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A batalha 


     Houve um tempo em que João Pacífico era solitário. Acordava sozinho e sentia-se triste e inoperante. Olhava em redor. As paredes, antes brancas, eram mais sujas que a noite vazia que o assombrava, olhos mortos na escuridão. Uma escuridão a toda prova. À prova de fogo, vento, mar, maresia... Parecia sobressaltado. Sem passado recente ou futuro aparente. Aparentava bem mais que os mil anos que o separavam do presente. 
     Raras vezes, num instinto varonil de defesa e autocontrole, arremetia-se contra si e contra aquele mundo inútil, sombrio e desumano que construíra e do qual agora fugia. Feroz ele estava; em fera se transformava. Era triste vê-lo naquele túmulo úmido e ermo no qual se enterrara. Era byronianamente poético assisti-lo sem vida alguma, sem qualquer esperança. Envolto nas tramas urdidas pela lembrança. Percorreu aqueles corredores e os seus arredores durante todos os séculos nigérrimos da involução humana. Vasculhou os legados da psique, como patético descobridor de coisa nenhuma. 
     João repetia, e gania, e resmungava, e chorava por não desvendar os porquês da madrasta desventura em que se transformara sua parca existência. Não compreendia que as razões estavam em suas poucas atitudes desbravadoras: queria ser galinha, jamais desejou ser ovo. Não percebia que estava morto para a vida. Que a morte nele vivia – não a que mata e maltrata, mas a que nos tira o equilíbrio para aceitá-la imponderavelmente concreta. E assim, perambulando pelos becos morféticos do desprazer, buscava um consciente de luz, mas a treva o apagava. 
     Às vezes, acendia uma lamparina. Outras tantas, nem isso fazia por medo ou vergonha de se enxergar com medo ou vergonha de apenas ser. E ele, forte e duro como um molusco sem casca, repetia dia a dia, para tudo e para poucos, que sempre foi real. Antiteticamente, ali, apegado a seu velório inconsciente, todo aquele mundo de fortaleza indestrutível se corrompia, morria perene. 
     Pacífico sorria meio feio, meio pálido, entre poucos e cariados dentes, ao seu fraco ego indigente, que dele se alimentava, fazendo-se crescer no imaginário e sucumbir na falência de sensações reais. No que deveria ser real. Onde ele acreditava ser possível a vitória. Mas a glória que crescia era a mesma que o detinha, num paradoxo incompreensível a quem não conhece a luz. 
     Existia e creu nisso algumas vezes. Uma luz no fim da luz. Uma cruz a carregar. Um mistério a elucidar. E ele via. Sim, ele a via. A distância, entretanto, era abissal e a preguiça para encurtá-la... Inimaginável! Temia que além da luz nada houvesse a conquistar. Nada mais para ver ou possuir. 
     Certo dia, em total colapso de claridade, ele procurou a luz, e não a encontrou – era claro, mas não havia luz. E o eco de seu ego repetia a todo instante que ele deveria dar-se à luz. Mas ele não a via. Nela não cria. 
     Tropeçou nas pernas bambas e caiu sob o peso do corpo nu e esguio. Com medo estava; de medo quase partiu. Levantou-se arquejante num impulso e de novo desabou. Nada lhe obedecia. A luz? Ele não a via. Descobriu-se enjoado, malfadado, massacrado por seus próprios temores. Torturado por seus renitentes defeitos. 
     Viu as virtudes lhe tentarem soerguer, e a covardia lhe tentando deter. Alucinado, ouvia o sôfrego refrão: “Você é real! Você é real! Você é real!” Num rompante jamais ousado, decidiu crescer. Soltou um grito lancinante e, naquele momento, percebeu o primeiro sinal do motim que o insuflava. Agarrou-se à vida qual cão docílimo protege o dono, e o sono, presente e sempre latente, deu lugar à insônia da verdadeira luta. 
     “Era um sono doente, indolente, pernicioso”. - pensou. “É uma luta maior, máscula, corajosa!”. – berrou. 
     Chegara o momento da batalha final. Precisava tomar uma decisão: “Morrer em berço esplêndido, ou renascer pelo real?” – o que deveria, há muito tempo, ter acreditado: lutar pela vida, pela felicidade, pela paz. Trabalhar seu íntimo para ser real. Para crescer gente. Para amar, e lutar, e conquistar. 
     E ele, finalmente, sorriu... 
     Gritou, pulou. Xingou à covardia, que a coragem agora o possuía! Desafiou que seria forte. Não temeria a morte ou a sorte. Acreditou, pela primeira vez, que o mundo é desafiadoramente real. 
     Fora covarde, é a expressão da verdade, contudo, jamais o seria novamente, a partir do dia de hoje.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 31/03/2006
Reeditado em 31/03/2006
Código do texto: T131726

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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2 e-livros (297 leituras)
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Nel de Moraes