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Rô & Má

Rosana não se achava bem uma mulher. Não no sentido pleno. Sim, era um ser humano do sexo feminino. Também era amante, concubina, e dona-de-casa. Mas faltava-lhe algo que preenchesse sua lacuna emocional. Uma fenda tão extensa na casca de sua árvore que corria o risco de definhar e morrer, assim à luz do dia, do sol. O local da ferida, pois, de difícil acesso, profundo, incrustado no espírito e no corpo.

Logo após o almoço arrumou as cadeiras, levantou o tapete, varreu toda sala. Enquanto guardava as louças que acabara de lavar, uma lagartixa transitava pelos recém limpos ladrilhos pretos e brancos que deram tanto trabalho para serem escolhidos. Mario não queria. Sempre atendeu aos desejos de Mario. Tudo em nome do bem matrimonial. A lagartixa, pequenina, se esgueirava tensa, alerta, parando a cada momento, a cada ruído, a cada olhar que suspeitasse ser em sua direção. Deslizando a barriga sobre o ladrilho frio, desenhava movimentos geométricos. Destoando do ritmo previsível dos azulejos, construía mosaicos a cada passada. Seu tom de pele contrastando com o motivo de frutas do papel que forrava a outra metade da parede. Rosana a olhou por um breve momento, despropositadamente, o suficiente para deixá-la estática, dura como uma estátua de gelo. Desviando a atenção da bicha, voltou seu olhar para a lista de contas pendentes fixadas na porta da geladeira azul anos 60 - outra peça cuidadosamente escolhida e negociada com Mario. Desde cedo, bem ao levantar, já sabia da ausência de Mario para o jantar. Providenciara então, quase satisfeita, um pedido de comida chinesa pelo telefone, menos louça acumulada, uma benção.

Estão casados há seis anos. É de conhecimento coletivo que para se baixar a guarda, relaxar, deixar afinal caírem as famigeradas máscaras, se faz necessário o convívio diário. Naquela afobação típica de afogado e de passarinho na gaiola, decidiram morar juntos. “Toda dificuldade é contornável” – o mantra exaustivo dos pombinhos. Na prática não foi bem assim. Nunca é. Carlos foi o ungüento de sua ferida. Nada de paixão avassaladora. Romance frio, calculista, diria até premeditado. Homem seguro, seus objetivos embora divergentes completamente dos dela, há muito tempo já traçados. Nessas claras metas sobrou-lhe pouco tempo pra distrações. Então ele ia e voltava. Às vezes nem voltava. Quem voltava era o ônibus da empresa que há cinco anos o pegava e o levava em casa. O sétimo assento, contando do motorista pra trás, do lado esquerdo - vazio. Aquele vazio familiar, mais uma lacuna na vida de Rosana, o aceno dado pela manhã prenunciava um “até logo” demorado. Demorado demais.

Levavam assim sem maiores preocupações. Trabalho versus vida à dois. Quando tudo parecia rumar ao naufrágio inevitável do relacionamento condenado, algo os uniu. A solidariedade fermentada a partir de uma massa estéril, improvável, é assustadora. Todo ato repentino, toda mudança inesperada, tende a servir ou como aproximação, ou como o bater do martelo, o veredicto final, a rejeição. Por trás de uma grande decepção, de uma ameaça, há o ponto de apoio, a rocha, aquele que no meio da correria pro escaler pára e pensa: “Porra, não é bem por aí. E depois?”. Até então não houvera acontecimento cujo grau de importância, ou relevância, viesse a afetar a rotina confortável e sem sobressaltos que agradava tanto a Mario. Sexo? Rolava, rolava. Burocraticamente às quintas e sextas, quando iam a Maison de France assistir uns filmezinhos. Dali era um pulo pro rodízio de pizzas e quiçá – se estivessem inspirados – um motelzinho no fim de noite. Mario, roliço, o corpo largo de ex-nadador (treinava no Vasco, competiu até os vinte anos, quando se formou e começou a engordar proporcionalmente ao seu salário) sempre por baixo. Um preguiçoso. Rosana compensava a falta de aulas de step fazendo faxina e subindo e descendo na cavalgadura. Não que tenham combinado democrática e abertamente. Não se davam essas brechas. Privilegiavam a boa educação adquirida nos anos de apartamentos conjugados, morando sozinhos ou na companhia de gatos e peixinhos dourados. Não discutiam nada abertamente. Nem mijavam de porta aberta. Não pegava bem. O fio condutor aqui, o pavio das noites de luxúria, na verdade era o apreço por cinema francês. Mas atemo-nos aos fatos. Numa dessas noites de sexo previsível – com direito aos gemidos e falsas gozadas – Rosana pós-coito, caída de lado, bonita até, com os cabelos longos desgrenhados, as bochechas rosadas, disse quase que num esforço pra não ser ouvida:

- E se a gente tivesse um filho?
- Hããã... – Mario, pica e bunda flácidas.
- Ontem sonhei com meu pônei...
- Sei.
- E com uma menininha de rosa o guiando pelas rédeas, puxando ele...
- E daí?
- Acho que estou grávida.

Antes que concluísse a frase, Mario roncava. Ela desligou o abajur e se uniu a sinfonia. Rinite e música alta na adolescência, sua falta de sorte.

Pela manhã, o “até logo” e o jornal. A idéia fixa na cabeça. Embora tradicionalista no que concerne ao ideal de vida perfeita, toda repetição mecânica cotidiana de alguma maneira a incomodava. Como uma espinha dentro do nariz. Queria era dar fim àquela infelicidade travestida de sucesso. Deixar o feto inchar e crescer como um tumor gigante, uma barriga colossal que expressasse toda sua insatisfação oculta. As estrias que viessem e ocupassem seu espaço, os desejos mais esdrúxulos, só pelo prazer de infligir algum caos. O desvio na coluna, o inchaço, a falta de bom humor, o desarranjo hormonal, as contrações, a placenta, todos os fluídos e nojeiras envolvidas no processo, o maldito talho no períneo, tudo suportável. Aquele barrigudo que tratasse de rebolar um pouco aquela bunda. Uma metida convencional, papai-mamãe. Quem dera uma chupada. Não se recordava do último encontro entre a língua de Mario e sua buceta. Mario tinha nojo de buceta. Viadinho. D. Maristela, a avó, é a culpada. Mimadinho. Mas claro que jamais diria isso a ele. São civilizados, se respeitam. Imagina. “Mario, porque você não me chupa mais?”. Inviável. “Não é de bom tom”. Bem capaz de sair com essa como resposta. A seu favor, o bebê além de servir como companhia, talvez despertasse de forma natural seu instinto maternal treinado à exaustão durante a infância. Sem contar a pinçada do dia-a-dia e, secretamente, o sentimento rechaçado por ela com violência: a satisfação na insatisfação de Mario. O contra-senso de sua empreitada: a chamada boa índole, a consciência. Ela que sempre vem atazanar nos minutos precedentes ao sono. No momento do contato da cabeça com o travesseiro, criava seu banco dos réus.

Lavando a louça do café, os devaneios a inebriavam. A neblina suave do inverno cor de chumbo flutuava do lado de fora da janela. A lagartixa surgiu em busca dos mosquitos matinais. Desta vez mais confiante, atirada. Desfilava lentamente, caçadora tática. Por vezes imóvel, por vezes veloz. Rosana a observava, a admirava, invejava sua liberdade. A menininha de rosa a atormentando. Seguiu pelo tabuleiro que é a parede; movimentos em diagonal, duas casas a frente, duas pro lado, em “ele”. No xadrez da sobrevivência, xeque-mate. Essa vivacidade, essa disposição do animalzinho fez Rosana suspirar entre os panos de prato bordados em ponto-de-cruz.

O imaginário – o pouco que resta de dignamente humano em Rosana – povoado por tufos; Cabelos, cachos negros em um timãozinho rosa, feno, pêlos, algodão e nuvens. Campos de trigo enormes onde pastam apressadas nuvens. Uma coisa bucólica, verde e dourada. Georgia O´keefe no deserto e todos aqueles ossos pélvicos trespassados pelo azul cintilante e afiado do céu de raras nuvens do deserto do México. Aquelas lindas telas, antes mesmo de serem pintadas, retratavam o íntimo de Rosana. Mesmo separadas pela intransponível barreira do tempo, as duas – as telas e/ou Rosana e mesmo O´keefe quem sabe? – revelam o lado matemático da arte, o cálculo; mas também a chama, a perspicácia, a sacação do efeito, da mágica através de um osso humano, comumente associado à morbidez. A transformação. A vitalidade da lagartixa. Rosana queria mesmo era sair dessa maciez toda, desse mundo fofo, acolchoado e seguro. A crina do seu pônei e os cabelos da menininha eram os fantasmas assombrando a casa.

Sua magreza, tão em voga hoje em dia, constituía em Rosana, como peças deformadas de um lego, uma construção de pouca beleza. Encovada demais. Ombros estreitos, as espáduas salientes demais. Uma magreza não salutar. Seu tipo físico resultado e ressaltado pela pressão sofrida. Pressão no sentido gravitacional mesmo, esmagada pelo ramerrão diário, pela opressão assumida a cada nascer de um novo sol. Mario imbecil e insensível demais para perceber qualquer coisa que se distanciasse mais de um palmo de seu nariz. E aí eram maratonas de Godard e fatias de champignon ou mussarela. Ele saía e tornava a não chegar. Um ser infinito, um ciclo vicioso de descaso. Mario teve de se ausentar por um período mais longo. Ficaria fora quinze dias, que chegaram a dois meses.

E Rosana alimentava-se da idéia da gravidez e aguardava a visita da lagartixa. Passou a esperá-la. Já não agia de forma livre de qualquer maneira mesmo, então, deu-se o luxo de mais uma não-tarefa do dia, já que sua vida era de uma nulidade insana. Uma vida em negativos. Invejava-a cada vez mais e criava cenários propícios para o aparecimento da bicha. Como se fosse seu animalzinho de estimação, assobiava na intenção de chamá-la. Entre comida congelada e toalhas sistematicamente enroladas no armário, sobrava-lhe ou um livro ou a lagartixa. A segunda ganhava a cada nova aparição, maior admiração. Já nem dava falta de Mario. Na verdade passou a ignorá-lo descaradamente, o que para ele foi um alívio, já que a empresa passava por maus momentos e sua presença tornara-se indispensável. Não retornava ou atendia às ligações.

Trancada em casa, sozinha, Rosana optou pelo aprendizado mais difícil e o mais eficaz: a dor. Jejuou durante dias, sem perceber. Não se alimentava, não andava. Se arrastava e tomava demorados banhos de sol. Martirizou-se em contrações imaginárias e psicológicas. Seus sonhos azedando em pesadelos cor-de-rosa e heróis de escamas. Em seu árido útero, a certeza de que sua felicidade dependia de um ovo gorado e que, se enfrentasse seus temores, talvez colhesse flores num mar de espinhos. Queria se virar do avesso e lá de fora olhar para dentro para finalmente, somente assim, entender do que se tratava a tal da “beleza interior”. Quem sabe deste modo solucionasse suas carências e viesse a ter noção de amor. Sua barriga realmente inchou. Apegou-se com tanto afinco à própria mentira que enganou a si mesma. Encarnou tão sinceramente o personagem mãe, que sua razão, instinto de proteção da prole, fez com que desejasse um natimorto, e para que não houvesse dúvidas pôs-se a esmurrar violentamente seu ventre. Esmurrou, esmurrou e esmurrou, até não ter mais forças, até ter descontado suas frustrações, sua apatia; Um edema gigante no abdômen, o escárnio para Mario. Sua omissão finalmente a tornara um animal de sangue frio. O fim do processo de reptilização. Ao chegar de viagem, Mario a encontrou branca, nua, o cabelo negro em arco, uma moldura de um surrealista quadro de terror. No chão impecável da cozinha um vômito ralo permeado de pontos negros. Moscas.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 30/03/2006
Código do texto: T131082
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista