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UMA ESTRADA, DOIS CAMINHOS...

Nara vivia tranqüila e meio acomodada. Na idade da loba, tinha seu lobo fiel, ora feroz ora manso... Frustração muitas vezes, não era o que queria, nem o que planejara para a vida livre que escolhera. A acomodação não era seu forte, e sim a vida movimentada e cheia de surpresas, como fora sempre. Andava carente de amor, de emoções e de alegrias vibrantes. A vida com Vitor agora era calma, nenhum sobressalto, sequer uma briguinha, amor garantido, melhor não mexer. E Nara, frustrada e quase infeliz, fazia poesia, sorria amarelo e se deleitava com música romântica que lhe aguçava as fantasias. Trabalhava, cuidava da casa, dos filhos, dos bichos, do jardim... Pouco ou nada saía, a não ser uma ou outra reunião de amigos, geralmente nos botecos que antes freqüentara com assiduidade. E escrevia... escrevia...

Carlinhos, garoto ainda, curtia escrever. Lia adoidado, rabiscava poemas, sonhava. Trabalhava na redação de um jornal por puro prazer. E lia Nara, sempre presente com cartas, artigos, poesias, sempre a protestar contra o que merecia. Um dia criou coragem, reuniu vários textos e procurou Nara para pedir suas críticas. Até se assustou com a simplicidade e disposição com que foi recebido. Ele com 14 anos, ela quase quarentona, acabaram amigos e até cúmplices em alguns assuntos chegados a uma fofoquinha...

Foram quatro anos de uma amizade bonita, sincera. Eram francos entre si, muitas vezes entravam em conflito, mas nunca uma briga. Carlos resolveu dar seu grito de independência, deixou o marasmo da cidade interiorana e foi tentar a vida na Capital. Enfrentou as enormes dificuldades da mudança e adquiriu uma responsabilidade que poucos conseguem em sua idade e com os precedentes de garoto mimado. Cada vez que voltava à cidade para ver a família, Nara era a primeira visita que fazia. Batiam longos papos, riam, saíam juntos. Tudo era muito divertido.

Carlinhos chegou de viagem. Conversava com Nara animadamente. Falavam de seus planos para a passagem do ano. Aliás, Nara não tinha planos. Não contava com Vitor que tinha sua família. Ele jogou a proposta de passarem juntos. Nara se divertiu com a proposta e, maliciosa, sugeriu que o passassem num hotel, os dois sozinhos. Carlos se entusiasmou e Nara não levou nada a sério. Dias depois se encontraram, foram ver um show na praça. Na volta ele disse estar se guardando para a passagem do ano com ela. Foi um susto, ela não sabia que ele levara a sério, mas se controlou e entrou na dele. Chegaram à casa de Nara que tomou o telefone para falar com Vitor. Carlos foi à cozinha preparar uma batida. Ao voltar, encontrou Nara deprimida e soube que o papo com Vitor não fora legal. Beberam e conversaram um pouco. Até que ele disse que ia embora, assim, de repente.

- Vai mesmo, Carlinhos. Eu sei que não estou sendo uma companhia agradável.
- Não é por isso que eu vou. É que não agüento mais o tesão...
- Por mim? disse Nara espantada. – Ora, não seja por isto. Me dá uns minutos, lá vou eu para uma chuveirada...

Ao passar por ele, um beijo e um carinho. Retornando, encontrou o garoto só de cueca. Entregaram-se, ardentes. E foi lindo! A experiência de Nara sentiu a força e a vida latejante desse quase menino que começou timidamente e foi se entusiasmando até dar a ela o prazer adulto que conhecia. Mas a timidez dele voltou, mal passou o clima de tesão. Disse que ia embora e que ela não se preocupasse se demorasse a voltar, que esperasse, voltaria.

Nara estava eufórica. Achou que devia procurar saber dele, mas temeu que isso não o agradasse. Criou coragem. Ele atendeu.

- Liguei pra saber de você. Saiu muito sério daqui... Está bem?
- Bem... eu não sei como não fui preso...
- Preso? Por que?
- Eu não tomei o ônibus, vim a pé. Pelo caminho inteiro eu cantava alto, mas alto mesmo... Todo mundo olhando... Cheguei faz menos de cinco minutos e a minha mãe já perguntou três vezes se eu vi passarinho verde...
-(risos) E o que você respondeu?
- Que vi passarinhos de todas as cores, e muitas flores, e estrelinhas... sininhos... (risos) Adorei! Adorei!

Nesse momento, Nara teve a certeza de que fora a primeira mulher em sua vida. Seis da manhã seguinte, Carlinhos ali, acordando Nara... Isso foi pertinho do Natal. A passagem do ano foi no Hotel, como estava combinado.

O quê dizer no Hotel? Ora, somos mãe e filho, só a mãe se registra. Mas não esperavam a pergunta do recepcionista: “Preferem duas camas ou cama de casal?” Nara, de pronto: “De casal é melhor, desde que fiquei viúva, nunca mais o menino dormiu sozinho...” E toca a segurar risada. Ele se comportou como filho delicado e gentil, não deixando a “mãe” levar as valises. A noite foi linda. Nara jamais a esquecerá. Carlinhos estudava artes cênicas e fez diversas apresentações para ela. Com um lençol fez uma bela indumentária, subiu na cama e declamou apaixonadamente. Cantou Clara Nunes, Betânia, Chico Buarque... tudo com expressões divertidas e com gestos hilários... Tudo, até mesmo o amor bem feito, em clima de euforia. Isso era muito bom: sangue novo nas veias frustradas de Nara! Pela manhã, pediram café no quarto. Bateram. Ele, só de cueca, abriu a porta. Ela, deitada de bruços com um lençol tapando, da cintura para baixo, o corpo nu. Carlos pensou que a camareira fosse cair com bandeja e tudo em cima de Nara... Pela reação, imaginaram o disse-que-disse que estaria acontecendo nos corredores do Hotel... Divertiram-se com isso e não se importaram com o que pensassem deles.

Começo de um caso de amor que foi longo e muito verdadeiro. Ele na Capital, ela no interior, foi pesando a barra da saudade, a necessidade de estarem juntos. Ele vinha sempre, ela ia sempre, mas nada satisfazia aquela ânsia da mútua companhia. Sobrevieram briguinhas, nunca a separação. Carlos se apegava mais a ela. Ela era amante, mãe, protetora. O édipo mostrou logo sua cara.

A mãe de Carlinhos ficara viúva muito cedo, ele ainda bem pequeno. Dedicara-se inteiramente aos filhos, nem pensara em refazer sua vida. Chegou ao ponto de não mais sair de casa a não ser para a igreja ou para o médico quando necessário. Ele era muito ligado à mãe, mas só por causa de Nara percebeu a diferença. A mãe era mais nova que ela. Até que a pergunta foi formulada:

- Eu não entendo... Minha mãe é mais nova que você e vive como se fosse uma velha... Eu vejo você alegre, sempre rindo, com todo esse fogo e fico me perguntando se ela também não tem desejo... Claro que tem, é uma mulher normal. Mas, se tem, por que não procura, por que não vive como você vive?

E isso rendeu problemas e mais problemas. Certo dia saíram juntos, foram à casa de uma amiga de Nara que estava desabitada e mobiliada. A não ser essa amiga, ninguém poderia localizá-los. Tarde da noite, quando faziam amor, bem no auge, ouviram altas vozes vindas da rua. Ele ficou nervoso:

- É alguém procurando por mim. Minha mãe deve estar passando mal.
- Por que diz isso? Sua mãe está doente?
- Não, quando saí ela estava bem, mas pode estar mal agora...
- Carlinhos, meu bem, eu entendo você. Mas raciocine: se sua mãe estivesse doente eu acho que você tinha razão de estar preocupado. Aliás, acho que nem deveria ter vindo. Mas se ela está bem, nada justifica sua aflição.
- Mas eu vou embora. É tarde, você fica e volta amanhã.
-(muxoxo) Vá, então. Eu fico. Mas vá e nunca mais saia de perto dela até que ela morra. Largue trabalho, pare a vida e fique ao lado dela porque ela, assim como eu e até você, podemos morrer a qualquer hora.
- Não é isso, você não entende... eu saí e não disse onde estava... Fico com remorsos...

E a discussão foi longe até que ele percebeu o problema: sentia culpa, culpava Nara por ser feliz com ele, na verdade queria dar à mãe o prazer que dava a Nara... Édipo no mais alto grau... E esse complexo durou muito tempo. a pobre mãe funcionava como um fantasma, principalmente nas horas melhores... Assim como os problemas todos da adolescência...

Mas valia a pena. O carinho que ele dedicava a Nara era fora do comum. E quem não gosta de carinho? Ele a conhecia bem. Sempre dizia que ela era um cristal, muito frágil, qualquer grito poderia parti-lo. Dizia querer pichar o muro de sua casa: “aqui mora a mulher mais linda deste mundo!” Era um carinho após outro carinho. Ela retribuía, mas não chegava aos seus pés. Ele não tinha dinheiro, mas sempre arranjava um jeito de lhe dar um mimo, uma flor, um presente original que custassem pouco ou nada. Certa vez, chegou de viagem e disse: “Eu queria dar um livro a você, passei por diversas livrarias e nada encontrei. Resolvi dar a você o livro de que mais gosto, o meu livro de cabeceira.” Entregou o pacote. Qual não foi a surpresa de Nara ao abrir... Era um livro de poemas de sua autoria. Isto mesmo: o livro de Nara para Nara! Desde as capas, em cada página um comentário sobre o poema ali publicado. Gostara de alguns, não gostara de outros... Nara chorou de alegria. Aquele era o presente mais caro e mais lindo do mundo...

Certa noite foi à Rodoviária procurar por alguém que fosse para sua cidade e que levasse algo para Nara. Encontrou um senhor, abordou-o e explicou: “Eu tenho uma namorada lá. Hoje é aniversário dela e eu não tenho como fazer chegar essas flores. Eu dando o telefone, o senhor telefona e ela manda buscar. Pode ser?” O homem ficou impressionado e aceitou o encargo. Pela manhã, Nara recebeu um telefonema. Era uma mulher. Começou dizendo: “Parabéns, Nara, pelo seu aniversário.” Nara não entendeu, pois não era seu aniversário, mas segurou: “Obrigada, quem fala?” “Você não me conhece. Meu marido chegou de São Paulo e seu namorado mandou um presente para você. Quero saber o endereço que vou levá-lo logo mais.” Nara, muito curiosa, quis perguntar mais detalhes, mas simplesmente deu o endereço e desligou. Pouco mais tarde chega uma senhora com um vasinho de flores na mão. Nara percebeu seu espanto ao vê-la... o marido deve ter dito que o namorado era um rapazinho... Mas a senhora se controlou, entregou o presente e disse: “Parabéns duas vezes. Você é uma mulher muito amada.” E contou que o marido ficara encantado com a paixão do rapaz...

De outra feita, Carlinhos ligou: encontrara um emprego melhor, estava ganhando mais, procuraria um apartamento e agora poderiam se casar... Estava tão empolgado que demorou muito para Nara conseguir mostrar a incongruência da idéia.

Esse telefonema acordou Nara. Levou-a a questionar essa relação linda e gostosa que durara anos. Percebeu o porquê de ele não conseguir se relacionar com garotas de sua idade. Não, não conseguia, alegava que elas eram chatas, inexperientes, mal gozavam e queriam parar, não estavam com nada. Chegou a tentar uma relação com uma senhora desquitada, mais jovem que Nara mas ainda muito mais velha que ele. E foi outro desastre. A pobre mulher tinha todos os defeitos. E Nara percebeu que poderia estar fazendo mais mal do que bem a ele. Carlinhos queria encontrar nas mulheres com quem se relacionava a mulher experiente que ela era.

No encontro seguinte abordou o assunto. Não, ele não entendia, não aceitava nenhum argumento. Nara lhe mostrou de forma figurada, mas muito real:

- Carlinhos, a vida é uma estrada. Eu caminhei, caminhei, caí, me levantei e cheguei onde estou. Você caminhou... apenas caminhou um trecho dela, deu um salto quase mortal para me alcançar, conseguiu e ficou ao meu lado todo esse tempo. Você deve se lembrar de quantas dificuldades enfrentamos. Quantas vezes foi muito difícil para mim entender você. Quantas vezes você tentou mas não conseguiu me entender e apenas concordou para não me perder. O que faltou a você foi a caminhada longa que eu fiz e você pulou. Não é apenas questão de imaturidade, mas a impossibilidade de assimilar aquilo que não viveu. Eu olho para trás e vejo uma estrada a se perder de vista, muitas e muitas curvas, e não consigo ver você. Percebi meu erro: não tenho o direito de impedir a sua caminhada normal para a maturidade. Cada etapa da vida tem sua importância. E você está pulando etapas. Você tentou se relacionar com outras mulheres, todas elas foram reprovadas. É que você quer encontrar em mulheres jovens a minha experiência, os anos de janela que eu tenho e elas não têm.

Carlinhos pensou. Pediu tempo. Um tempo passou e ele não se convencia. Não queria se convencer. Sofria ao pensar em sair de Nara.

Nesse tempo que concedera a ele, sofreu muito. Cada vez que faziam amor ela tinha a sensação de última vez. Era tomada de angústia ao mesmo tempo em que, por impulso, gozava mais loucamente o momento. Ele parecia normal, nem pensava que poderia ser um último encontro. E mais ainda amava e curtia aquela mulher que a cada amor mais e melhor se entregava. Ela era vida e vida era tudo que ele queria curtir.

Nara sofria. Ora, mas é muito claro: perderia esse menino querido, carinhoso, leal, a quem se acostumara. E tinha a cama que ele lhe dava, deliciosa, exatamente como ela queria. E, como ele não aceitava a separação, Nara enfrentou outra barra: criou uma situação de briga, mostrou-se cansada da relação, queria de volta sua liberdade. Não que sua liberdade fora tirada, mas seus argumentos simularam tudo como prisão. E aconteceu a briga. Desta vez, não uma briga como as outras que sempre terminavam em lágrimas misturadas a abraços e beijos. Nara o magoava e ele retribuía. As palavras eram rudes... Onde a doçura de Nara? Onde o sorriso carinhoso e malandro de Carlos?

E numa dessas brigas a separação se consumou. Pela primeira vez ele embarcou sem ligar da Rodoviária. Claro que Nara preferiu assim, mas esperou pela ligação costumeira.

Ele retornou algumas vezes. Pediu, implorou. Nara foi firme. Só aceitava encontrarem-se num bar, para resistirem a si mesmos. Continuava muito difícil cada encontro. Via o desejo em seus olhos, sabendo que os seus certamente a traíam também. E foi num encontro no bar que Nara, mais uma vez, delineou a estrada e disse não ter o direito de impedi-lo de viver seu caminho. E dessa vez ele aceitou. Saiu. Foi palmilhar o caminho que lhe competia e que era seu direito.

Nara tomou aquele impulso que a alimentara por alguns anos e voltou a ser a mulher que sonhara ser. Seguiu o caminho que traçara desde muito jovem: amou, amou, amou.

Carlinhos caminha e ainda está oculto pelas curvas da estrada.

Muitos anos se passaram. Nesta história de amor, nunca o esquecimento, sempre a lembrança cheia de ternura. Ambos ainda palmilham a mesma estrada. Apenas são diferentes os caminhos.
Sal
Enviado por Sal em 22/03/2006
Código do texto: T126655
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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