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Ampulheta de pedra

Desde o último dia do ano de 1989 aquele garoto de olhos castanhos fogo, cabelos e braços soltos, assim ao vento...Fez um coração no braço esquerdo, ficou como um selo. Herança de uma garota que vestia negro. Ambos vestiam. De cabeça baixa, lábios carnudos, usava sapados de coro, tinha corpo franzino. É certo que não dava importância às reuniões de família, só em caso extremo, tinha bom relacionamento com os pais, embora às vezes passace desapercebido por todos, desleixado? Talvez... Enquadrar-se a padrões do censo comum sempre parecia ser algo difícil. Não o fazia. Tinha sorriso tímido. Descrevê-lo é algo complicado, minucioso. Guardava folhas secas em uma agenda lilás. Todas de uma árvore ao fundo de uma casa com tijolos a vista. A casa era vazia, noutro lado da cidade, ninguém ia até lá, apenas Léo, o nome que lhe foi dado em homenagem a um Tio já falecido.  As anotações eram feitas a lápis. Léo tinha os olhos sedentos. Um hábito estranho de sentar-se ao meio-fio. Perceber o movimento retilíneo das formigas gigantes. Adorava dias de chuva, mas abominava o guarda-chuva. A janela do seu quarto dava para o céu.  Fato esse que lhe proporcionava aventurar-se com as cores da palheta escondida debaixo da cama. Ensaios noturnos. Madrugadas adentro. Demorou um bom tempo para tomar essa atitude. Suas decisões costumavam ser lentas, arrastadas. Fazia orações todas as noites.
 Certo dia resolveu dar vida às tintas deixadas pelo seu vovô Nicolau, um Senhor distinto que viveu longos 98 anos, todos dedicados a ensinar a arte. O interesse mesmo que tardio abraçou-o. Estava ali incrustado. Com vazão repentina liberou-o como a um pássaro.
Aliada as canções e livros, tomavam seu tempo. Tentava preenchê-lo. Sentia extrema dificuldade em desfazer-se de adereços antigos. Sentia falta de alguém especial a qual conheceu naquele último dia do ano, casualmente. Foram acomeditos por olhares de canto em uma livraria central. Ali pesquisando novos títulos, percebeu escritas nas mãos. Léo sorri discretamente. – Nossa! Faz poesias nas mãos?  Abre as mãos, posso vê-las?
Desde então se tornaram inseparáveis. Quando juntos, como se fosse combinado, ambos traziam cravos nos bolsos e papeis de seda. Ela, uma garota com nome de Beatriz-mas seu nome de batismo era Anna, tentava incessantemente fugir das determinações paternas. De tom carvão debaixo dos olhos, as unhas curtas, sem cor, cabelos avermelhados e de olhar penetrante, não gostava de andar de mãos dadas. Adorava subir em cima de edifícios altos, estendendo os braços tentava pegar nuvens.Timidez velada. Ouvir canções doces parecia ser o grande programa. Gastar o tempo de forma a não percebê-lo-ficava claro que essa era a intenção. Abrochavam-se afinidades. Encontros confidenciais na praça da cidade, sem hora marcada. Sempre no mesmo banco de madeira. Quantas confissões foram ditas ali? Todas ao pé do ouvido, com vozes finas e sutis. Não existia mais o tempo. Não esse tempo que todos conhecem e a todos consome. Apenas as mudanças do céu e das nuvens eram notadamente percebidas. O tempo agora emboscado. Transcendências. Plantaram algumas flores naquele jardim, rosas vermelhas, às vezes brancas. Algumas marcelas do campo.
Pular o vagões de um trem abandonado em dias de sol. Ali também trocavam postais da época vitoriana. Vinho tinto às cinco horas da manhã. Alguns hábitos tornaram-se insubstituíveis. Dessa maneira simples e tênue o tempo para Léo e Beatriz não existiu.
Foram três estações primaveris e um intenso inverno juntos. Tudo teve seu fim em um certo dia solar, quando se desabrochou um pedaço de céu-que já não era mais cinza, e assim o sol mostrou um de seu olhos. Tudo existiu, mesmo não existindo.
Lucas Chibinski.    
Eperdus
Enviado por Eperdus em 24/04/2005
Código do texto: T12782
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Sobre o autor
Eperdus
Curitiba - Paraná - Brasil, 43 anos
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