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Obsessão: A verdade sobre meu pai

Capítulo I - Enterro

No altar principal da Igreja Matriz, o corpo do professor francês Charles Delacroix era velado num tom de profunda melancolia entre os presentes. Elizabete, sua esposa, estava ao seu lado em prantos, sem conseguir abstrair-se da dor que a imagem do marido, deitado no leito eterno lhe causava. Ao passar seus finos dedos pelo rosto lívido, não aceitava a dureza da morte. Trinta anos de casamento, um convívio repleto de ausências, mas, naquele instante, a falta se concretizava perpétua.
Elizabete acariciava os poucos cabelos de Charles, enquanto lembrava-se dos raros momentos de felicidade em seu casamento. Lágrimas penosas banhavam seus olhos, escorrendo lentamente pelo rosto marcado por frustrações e desenganos da vida conjugal.
Parada, de pé, em frente à porta, ela via as pessoas entrarem cabisbaixas, caminharem pelo corredor entre os bancos e chegarem ao caixão. Dolorosamente, agradecia a presença dos visitantes, com a voz rouca e pesarosa. Seu sofrimento era ainda maior quando pensava no filho, que estava prestes a chegar. O relacionamento entre Charles e Jean era complicado, desde a infância, sempre oscilando entre o bom e o mau. Seu filho sempre tivera admiração pelo pai, mas com o passar do tempo a afeição cega foi substituída por uma leve indiferença, que aumentava na medida em que o pai se ausentava de sua vida. Não deixara de amá-lo, mas a frustração constante fez com que Jean o visse com outros olhos, como uma pessoa indiferente que algumas vezes partilhava poucas horas com ele. De toda forma, Elizabete temia a reação do filho. Se fosse possível o impediria de entrar no velório, somente para não fazê-lo ainda mais triste. Mas privá-lo da despedida seria uma crueldade desumana.
Cada vez mais cheio, o velório mostrava o quanto o professor era querido. Dezenas de pessoas percorriam o caminho central da igreja e lamentavam sua morte. Apesar dos problemas familiares e sua total indiferença pelos acontecimentos de sua casa, Charles dedicara-se com esmero à vida profissional. Seus amigos de trabalho e alunos de diversas épocas nutriam por ele um apreço real, por isso sentiam sua perda como se fosse a de um membro da família. Lamentavam, choravam e lembravam de algumas passagens de suas vidas inspiradas no mestre morto.
Elizabete ainda estava de pé, quando sentiu as mãos da nora em suas costas, acariciando-as delicadamente.
— Eu sinto muito — disse ela, enxugando as lágrimas —, acabamos de chegar.
— Onde está Jean? — Perguntou, preocupada.
— Está lá fora com meu pai — respondeu apiedada —, tentando se acalmar. Desde que recebemos a notícia, ele não se sente bem. Mas, por favor, não fique preocupada com Jean, ele está bem. Vamos nos sentar um pouco, Elizabete. Você está cansada.
Elizabete explodiu num choro constante, sentindo o peso da solidão que teria de enfrentar sem o marido. Olhava fixamente para o caixão e não reconhecia o homem ali velado. Estava magro e envelhecido, diferente de há poucos dias, quando subitamente teve o primeiro enfarto. A doença o abatera tanto que em pouco tempo seu corpo definhara e sua mente regredira à imaturidade.
***
Do lado de fora, com o corpo apoiado no capô do carro, Jean tentava controlar suas emoções. Via pessoas entrarem e saírem da igreja, mas não conseguia seguir o fluxo dos passos em direção à porta aberta. Seus pés insistiam em permanecer ali, fincados no chão como árvores seculares. Seu pensamento o remetia ao passado, trazendo lembranças infantis que não se recordava há muito tempo. Vieram à sua mente os momentos em que o pai esteve presente, mas por serem poucos, se repetiam e misturavam-se com os que ele imaginara, criando uma outra realidade paralela à verdadeira. Inventara na infância tantas situações que chegou a acreditar que eram reais. Olhando fixo para o nada, Jean tentava distinguir as lembranças verdadeiras daquelas que jamais existiram. Era difícil aceitar a realidade sem isentar-se de culpa.
Voltando-se para o sogro, que até aquele momento não havia dito uma palavra para quebrar o contínuo martírio de seu pensamento, Jean lamentou-se.
— Pedro — disse desolado —, se ao menos eu tivesse despertado um mínimo interesse pelas suas paixões, se tivesse amado a literatura como meu pai, talvez ele me amasse. Talvez me deixasse compartilhar sua vida comigo. Eu lhe provoquei um desgosto imenso, negando as coisas que mais o fascinavam. Agora, finalmente, pude entender os motivos que o fizeram afastar-se tanto de mim, quanto de minha mãe. Nós erramos, lhe negando o nosso interesse. Erramos em criticá-lo pelo tempo gasto com livros e trabalho, mas nunca procuramos entendê-lo. — Calou-se por um instante, abaixando a cabeça e levando as mãos aos olhos.  — Sou o reflexo do desgosto de meu pai.
Pedro apenas o olhava enquanto fazia seu desabafo. Era amigo de Charles antes mesmo de seus filhos nascerem. O casamento de Jean e Fernanda selara a amizade dos dois. Amava o genro como se ele fosse um filho, por isso desejou contar-lhe o verdadeiro motivo dos enganos de seu amigo, mas jurara jamais se pronunciar sobre o segredo que compartilhavam. Sentia-se vil por não dizer-lhe a verdade sobre seu pai, mas era menos doloroso e mais seguro deixá-lo

enganar-se com suas próprias conclusões. Revelar o que sabia mudaria completamente suas vidas, a de Jean e a sua própria, provocando mais tristezas do que alegrias.
— Não diga isso, rapaz — pôs as mãos em seu ombro, tentando demovê-lo da idéia —, seu pai o amava independente de suas escolhas. Ser como ele não o faria mais filho do que era. Charles nunca soube demonstrar o que sentia, principalmente amor, mas isso não significa que não o amava. Do jeito estranho dele, da forma que aprendera com as dificuldades que passou, ele amava você e sua mãe. Tenha certeza disso.
— Tenho minhas dúvidas. — Afirmou Jean, ao lembrar-se da forma rude com que o pai os tratava quando queriam participar de sua vida ou, simplesmente, passar algum tempo com ele em seu escritório, já que passava mais tempo trancado em seu escritório do que em qualquer outro lugar. Pôde ouvir novamente as palavras duras que o pai dizia ao afastá-los da porta no fim do corredor.
— Não as tenha — afirmou o sogro — ele o amava verdadeiramente. Várias foram as vezes em que nos contou as suas proezas infantis — disse sorrindo — com orgulho. A cada vitória sua ele festejava conosco. E nada, nem ninguém, tirava de Charles a alegria que você o dava.
Jean sentiu o efeito das palavras de Pedro, não imaginava que o pai contasse aos amigos sobre ele, não imaginava que o pai sentisse orgulho por suas conquistas, sempre pensara no contrário. Deixou a cabeça cair sobre o teto do carro e chorou compulsivamente.

***
Dentro da igreja, Elizabete recebia os pêsames, sentada em uma cadeira de frente ao caixão do marido. Seus olhos fundos não dissimulavam o sofrimento que a dilacerava por dentro, provocando-lhe uma dor intensa. Fernanda inutilmente tentava consolá-la, mas era em vão, não havia nada a ser dito, tampouco feito naquele momento. Elizabete tinha o coração ferido e motivos suficientes para odiá-lo, mas o amor cego que sentia por ele a fazia esquecer-se do passado. Somente ela, imaginava, sabia dos erros cometidos por Charles e se os esquecesse, eles também deixariam de existir.
Jean surgiu na porta, acompanhado por Pedro. Hipnotizado pelo enorme caixão de madeira escura, com relevos entalhados à mão, seguiu em sua direção firme, sem olhar para os lados, ignorando a presença das pessoas a sua volta. Ao perceberem sua chegada, todos se calaram, apenas o olhando piedosamente. Os passos de Jean ecoaram ao contato com o antigo piso de madeira como pancadas na madeira oca. Pedro o deixou seguir sozinho ao seu destino, não querendo atrapalhá-lo em sua despedida. Caminhou sem pressa, a cada passo seu coração acelerava, seus olhos lacrimejavam intensamente e as pernas tremiam. O pequeno trecho parecia imenso, o corpo parecia estar a quilômetros de distância. O ar começava a lhe faltar.
Parando diante do pai, seus olhos fitavam o seu rosto, tentando captar a última imagem concreta.  Não moveu um músculo sequer durante um longo tempo. Queria entender a morte e decifrar seu significado. Seria mesmo o fim ou apenas o começo, refletia em silêncio, pondo em dúvidas os ensinamentos religiosos que tivera.
O fato era que seu pai estava a sua frente, sem cor nem vida, morto. E o sofrimento que essa imagem lhe causava era maior do que podia suportar. O caixão repleto de flores preenchia o lugar com um forte cheiro incômodo, acentuando o tom funesto que os cercava. Sentindo-se debilitado, viu suas forças esvaírem-se completamente de seu corpo. Debruçando-se sobre o caixão, deu o primeiro beijo de toda a sua vida na testa do pai, em seguida, sentiu-se escorregar até o chão. Ouvia vozes abafadas e passos rápidos correndo para perto de si. Segundos depois, somente escuridão e silêncio.
Quando despertou, havia poucas pessoas dentro da igreja. Elizabete e Fernanda estavam ao seu lado, nitidamente preocupadas com seu estado. Ele as olhava sem entender o que tinha acontecido. Seus olhos percorriam a nave, tentando entender como o pesadelo parecia ser tão real. Por fim, compreendeu que não estivera num sonho, seu pai estava morto e ele fraquejara diante da verdade imutável. Ainda deitado no banco, viu estampado no rosto da mãe a tristeza do momento e sentiu-se inútil por não ter capacidade de consolá-la em sua dor.
Levantou-se, sentando no banco e abraçando Elizabete. Suas lágrimas misturavam-se num gesto de carinho entre mãe e filho, ambos sufocados pela mesma angústia. Fernanda os observava em silêncio, não havia o que dizer.
Pedro voltou para perto deles. Assumira a responsabilidade pelo enterro e tomara a decisão de encerrar o velório.
— Vamos levar o caixão para o cemitério — disse ele —, nos esperam lá fora.
— Também quero levar o caixão — disse Jean decididamente, levantando-se apressadamente do banco.
— Você não está bem, querido — advertiu-o Fernanda. — É melhor não.
— Estou ótimo — respondeu — e mesmo que não me sentisse bem, é minha obrigação como filho estar à frente do cortejo. Será meu último passeio com meu pai pelas ruas que ele tanto conhecia. Não posso ser privado disso.
— Mas você está fraco, meu filho — censurou-o Elizabete — o caminho até o cemitério é longo. Você não se sentirá bem e poderá desmaiar de novo. É melhor acompanhá-lo apenas, deixe que os outros o carreguem. — Suplicou, sentindo medo de também perdê-lo.
— Não — disse firmemente, caminhando em direção ao caixão — ninguém pode me privar desse último ato com meu pai. Mesmo que também estivesse morrendo, encontraria forças para carregá-lo nessa hora.
Sem que nada pudessem fazer para demovê-lo da idéia, concordaram em deixá-lo fazer o último sacrifício em nome do pai.
Minutos depois, o caixão seguia pela rua principal do centro da cidade. O cortejo passava lentamente, arrancando olhares curiosos sobre ele. A imensidão de rostos tristes seguia indiferente ao tumulto que se formava na calçada para vê-los passar. À frente do séqüito, Jean carregava o pai com dificuldade, mas estava inabalável em seu propósito.
Ao entrarem no cemitério, a cova já estava preparada. Puseram o caixão num pequeno elevador feito de madeira e cordas e o abaixaram, deixando apenas a parte superior exposta. O padre, assim que terminara a extrema-unção, passou a Jean uma enorme pá, dizendo-lhe:
— Vá, meu filho! Que sejas o primeiro a selar o encontro de seu pai com Deus.
Jean ficou indeciso, segurando a pá cheia de terra. Lançou os olhos para mãe como que suplicasse para não ter que fazer aquilo, mas, ao contrário do que imaginava, ela assentiu com a cabeça. Não havia como fugir a esta responsabilidade. Lançou a terra vermelha no túmulo. O contato da terra com a madeira provocou um som seco, arrepiando os que acompanhavam o sepultamento. Elizabete não conteve as lágrimas e chorou dolorosamente, lembrando do sorriso de Charles. Jean, dominado por uma força inerente a sua vontade, encheu novamente a pá e atirou com violência mais terra na sepultura, Enlouquecido pelo murmúrio a sua volta e pelo choro penoso de sua mãe, atirava freneticamente cada vez mais terra sobre o caixão, até que Pedro tenazmente arrancou-lhe o instrumento de metal e o entregou ao coveiro, que olhava tudo assustado.
Quando finalmente tamparam a sepultura com uma enorme e pesada pedra de mármore, os presentes partiram, comentando suas lembranças de Charles e também o comportamento anormal e desesperado de Jean. Temendo que os comentários chegassem aos ouvidos dos dois, Pedro resolveu tirá-los logo dali.
— Vamos embora, eu os levo.
— Sim, vamos. — Elizabete concordou imediatamente. — Tudo acabou agora. Não há mais nada a fazer. — disse, tentando controlar as emoções que lhe dilaceravam.
— Ficarei mais um pouco, — disse Jean — se não se importarem. Preciso de alguns minutos para despedir-me dele. Vocês podem ir. Não irei demorar.
— Esperamos por você em minha casa — disse Pedro, dando um leve tapa em suas costas.
Jean permaneceu parado em frente à sepultura, pensando nos mistérios que envolviam a vida de seu pai, buscava explicações para a ausência constante e os segredos que escondia. Qual seria o motivo para tanta frieza e isolamento, se perguntava, enquanto sua família se afastava.
Pedro amparava Elizabete na descida do cemitério. O caminho formado de pedras era uma das poucas construções restantes da época colonial. A íngreme descida desnivelada exigia certa destreza para não causar acidentes. Logo atrás, Fernanda ajudava sua mãe, segurando-a pela mão para dar-lhe firmeza nos passos. Desciam mudos, olhando atentamente onde pisavam.
Chegando a sua casa, Rita apressou-se em preparar um chá para acalmar Elizabete, que nervosa chorava ao lembrar-se do marido. Enquanto esperavam por Jean, as três conversavam banalidades a fim de atenuar a tristeza que as desolava. Pedro, porém, afastou-se da sala. Sem levantar suspeitas, pegou o telefone sem fio e se fechou na varanda. De onde estava, podia vê-las na sala, mas a cortina o encobria e as portas fechadas não o deixavam ser ouvido dentro de casa.
Não se sentia bem por fazer aquilo, mas não havia outra possibilidade. Dera sua palavra ao falecido amigo que se algo o acontecesse, a notificaria o mais rápido possível. Incomodado, discou uma grande seqüência numérica e esperou angustiado.
Cada toque do telefone provocava-lhe uma estranha excitação. Estava nervoso, mas era preciso fazer a ligação. A espera o arrasava, os segundos pareciam-lhe eternos. Finalmente ouviu uma voz do outro lado da linha.
— Bonjour! Où puis-je vous aider ? — perguntou-lhe uma voz feminina suave e cordial.
Ele estremeceu ao ouvi-la. Sabia que era ela, poderia reconhecê-la apenas escutando uma palavra, sua voz era meiga, havia nela uma sensualidade encantadora.
— Pedro, amigo de Charles. — respondeu, olhando para a sala.
— Pedro? — disse, desconfiada.
— Sim sou eu! — respondeu-lhe.
— Faz muito tempo que não nos falamos! — exclamou, com um leve sotaque francês.
— É verdade, faz muito tempo! — suspirou.
Não podia fazer rodeios, se notassem sua falta, o primeiro lugar em que o procurariam seria na varanda. Tinha de comunicar-lhe o mais rápido possível.
— Não tenho boas notícias. Acho melhor você se sentar. — Aconselhou-a, suando muito.
— O que foi? — Ela perguntou com uma leve preocupação, afinal há mais de cinco anos não tinha contato com ele, portanto devia ser sério o que tinha a lhe contar.
— Você precisa ser forte, pois o golpe é duro.
— Você está me assustando! — Disse nervosa.
— Charles faleceu! — Sentenciou.
Ao telefone, Pedro só ouvia uma forte respiração descompassada. Entendeu o que significava e a deixou sentir o golpe.
— Quando? — perguntou ela, rompendo o silêncio, com a voz chorosa.
— Nesta madrugada. — Respondeu. — O enterro terminou há poucos minutos.
Ela explodiu num choro compulsivo. Deixou cair a cabeça no encosto do sofá, lamentando-se por estar tão distante. Ele podia ouvir seus soluços desesperados, mas não ousou dizer nada para atenuar sua dor, pois da sacada viu Jean estacionando o carro.
— Preciso desligar. — Sussurrou. — Eu realmente sinto muito.
Tentando se recuperar do choque, ela, controlando as lágrimas e a imensa tristeza que a consumia, agradeceu:
— Obrigado por me avisar. Pegarei o próximo vôo, quero vê-lo. Ligarei assim que chegar.
— Fale somente comigo, se Rita atender, desligue. Certo?
— Tudo bem, farei o que disse. — Concordou.
— Boa viagem! — Despediu-se, incomodado.
— Au revoir! — Desligou o telefone, deixando o corpo cair sobre o sofá, enquanto buscava na memória o rosto de Charles, provocando uma dor descomunal em seu peito.
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 22/03/2006
Código do texto: T126935

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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