafo e deu de cara com cabo Solto no corredor carregando uma escada manchada de tinta. Seu delegado, foi a única escada que eu achei, é do João Carpinteiro que está consertando a goteira da escola e eu preciso levar logo porque o homem está pendurado no telhado e se der uma dor de barriga nele, Deus que me perdoe a brincadeira, coitada das  crianças  que  estão na sala de aula, mas cabo Solto,  pra  que essa escada, para tirar o anão seu delegado, acho que dá pra alcançar com isso, espere um pouco, vamos com calma, leva essa escada de volta que quando for a hora eu mando buscar de novo, mas e o morto seu delegado, que morto cabo Solto, o enforcado, o anão que está pendurado, deixa, cabo, deixa que ainda não é hora de mexer em nada, e quando vai ser a hora,  quando se descobrir o culpado, isto é, logo logo, culpado de que, do assassinato, houve um homicídio aqui e precisa ser investigado, vá, vá e devolva a escada antes que João Carpinteiro tenha a tal dor de barriga ou pior, despenque de lá de cima e aí a gente vai ter dois funerais num dia só. Cabo Solto saiu, mal atinando sobre as ordens do vai buscar e leva de volta que não precisa mais mas vai precisar depois para o suicida que não se matou mas foi morto, era demais para seu pouco cérebro, só sabendo que ordens são ordens e não se deve contrariar por mais absurda e desencontrada e contrária que seja uma da outra.
Ainda bem que delegado Vieira estava só, bem entendido, só ele e o defunto pendurado, quando percebeu que introduzira na fechadura da cela a chave da delegacia e como uma não foi feita para outra, é lógico que a cela não abriu, mas quando não se usa uma coisa por muito tempo é assim mesmo, consolou-se da vergonha, como a pedir desculpas a Tico e ficando a gafe só entre os dois.
Adentrou a pequena cela de dois por dois e meio,  se borrando de medo do cadáver pendurado. Era a  primeira vez que via um defunto, isto é, pendurado na corda, que no caixão já enterrara mãe, pai, avós, amigos. Esquadrinhou o local, passou por debaixo do Tico e ao fazer isso, o corpo, que estava meio de lado, balançou, como que acompanhando os passos de Vieira. Teve um calafrio a subir pela espinha, arrepiando seu pouco cabelo, mas criando coragem, olhou para o morto que estava com a mesma calça gasta de sempre, quase um uniforme, assim como a camisa entreaberta no peito. A região da virilha, na altura do rosto do delegado, estava molhada, certamente o anão mijara-se todo na hora do tranco no espaço vazio. Os olhos semi-cerrados olhavam para o céu, numa prece, enquanto a língua, saltada quatro dedos entre os dentes, pareciam mordidas, além de um filete de sangue no canto da boca e nada mais além de tudo que se pode observar num enforcado. Num suicida que se joga dum prédio por exemplo, dá pra especular o ângulo descrito pelo corpo no vácuo, a velocidade da descida, etecetera, enfim, cálculos inúteis que não vão trazer de volta a vida, mas todo mundo faz, enquanto que um enforcado é um enforcado e enforcado está e pronto.
Vieira ainda mexeu com cuidado no colchão, sem o lençol que estava com Tico, impecavelmente limpo, pois cabo Solto fazia a faxina diária com um zelo de causar inveja  a muitas camareiras: varria a cela, lavava de tempos em tempos a roupa de cama, chegava até a jogar água  de  cheiro,  capricho inútil num quarto quase nunca ocupado, mas enfim, querer é fazer e Vieira deixava as coisas ocorrerem até o dia em que Solto sugerira colocar algumas prateleiras para cultivar as violetas vermelhas, seu hobby, e desta vez, Vieira , talvez pela primeira vez na vida dissera um não, não fica bem uma plantação de violetas na cadeia, esqueça isso e cabo Solto enterrou o caso.
Agora, delegado Vieira podia observar pela primeira vez o quanto cabo Solto cuidara com esmero daquele cubículo.
Ficaria mais tempo a admirar o trabalho de cabo Solto, Tico não iria se importar com isso, mas teve que sair para a porta da rua, antes que a multidão invadisse a delegacia.
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 22/04/2005
Código do texto: T12579
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
9 textos (340 leituras)
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