A ESPECIALISTA

Eram duas amigas. Bastantes diferentes uma da outra, não apenas fisicamente, mas também na natureza. Talvez por isso se dessem bem. Com respeito e confiança.

Sandra e Dalva. A primeira, sempre pensativa, introvertida, cheia de mistérios; ao passo que a segunda, risonha, cheia de amigos, de bem com a vida, se exteriorizando em qualquer situação.

Dalva sempre tivera facilidade em se comunicar e demonstrava isso, principalmente na cadeira de Português, especialmente redação e, como tivesse o dom da oratória, era oradora da agremiação escolar.

Sandra se destacava nas ciências exatas, principalmente nos cálculos matemáticos. Para ela, dois e dois são quatro e isso era tudo e nunca conviveu bem com as metáforas e outros recursos da prosódia ou da poética.

O que muito incomodava Sandra era o fato de não se dar bem com o universo masculino, embora tivesse uma boa aparência e fosse fina no trato com as pessoas, apesar do comedimento no seu relacionar com as mesmas.

O problema de Dalva era ter amigos demais. Vivia cercada de rapazes, que lhe confidenciavam suas angústias e conquistas, não tendo ela ainda namorado, ninguém firme, como se dizia naquela época, ou seja, nos fins dos anos sessenta. Ela sempre dizia que, naquela pequena cidade do interior do estado, os rapazes eram atrasados demais, cafonas em excesso e não lhe assimilavam as idéias. Enfim, não havia ninguém que a entendesse.

Certa vez, Sandra foi até a capital do estado, juntamente com sua mãe, para visitar um tio idoso, que estava muito doente e lá passaram um final de semana.

No domingo à tarde, na rodoviária, enquanto esperavam o momento de descer para a plataforma, onde pegaria o ônibus, um rapaz se aproximou. Naquele instante, como não o vira se deslocando e só percebeu quando o mesmo estava bem perto, assustou-se, motivo pelo qual o mesmo se desculpou.

Talvez por necessidade, ou mesmo por puro pretexto, o moço se apresentou como Cássio, estendeu os cumprimentos à mãe de Sandra e lhe pediu uma informação sobre uma revendedora de bebidas que, pelo que fora informado, não ficava longe do centro. Como era a primeira vez que a moça visitara a capital, rapidamente respondeu que não sabia e que estava com pressa para descer.

Cássio retirou do bolso um cartão e passou às mãos de Sandra, dizendo que gostara do jeito dela e que, se ela quisesse um amigo, era só escrever ou lhe telefonar, que também era do interior e estava na capital a trabalho.

Conhecendo a natureza de Sandra, a mãe deu pouca ou quase nenhuma importância ao incidente. Sandra jogou o cartão dentro da sacola com um ar de desinteresse e as duas seguiram viagem.

O que a mãe não percebera, contudo e o que era a mais completa verdade, é que Sandra, desde aquele momento, não tirou Cássio do pensamento. Apenas era muito orgulhosa, incapaz de deixar que alguém lhe conhecesse os desejos e pensamentos.

Passada uma semana, Dalva passou a achar Sandra mais ensimesmada do que o normal e inquiriu-a sobre a mudança, mas nada de revelar seu segredo à amiga.

Uma manhã, porém, não conseguindo se conter, foi até a casa de Dalva e contou a ela o que havia acontecido na rodoviária da capital e como estava se sentindo com relação ao rapaz, ou seja, não conseguia pensar em outra coisa, a não ser em Cássio.

A amiga ficou bastante feliz e a encorajou a procurá-lo, já que o moço não podia fazer isso, pois não tinha o endereço de Sandra e reforçou que, amor à primeira vista é mais comum do que se imagina e que o mesmo pode ter ocorrido com o rapaz.

Ficou acertado entre as duas que Sandra iria escrever-lhe uma carta, pois telefonar ela não poderia, faltaria coragem para tanto.

Dalva e a amiga ficaram quase uma semana sem se ver, porque Dalva estava ocupada com a solenidade do dia do professor. Quando as duas, por um acaso se encontraram no corredor da escola, Dalva se lembrou do combinado e perguntou pela carta, a amiga respondeu que depois falaria com ela e fez um sinal com o polegar para baixo.

Sandra resolveu dar um pulo na casa de Dalva e lhe contou os motivos pelos quais não escrevera ao rapaz. Pelo que Dalva pôde entender, Sandra não tinha coragem de revelar, através de sua carta, toda a dificuldade que sentia em se comunicar. Disse que o rapaz lhe pareceu muito alinhado e que ela não conseguiria produzir três linhas sem o decepcionar.

Sandra tinha uma letra incrivelmente bonita, inclusive, sendo uma moça de família simples, sem muitos recursos, ganhava algum dinheiro escrevendo a nanquim em cartões e convites, o que muito a ajudava; mas, quanto a desenvolver qualquer idéia, sentia-se um fracasso. Talvez fosse um bloqueio do complexo e da insegurança pessoal.

Depois de muito ouvir, as duas chegaram num consenso. Sandra passaria para a amiga o que gostaria de dizer e não conseguia passar para o papel e Dalva, com sua habilidade, transformaria tais palavras numa verdadeira obra de arte.

Sandra respirou aliviada. Até que enfim, poderia ter uma oportunidade de contato com aquele que era o dono de seus pensamentos e de sua afeição.

Sem mais demora, Dalva apoiou um caderno sobre os dois joelhos, como era de seu feitio despojado e, em pouco tempo, entregou para a amiga uma cartinha doce, porém comedida, por ser o primeiro contato, conforme recomendara.

Foi só o tempo de passar a missiva a limpo, colocar num envelope perfumado, e o sonho ultrapassou o ponto de partida. Era apenas questão de tempo.

Poucos dias depois, Sandra se aproximou de Dalva com uma carta no bolso da jaqueta, retirou-a em silêncio e entregou a ela. Dalva pareceu mais feliz que a amiga, devido à espontaneidade desta e à discrição daquela.

Dalva, ao ler a carta do moço, comentou que sua preocupação não era exagerada, pois, de fato, parecia ser um amor de rapaz e que não se importava em ajudar a amiga com a correspondência, de maneira alguma e que se sentia gratificada por estar participando daquela felicidade.

Após alguns meses de carta - vai, carta – vem, Cássio manifestou vontade de ir visitar Sandra e a sua família e que não tardaria em lhe comunicar tal fato.

Passados os primeiros instantes de alegria, Sandra começou a se preocupar sobre se agradaria ou não ao rapaz pessoalmente, no que foi aconselhada pela amiga que a preocupação seria uma péssima conselheira e que não deveria pensar muito sobre isso e sim curtir a gostosa expectativa de sua chegada.

Sandra mandou fazer roupa nova, preparou gostosos petiscos, de modo a envolver o rapaz com mimos e cuidados. Pela informação de Cássio, seria uma visita rápida, pois não havia quem o substituísse na administração do bar e de outros negócios em andamento.

De qualquer forma, superou a expectativa da moça que não teve muita oportunidade de se mostrar, vez que, na época, namoro sério era dentro da sala e, muitas vezes, os pais e familiares participavam das conversas e, se fossem ao cinema, ou outro lugar público, sempre ia junto um membro da família, mesmo se menor.

Devido os negócios, as visitas seriam de apenas duas por mês e, passado um ano, o conhecimento se travaria mais por cartas que se amontoariam do que pessoalmente, o que facilitaria a vida amorosa de Sandra. E eram cartas maravilhosas, dignas de uma verdadeira estória de amor.

Não demorou muito, marcaram o casamento. As famílias se conheceram e parecia ter tudo para dar certo.

Perto da data marcada, Dalva se mudou com a família para o triângulo mineiro, mas, mesmo assim, demonstrou à amiga sua felicidade, através de uma carta lindíssima, própria para ser guardada junto às mais elaboradas felicitações.

Sandra, após uma breve lua-de-mel, foi morar em uma ampla casa, construída com muito esmero para os dois e, nos primeiros tempos, a harmonia parecia habitar aquela casa, empenhados que estavam em se descobrirem.

Logo no princípio, por um descuido, Sandra engravidou. Como corresse risco de aborto, deixou o trabalho de professora e se manteve de repouso. Conseguiu superar a turbulência e a menina nasceu. Ficaram felizes e realizados. Assim sendo, o começo da vida a dois foi imensamente movimentada.

Passados alguns anos, Sandra trabalhando muito, Cássio muito mais, pouco tempo sobrava para o casal. A esposa envolvida com a criação da menina e os afazeres da escola ; o marido, chegando cada vez mais tarde em casa, no afã de ganhar mais e mais dinheiro. Na sua opinião, amor somente não enche barriga. Mas, apesar de possuir um patrimônio considerável para sua idade, não se dava nunca por satisfeito.

Resultou que o relacionamento do casal começou a esfriar consideravelmente. Quando ele chegava do trabalho, ela estava dormindo; quando acordavam, mal se falavam no café da manhã. E assim cumpriam os dias, em meio ao desgaste e à monotonia diária.

Sandra não era feliz, apesar de ter uma vida de opulência como nunca tivera, sentia falta do essencial, do amor e da compreensão do marido e sabia que ele também estava mal. Sandra disfarçava sua tristeza, mas, no fundo, tinha vontade de chamá-lo para uma conversa franca e definitiva, pois não queria perdê-lo, mas tentar uma reconstrução.

Como se sentia inibida, num rápido momento de contato, perguntou ao marido porque mudara tanto, em tão pouco tempo, ao que ele respondeu que gostaria de estar longe dela, para receber uma carta de amor como aquelas que recebera no passado e o tinham feito tanto feliz!

Sandra se sentiu decepcionada naquele momento, mas não conseguiu dizer nada, pois não era a primeira vez que se referia àquelas cartas, exibindo uma expressão de saudade e de tristeza no rosto.

A partir desse dia, Sandra evitou tocar no assunto, mas se manteve pensativa e ausente, ao passo que o marido chegava a casa, cada vez mais tarde e mais distante.

Uma noite, enquanto aguardava o marido, como há muito não fazia, Sandra preparou uma linda mesa de jantar, decorada com flores e velas. Vestiu uma lingerie nova e muito bonita e reconheceu em si uma linda mulher, como há muito não se permitia. Olhou-se no espelho, soltou os cabelos que mantinha presos. Passou um leve batom cintilante nos lábios, perfumou-se e resolveu partir para o tudo ou nada. Não visava apenas reatar o enlace, mas, mesmo que o perdesse, de acordo com os seus planos, viveria, dessa noite em diante com a alma em paz.

Quando Cássio chegou, estranhou a mesa posta, as velas, as flores e muito mais, a mulher bonita como nos tempos do namoro, tão cheia de sonhos e esperança.

Meio desconfiado, perguntou que data era aquela, pois não estava se lembrando de nada para aquele dia. Respondeu Sandra que o que ela tinha pra dizer e já deveria ter falado há tempos, era muito especial e gostaria que ele fosse compreensivo. E que, depois do jantar, conversariam.

Jantaram meio que sem falar, até que ele se adiantou e pediu-lhe que se apressasse, pois tivera um dia muito pesado e precisava dormir. Ela fingiu não perceber a deselegância e começou a explicar o motivo daquela conversa.

Começou recordando o dia em que se conheceram, a primeira visita, o beijo primeiro, o casamento e a felicidade experimentada ao se tornar sua mulher. Ele cortou, dizendo que ela se esquecera de se referir à correspondência, àquelas belas cartas que embalaram o romance.

Sandra interrompeu imediatamente o marido, dizendo que ele só fixava nas cartas, como se elas tivessem sido o ponto alto do relacionamento, mais importante até do que sua própria pessoa. E que o principal tema da conversa era realmente as ditas cartas.

Cássio fez menção de interferir, mas ela pediu um tempo, porque estava reunindo forças e coragem para dizer o que estava engasgado há muito tempo.

Subitamente, levantou a cabeça e começou a falar de sua dificuldade de expressão, toda a expectativa que vivera antes de escrever-lhe a primeira carta e sobre a necessidade de se mostrar, cada vez melhor, principalmente após receber a sua resposta, tão romântica e bem escrita.

Cássio segurou com firmeza o copo e bebeu mais um gole de vinho. Com os olhos fitos na mulher, exibia certo ar de tristeza e uma apreensão indisfarçável.

Foi nesse momento que Sandra abriu o jogo e confessou que era sua amiga Dalva quem escrevia aquelas cartas, muito embora o conteúdo fosse aprovado pela sua mente e coração. Que não havia mentiras naquele sentimento tão forte que nutriu por ele desde a primeira vez.

Cássio permaneceu calado por seculares segundos e, sorvendo mais um gole de vinho, perguntou a ela se ela gostava de suas cartas e se elas a encantaram da mesma maneira.

Sandra, ainda envergonhada e, sem levantar os olhos, disse que essa certeza ele tinha, pois várias vezes se referiu à perfeição delas e à beleza de suas palavras de amor, que tanto lhe fizeram falta desde então.

Cássio, levantando e sentando-se mais perto de Sandra, tomou-lhe as mãos e disse que o que gostaria de revelar era igualmente surpreendente. Que, na verdade, quem escrevia as cartas para ela era, na verdade, seu amigo Rodolfo, que ela tão bem conhecia. Que, quando recebeu sua primeira carta, ficou encantado com sua maneira de escrever e de se expressar e viu que não seria capaz de agradá-la, sendo ele o autor da missiva.

Entre aliviada e decepcionada, ainda sem olhar nos olhos do marido, perguntou-lhe sobre quem deveria desculpar quem e ficou esperando impacientemente a resposta.

Cássio, com brandura no olhar, disse que ambos pecaram por amor e que, se ela quisesse, recomeçariam sua estória, a partir daquele momento, sendo eles duas pessoas que se amavam, que, em comum, possuíam uma dificuldade danada de se expressar por escrito e que semelhanças podem nutrir um bom recomeço e as diferenças, consolidá-lo.

Sandra, tentando brincar, perguntou ao marido se, se fosse possível, Rodolfo e Dalva viveriam uma linda estória de amor, sendo eles peritos nas cartas de amor.

Cássio argumentou que poderia ser que sim ou , mais certo, que não. Porque Rodolfo era bem casado e um apaixonado pelo amor e um escritor nato e Dalva, uma apaixonada pela vida, uma verdadeira especialista na arte de escrever.

Coincidentemente, naquela tarde, Dalva havia mandado um cartão para o casal, falando do Congresso de Literatura de que estava participando em Buenos Aires e do lançamento de seu próximo livro, com palavras belas dizia de saudade e de realização.

Não menos felizes e realizados, Sandra e Cássio foram para o quarto, esquecidos do mundo, revivendo uma noite de amor, como no princípio, isso sem precisar dizer muitas palavras.

.... Fim.....