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Obsessão: A verdade sobre meu pai - cap II

Capítulo II – Portas abertas

Meses depois da morte de Charles, Jean, finalmente, tomado por um desejo absurdo, revirava a pequena caixa de madeira que herdou. Ignorou-a por um longo tempo, não tendo coragem para abri-la. Receava encontrar algo que lhe trouxesse tristezas imensuráveis e que, depois de aberta, não haveria mais volta. Vencendo o medo inicial, rompeu o lacre que a selava. Cuidadosamente ergueu a tampa, com medo do que poderia encontrar. Ao primeiro contato com o seu conteúdo, sentiu o desânimo abatê-lo. Não havia nada de importante, somente alguns poucos livros empoeirados, alinhados na caixa rústica. Tentava concluir o porquê de estarem guardados ali, uma vez que o escritório era abarrotado de livros. Nunca entrara no cômodo privado da casa, mas vira diversas vezes o pai entrar com inúmeros volumes no lugar misterioso.
Cheio de dúvidas, puxou um exemplar e folheou-o. Não havia nada de surpreendente para exilá-los dos outros, porém a coloração amarelada do livro chamou-lhe a atenção. Teve a impressão que o livro era raro e constatou ao ver a data de impressão. Remetia ao início do século passado, uma raríssima primeira edição de Mario de Andrade. Devia valer uma fortuna, por isso o guardava em um lugar diferente dos demais. Surpreso, retirou um por um, observando atentamente as datas impressas nas últimas folhas. Cada edição aparentava nova, sem amassados ou marcados. Nem mesmo pareciam lidos. Somente o amarelaço das páginas e as letras tipográficas antigas condenavam a idade daquelas obras.
Sabia que pai colecionava livros, se os leu todos, não poderia saber. Difícil acreditar que alguém pudesse ler tantos volumes e guardar seus conhecimentos variados em um prazo de vida tão curto. Em sua cabeça, o pai lera e relera cada letra de cada parágrafo de cada página de cada livro, mesmo que nunca os tivesse aberto. Fazia parte de sua admiração secreta pela figura misteriosa, moldada sob um semblante ríspido e indiferente.
Ao pegar a caixa vazia para repor a fortuna encontrada, ficou intrigado com o som quase inaudível que vinha dela. Sacudiu a caixa, virando-a para baixo, mas nada caiu. Sacudiu-a novamente, dessa vez próxima ao ouvido e escutou o mesmo som abafado. Analisou-a atentamente a fim de entender o significado do barulho. Tocou suavemente o tecido aveludado que a revestia e sentiu nos cantos uma pequena, quase imperceptível, elevação. Delicadamente puxou o tecido, encontrando uma chave dourada escondida num fundo falso. Restava saber de onde era aquela chave.
Não demorou muito tempo para que descobrisse.

***

Durante toda a vida, desejou entrar no cômodo proibido no fim do corredor, porém nunca fora permitida a entrada em seu refúgio. O pai temia que por descuido cometesse algum crime bárbaro contra seus estimados livros, os verdadeiros amigos na vida do homem solitário que, por mais que tentasse um relacionamento físico, permanecia de forma melancólica, por si próprio, isolado do mundo real; terminando por ouvi-los e, absurdamente, dialogando com eles, restando em sua vida nada mais que um silêncio entediante. Era, portanto, compreensível a proibição, afinal Jean tivera a adolescência problemática inspirada na falta paterna, motivando uma rebeldia constante e perigosa. Suas ações não eram mais as mesmas, chegando ao ponto de tornar-se agressivo com todos a sua volta. Nessa fase de mudanças, Jean não ouvia o pai, tampouco a mãe; somente suas vontades eram obedecidas. O tempo se encarregou de dar-lhe responsabilidade antes que cometesse um delito maior do que brigas e más companhias. Um episódio ruim de sua vida, mas de curta duração.

***

Não suportando a curiosidade que o pequeno objeto em suas mãos despertara, Jean não hesitou. Segurando-o vorazmente, apertou com tamanha força que feriu a mão. Estava tão admirado com a posse da chave do tesouro que não sentiu a dor do corte.
— Posso entrar e pôr fogo em tudo aquilo, ver com meus próprios olhos a última lembrança do que tanto nos fez sofrer — disse para si mesmo convicto, sabendo que Charles nada poderia fazer, não poderia castigá-lo, pois os mortos não se levantam de seus túmulos.
Caminhou ofegante pelo corredor, parando em frente à imensa porta de carvalho. Segurou a maçaneta dourada e tremeu.
— Saía daí, Jean. Saia! Você não pode entrar! — ouviu claramente a voz rouca de o pai bradar atrás dele como um sino ao badalar das doze horas.
Olhou por sobre os ombros, mas nada viu de anormal, sentiu um leve mal-estar provocado pelo medo, que lhe pregava uma peça. A consciência se arrependia.
Estático, permaneceu por alguns minutos apenas observando a porta fechada diante dos seus olhos. Como um raio, pequenas lembranças de infância vieram à mente. Foi tomado por um saudosismo cruel remexendo suas emoções. Chorou. As lágrimas doeram-lhe como um bofetão dado com rancor. Não ficaria ali parado. Encaixou a chave na fechadura, nunca antes o fizera, via somente de relance o pai parado em frente à porta, com olhar desconfiado e triste, mecanicamente abrir, entrar e fechar a porta, regressando ao seu mundo particular. Horas depois, não raro, no dia seguinte, via-o novamente, mais melancólico do que antes. Não dizia sequer uma palavra sobre o período em que lá permanecia. Se questionado fosse, esbravejava com todos e saía apressado. Havia nele um desgosto profundo, como o homem que sua terra abandona por força do destino e é obrigado a passar a vida em terras desconhecidas, com pessoas inimigas.
Jean questionava-se como puderam, ele e a mãe, suportar a indiferença, a solidão que sentiam. Por que os pais continuaram com a farsa, tendo o casamento arruinado. Não encontrava respostas.
Lentamente rodou a chave, a porta se abriu emitindo um som funéreo. A escuridão cobria tudo com seu manto negro. Tateando no escuro, encontrou o interruptor. Uma fraca luz amarelada clareou o escritório. A poeira alojava-se sobre a mesa, sobre a janela, estantes, tudo tomado pelo abandono. Havia um livro sobre a mesa Teria sido o último, se perguntou, curioso. Aproximou-se lentamente, ainda tomado pelo receio de estar infringindo a lei. Pôde ver as páginas amareladas do livro, marcadas pelo cetim vermelho das edições luxuosas. Apanhou-o, deixando marcas de dedos na capa empoeirada. Sentiu-se como o pior dos míseros a cometer um crime inafiançável.
Suspirou profundamente, sentindo o coração bater forte e descompassado. A simples permanência naquele lugar o deixava completamente incomodado, mas não poderia fugir do próprio destino, a tarefa era impossível. Tentava desesperadamente controlar a ansiedade que o assolava internamente. Suava frio, abria e fechava os olhos para ver com precisão, mas as vistas ardiam cada vez que uma gota de suor entrava em contado com suas retinas.
Hesitante, Jean reabriu os olhos, registrando cada detalhe que lhe era perceptível. Olhava admirado a vasta coleção de diplomas emoldurada na parede atrás da mesa. Sabia que a principal desculpa do pai para se auto-exilar era o trabalho, pois para fugir dos seus problemas e esquecê-los por completo, dedicava-se de corpo e alma a sua ocupação profissional. Cada vez que as lembranças passadas o atormentavam, ele penetrava ainda mais em sua supra-realidade, fechando-se até esquecer a existência do mundo exterior.
Do outro lado, num espaço milimetricamente calculado entre as estantes, um quadro chamava a atenção. Estava coberto. Jean aproximou-se, cismando consigo mesmo quais seriam os motivos da proteção. Retirou o véu que o cobria e deparou-se com uma mulher lindíssima Encarou a pintura fascinado. Observou cada traço do rosto daquela mulher retratada a óleo. Encantou-se com a pele rósea e os magníficos lábios vermelhos.
— Que mulher — exclamou para si mesmo — perfeita!
Fascinado pelo brilho dos olhos anis, quis saber quem era aquela figura tão bela e exuberante. Procurou seu nome, mas não se encontrava nem quadro, nem na moldura. Seu pai o levara para o túmulo. Percebeu, enfim, o porquê de sua mãe, assim como ele, ser proibida de entrar no refúgio invadido.
Seguindo a expedição, deparou-se com uma poltrona antiga, deveria custar uma fortuna. Imaginou o pai sentado, com o corpo fatigado, de olhos fechados, com um livro caído ao colo, o cinzeiro cheio sobre a mesinha e o cigarro ao lado. Ele deveria permanecer assim todas as vezes que sentira o peso das horas e o corpo, cansado demais, não conseguia chegar ao quarto de dormir.
O ar envelhecido do recinto fez com que Jean sentisse o ar lhe faltar, o cheiro de mofo lhe provocava náuseas. As pernas tremiam, a cabeça pendia para trás, sentia ânsias de vômito, os olhos escureceram. Pareceu ter a cabeça comprimida por uma força sobre-humana. Esforçando-se para não cair, com dificuldade, chegou à janela e a abriu, deixando uma lufada invadir o ambiente, renovando o ar envelhecido.
Via o mar bater sobre as rochas, deixando um véu de espuma branca navegar até a praia. Como um espelho ondulado, a água refletia o intenso brilho lunar. Daquela janela o mundo era outro. Era o mundo particular de seu pai, um universo desconhecido até então. A partir daquele momento, via as coisas de modo diferente, ainda que em baixa escala, mas com olhos que não lhe pertenciam.
Com o ar renovado, sentou-se, por respeito, na cadeira de frente à mesa de trabalho. Ao primeiro momento apenas observou o lugar vazio a sua frente com uma saudosa lembrança do pai. De repente, num gesto brusco e decidido, como o príncipe que herda o trono, atirou-se sobre a cadeira, tomando para si o lugar vazio. Vencera o medo que lhe atemorizava. Naquele instante a vida tomava nuanças acinzentadas como a de seu pai. Suspirou temerário, sentindo um poder místico invadi-lo. Era o dono daquele mundo estranho.
Novamente assustou-se ao deparar-se com os olhos vibrantes da estranha mulher emoldurada a sua frente. Daquele ângulo, pareciam estar vivos, fitando-o intensamente. Cada pêlo do seu corpo arrepiara-se, teve calafrios, tonturas e náuseas. Não agüentou! Os sentimentos misturavam-se angustiosamente. A idéia da desobediência o corroia internamente. Foi a primeira vez que desobedecera às regras impostas pelo pai, mas para que conhecesse a verdadeira história, teria que quebrá-las e libertar-se dos seus traumas mais intensos.

Apressado, saiu da biblioteca, trancando a porta em seguida. Olhando ao redor, não notara viva alma, Elizabete estava no quarto desde a hora em que ele chegou, portanto não sabia onde o filho estivera. Pôs a chave no paletó e saiu afoito, tentando esquecer-se das coisas que sentira há pouco.
***
Da janela de seu quarto, Elizabete via Jean agitado correr em disparada para o carro e partir sem dizer adeus.

Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 26/03/2006
Código do texto: T128945

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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