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Ser ou não ser

O domingo amanheceu cinzento. Inerte após a noite de insônia, olhava fixamente o telefone. Na esperança de adquirir coragem, levantou da cama e tomou um banho gelado. Seu reflexo no espelho do banheiro denunciava o medo estampado na face cansada. Preparou um café forte e amargo e a cada gole da bebida quente rezava uma prece sem Deus, rogando ao Nada forças para fazer o que deveria ser feito. Titubeou ainda uma ou duas vezes, sem saber o que fazer. Talvez fosse o certo. Talvez, pra variar, estivesse completamente errado.

Andou de lado a outro, o couro cabeludo lanhado pela coceira de indecisão. Acendeu o último cigarro, pensou, repensou. Dali até o banheiro, sabia: exatos vinte passos. Cada passo dado consumia um segundo, vinte segundos no total então. Ida e volta seriam quarenta segundos. Tempo pra comprar cigarros? Depois, quem sabe. Lá embaixo ele já deve estar indo embora. Certas coisas têm um tempo há serem feitas, ou então, baubau. Depois os cigarros, melhor. O telefone, maldito, lá no canto, como um gárgula inquisidor, seus dez olhos sombrios a sorrir. Resistir à idéia seria quase impossível. Mas não. Deteve-se mais uma vez. Aliás, como havia feito a noite inteira. Poderia se arriscar, apostar tudo, tudo ou nada, à beira do abismo, afinal. Medroso demais. Cauteloso demais. Certos momentos vale mais ser atirado. É isso. Atirado. Daria tempo sim. Ainda daria. Levantou-se – de cuecas – da poltrona em que estava sentado, meteu o pé na porta do banheiro, agarrou-a bruscamente, a amassando, como se fosse sua última chance de entrar no paraíso, sua redenção.

Lá estava ela, sobre a tampa da privada, sorrindo. Sorria dele, ao menos era o que achava. Rita Guedes, atrizinha de merda, murmurou a si mesmo, uma prece de forças. Ela e seu sorriso plástico de clareamento dentário; ela e toda a maquiagem e photoshop tesudo de capa de revista. Piranha! Ali mesmo, de pé, tocou uma punheta de frente pro espelho – gostava de se masturbar se olhando no espelho. Maldita! Toma essa! Lembra o desprezo que você me tratou na sessão de fotos? Lembra? Tá certo, sou só um ajudante, um contra-regra, um Zé ninguém, mas tenho minha dignidade, tá entendendo? Tem que respeitar as pessoas, tá entendendo? Precisava dar showzinho, precisava? Deu trabalho descobrir seu telefone, mas consegui. Eu ia te ligar, te ameaçar. Dizer a merda de atriz e de pessoa que você é. Mas não, poderia dar merda. Agora toma essa, sua puta! Gozou bem no sorriso dela, melando a página. Sim, ainda dava tempo de ir comprar o jornal. Desceu a rua com o tradicional arrependimento pós-bronha.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 30/03/2006
Código do texto: T131084
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista