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Incidente em Vila de Fátima parte 6

6 - O POVO QUER SABER

Aquela aglomeração, só podia ser coisa de Camões que querendo vender jornal fizera uma prévia pela cidade do que ia ser manchete na edição extra, ou da língua do cabo Solto, ele, o descobridor de tudo, ele que avisara o delegado Vieira, ele que fora buscar a escada e que levara de volta porque não tinha serventia, ele, só ele, que vira tudo desde o começo, menos o enforcamento que disso ele não sabia, não vira nem ouvira e não ia inventar porque não era do seu feitio ser mentiroso, mas que houve um crime e delegado Vieira, seu chefe imediato e protetor  ia descobrir tudo, ah, isso ia! ! !
A lei da curiosidade não está escrita em nenhum livro jurídico mas está fortemente referendada pelo decreto lei da busca da razão do porquê; de um culpado quem foi; de uma providência e de um prognóstico o que vai se fazer daqui pra frente ?
O povo, impulsionado por essa regra natural, acotovelava-se, queria saber mais, antecipar-se ao jornal de Camões que a esta hora estava rodando a todo vapor e a turba humana quando abre a porteira, não respeita nem a autoridade, não ouvindo o pedido de Delegado Vieira, deixem cabo Solto passar, este de volta da entrega da escada, tentando ocupar o seu lugar ao lado do delegado.
Vieira, com a língua coçando de  vontade de dizer:  organizem uma fila para ver o anão na forca, conteve-se e tentou narrar o que sabia, mas as perguntas começaram a chover numa peleja injusta uma vez que Vieira era um só, estava emocionado, enquanto o povo unido, despejava uma saraivada de perguntas. Seu delegado, é verdade  que Tico morreu, se pendurado na corda está desde a manhã, com certeza vivo não está mais, respondeu, e por que não tirou ainda, é porque houve um crime, Tico foi assassinado e o caso precisa ser investigado, dessa forma o local não pode ser mexido até que se apure a verdade, por isso, ainda não posso permitir a entrada de ninguém na delegacia. Ia dar a notícia da sua aposentadoria, agradecer a todos pela colaboração e dar o caso como encerrado temporariamente quando  Pereira, o  único  advogado  e vereador  local destacou-se na multidão e perguntou até quando vai manter Tico nessa posição, até chegarem os peritos, que peritos se na Vila de  Fátima  não havia nada disso ? Desta  vez, Delegado Vieira teve que fazer um esforço sobre-humano, além das suas habituais possibilidades normais, percorrer o universo em questão de segundos buscando uma justificativa coerente, rezar três Aves Marias e quatro Pais-Nossos-Que-Estais-Nos-Céus, pedir perdão a todos os Santos antes de mentir: já telefonei pra capital e uma equipe está a caminho.

O advogado insistiu: uma vez que o caso já foi fotografado por Camões, testemunhado pelo cabo Solto, assinado embaixo pelo senhor delegado, porque deixá-lo ainda pendurado se o morto,  morto está desde a manhã e já são quase dez e meia qual a razão de não tirá-lo da corda e deitá-lo como convém a qualquer ser humano? Assim despejou argumentos sem fim: isto é contra a lei expor um ser humano ao ridículo, numa posição infame, desumana, afinal se Tico não era cria do lugar, era como se fosse tanto tempo estava na vila, vamos velá-lo num caixão como convém a qualquer defunto. Vieira por sua vez, descarregava também seus contra-argumentos: seu Pereira, o senhor como representante político da nossa vila e como advogado acima de tudo, deve saber dos trâmites da lei onde tudo deve ser investigado para que a justiça seja feita e mexendo no local do crime, Vossa Excelência acaba sendo cúmplice do homicida, acobertando o crime e dificultando as investigações posteriores.
O que ninguém percebera, nem o advogado, nem o delegado, muito menos o povo que já começava a tomar posição no time do tira e do não-tira, era que aquela  troca  de  teimosia, de argumentos e contra-argumentos, não tinha nada de justiça e muito menos de humanismo. Tinha era raízes na infância, quando os dois, Vieira e Pereira, se desentenderam numa pelada, coisa de moleque que se alastra pela vida afora e espera uma oportunidade pra aflorar e aquele era o momento dos dois, inconscientemente, trazerem à baila velhas diferenças, até que Pereira, perdendo as estribeiras, gritou :
- Mas que diabo tem de importante um anão, enforcado, pobre e principalmente preto? Me diz: que diferença faz se pendurado ou deitado ???
Dessa vez fazia diferença sim, porque diz o dito popular que quem falou besteira falou merda e nada mais sábio que a boca do povo, pois uma frase mal dita é como as fezes que uma vez expelida não tem como voltar e só mesmo quem faz é que agüenta o cheiro e assim foi com o argumento do vereador que, se tinha empatado na opinião pública do boca a boca, perdera na boca da urna, e com a cueca do arrependimento cheio, expondo seu racismo a uma população mais pra café do que para leite, ele, branquelão, descendente de europeus, se alguém estranho havia naquelas paragens, sem dúvida era ele, provando que sua preocupação era mais vencer Vieira que tirar Tico da forca.
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 26/04/2005
Código do texto: T13078
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
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