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Obsessão: A verdade sobre meu pai - Capítulo III

Capítulo III – Primeiros Conflitos

Parado em frente a sua casa, Jean trazia o rosto cansado e os olhos chorosos, procurando alívio às suas dores. Encarava a porta como se um inimigo o aguardasse. As horas não o ajudariam, pois a costumeira já se passara. Tinha medo de entrar e ser questionado pela mulher aonde fora; o que fizera; com quem estivera. Preferia encontrá-la dormindo, seria mais fácil pensar em uma boa desculpa até o dia amanhecer. Não poderia contar ainda a sua mulher o que fizera até aquele momento. A invasão era um ato criminoso para ele, portanto se a revelasse à esposa, estaria, na verdade, admitindo sua culpa, sua desonra.
Abrindo a porta silenciosamente, entrou na sala com os sapatos na mão. Procurou livrar-se das roupas antes de chegar ao quarto tomado pela escuridão. — Que sorte a minha, ela está dormindo — pensava consigo mesmo. Deitou-se calmamente, sem mexer a cama, sem que a mulher percebesse sua presença.
Fernanda abriu os olhos, cerrou os dentes e virou-se para o lado oposto ao marido, soltando um enraivecido suspiro, fingia dormir. Em sua mente via passar filmes em que Jean a traía com outras mulheres. Ele vai pagar por isso, vai descobrir que não sou tão tola como ele pensa; dizia para si mesma mentalmente. Fez um longo esforço para não brigar naquela noite, controlando-se ao máximo. Amanhã, amanhã; repetia ela com a voz inaudível. Ao seu lado, Jean roncava aliviado.
Na manhã seguinte, antes mesmo do sol nascer, Fernanda acordou. Tinha estampada no rosto uma expressão de raiva e desconfiança, afinal em cinco anos de casamento seu marido nunca chegara tão tarde como na noite passada. Desconfiava de algo lamentável à instituição falida conhecida como casamento, a traição.
Com muito cuidado para não acordar o marido, levantou-se. De frente para o espelho, fitava-se, analisando suas formas, com medo de que o tempo as tivesse mudado. Alisava os longos cabelos castanhos a procura de fios brancos. Atentamente buscava marcas no rosto alvo, mas seus olhos esverdeados não encontravam sinais do tempo. Desceu as mãos para ventre e o sentiu ainda como antes, reto e duro. Ainda era uma bela mulher. Sabia que provocava desejos nos homens, sabia ser sensual.
Apesar de sua beleza, não entendia como o marido poderia se interessar por outra pessoa.  Tinham os gostos parecidos, compartilhavam dos mesmos pensamentos. Por que; se questionava.
Jean foi seu primeiro e único namorado, conheceram-se na infância, cresceram, amadureceram e amaram-se juntos. Dividindo os sonhos, casaram-se logo que ele conseguira emprego num dos maiores escritórios de advocacia da cidade. Um ano depois, ela terminara a faculdade e começara a trabalhar numa firma de arquitetura. Eram felizes, mas sabia que precisava controlar seu ciúme doentio. Insegura, várias vezes suspeitou que Jean tivesse casos com outras mulheres. Quando noivos, quase pôs o casamento a perder, provocando um escândalo na festa de despedida de Jean na faculdade. Invadiu o salão de festas para flagrá-lo com a suposta amante e, sem pensar, agrediu verbalmente uma das amigas dele. Os dois brigaram e por pouco não romperam o relacionamento. Incentivada pela mãe, ela vigiava os passos do marido, querendo sempre acompanhá-lo onde quer que fosse. Não deixaria nenhuma mulher aproximar-se de seu marido.
Apesar de não gostar do comportamento da esposa, Jean fingia não se importar com suas desconfianças, achava-as engraçadas. Mas com o passar do tempo e com o excessivo aumento de zelo, ele começara a censurá-la. O casamento não estava bem, viviam em conflitos constantes por causa de bobagens e a cobrança desagradável por filhos.
Deixando de lado o espelho, convicta da sua beleza, pegou as roupas que ele usara na noite anterior e iniciou sua busca por provas que comprovassem suas suspeitas. Olhava cada bolso como um perito na cena do crime, colhendo provas que incriminassem o suspeito, mas nada encontrou. Pegou a camisa amarrotada sobre o camiseiro e a cheirou.  Sentiu o nariz arder, quase espirrando. A camisa fedia a mofo e suor.
Foi preparar o café matinal, sem conseguir imaginar onde o marido estivera.
***
Buscando encontrar uma explicação para justificar sua demora na noite anterior, Jean permaneceu deitado em sua cama, pensando no que dizer a esposa. Receava em contar-lhe o que fizera, temia por ele mesmo, temia pelas conseqüências de vasculhar a memória do pai.
Escandalizarei minha família caso encontre algo de vergonhoso na vida de meu pai. Qualquer escândalo enterrado no passado pode ferir a imagem criada pelo seu esforço e vontade. Não quero ser lembrado como o homem que destruiu a credulidade do nome Delacroix. Não posso confiar nem mesmo a Fernanda esse segredo. É melhor permanecer em silêncio. Se me questionarem, inventarei uma desculpa qualquer para suprir a curiosidade. Não quero pôr tudo a perder antes mesmo de o jogo começar. — pensava, enquanto levantava-se da cama.
Ao chegar à cozinha, encontrou a esposa com o semblante fechado. Os olhos fitavam o lado oposto de onde ele entrara. Não moveu um músculo ao vê-lo ultrapassar o arco que separava a cozinha da sala de jantar. Continuava a tomar o seu café da manhã indiferente ao marido.
— Bom dia! — disse Jean.
Ela permaneceu da mesma forma em que estava, como se não o houvesse escutado. Fingia não ouvi-lo, queria castigá-lo, deixá-lo nervoso, que sentisse remorso pelo que fizera.
— Bom dia! — Insistiu ironicamente.
— Não há nada de bom hoje — disse ela, ríspida e seca.
— Fernanda...
— Não fale! — ordenou — A última coisa que quero ouvir hoje é sua voz.
Jean assustou-se com a ira da mulher, imaginava que ela estivesse chateada com ele, mas tamanha raiva o impressionou. Não era de se estranhar a preocupação de Fernanda, em cinco anos de casamento, sempre chegara no horário costumeiro, às dezenove horas. Quando fazia hora extra, sabendo do ciúme excessivo da mulher, nunca deixou ligar, avisando que chegaria mais tarde. Dessa vez, estava tão compenetrado nas coisas do pai que esquecera de avisá-la que iria visitar a mãe. Como decidiu não contar o que fizera, o problema aumentava cada vez mais. Independente do que inventasse, tinha certeza de que Fernanda não acreditaria. Arriscou.
— Fui ver minha mãe. Fiquei preocupado, pois ela me ligou no escritório, dizendo que não estava bem.
— É mesmo? — perguntou, não acreditando no que dizia. — E o que ela tem?
— São as dores de cabeça. Estão cada vez mais fortes.
— Não seria melhor procurar um médico!
— Você sabe como é minha mãe, querida, ela acha que alguns comprimidos resolverão o problema.
— E mesmo com ela sentindo as dores, você ficou lá a noite inteira? — perguntou desconfiada, pondo a xícara de volta à mesa.
— Bem, na verdade, aproveitei para rever algumas coisas minhas que ainda estão lá. — respondeu sem jeito, virando a cabeça e sorrindo de lado, evitando olhá-la nos olhos.
— Engraçado — disse, irônica — pensei que você tivesse trazido tudo para cá no ano passado.
Jean esquecera-se completamente de que não havia mais nada seu na casa da mãe. Fora enfático ao dizer que não restara nada. No final do último ano, chegou com o carro cheio de caixas abarrotadas de livros, discos, trabalhos e roupas; não sobrara sequer uma meia esquecida.
— E trouxe — disse nervoso, tentando se corrigir — mas eu encontrei uma caixa de livros raros que meu pai me deixou. Comecei a lê-los e acabei perdendo a hora.
— Jean — disse não acreditando —, me poupe!
— Mas é verdade! Não há motivos para você não acreditar em mim. Você me conhece, querida. Sabe que eu jamais faria algo que pudesse magoá-la.
— E onde está a tal caixa de livros? Quero vê-la!
— Bem, eu não a trouxe! — disse, percebendo que não conseguiria fazê-la acreditar completamente na história. — Quando percebi que já estava tarde, vim para casa o mais rápido possível. Até arrumar os livros de volta, demoraria mais.
— Sei!
— É verdade!
— O que me espanta, é que seu pai nunca emprestou um livro para você. Tem milhares naquele escritório, que ninguém pode entrar, e sem nenhuma explicação deixa de herança uma caixa cheia de livros raros? — perguntou intrigada.
Fernanda era difícil de enganar. Mas não se sentia à vontade para contar-lhe realmente o que fizera. Se ela descobrisse que o pai não lhe deixara a caixa de herança, ele a encontrara por acaso, estaria contra a parede, não havendo alternativa a não ser trazer a verdade à tona.
— Também não entendi por que, mas...
— Espere aí, se ele a deixou de herança, por que só agora você resolveu pegá-la?
— É que minha mãe a encontrou nesta semana. — mentiu.
— Vou ligar para Elizabete e pedir para que ela mande seus livros. — Levantou-se e pegou o telefone.
Jean arregalou os olhos sem saber o que fazer para impedi-la. Se ligasse para Elizabete, descobriria que ela não lhe dera nenhum pertence do pai. Sua mãe desconfiaria dele se soubesse que havia ficado em sua casa depois de que foi dormir. Precisava pensar em alguma coisa rápido, antes que a esposa pusesse tudo a perder.
— Espere, Fernanda! Não faça isso! Se minha mãe souber que deixei os livros, ela ficará sentida com o meu esquecimento e pensará que os deixei lá por descaso. Deixe que eu mesmo vou.
— E ela não vai vê-los lá, Jean?
— Não, eu os deixei em meu antigo quarto. — mentiu, pois não poderia dizer que estavam no escritório. — Maldição, por que eu não trouxe aquela caixa de livros, só me lembrei da chave — pensava consigo mesmo.
Recolocando o telefone na base, Fernanda fingiu acreditar na história. Não queria passar o fim de semana discutindo com o marido. Fizeram planos para o Domingo e se estivessem brigados seria insuportável mantê-los. Não conseguiria disfarçar da mãe o problema, ela com certeza perceberia que os dois não estavam bem, seu pai nem tanto, mas, para a mãe, dissimular era impossível. Mesmo a contragosto, preferiu deixar a confusão de lado, tentaria passar por cima do ocorrido. Ainda estava desconfiada do que realmente acontecera, tiraria a prova na Segunda-feira, ligando para Elizabete para confirmar a história que Jean contara.
***
Esquecera-se do programa marcado. Se Fernanda não o tivesse lembrado indiretamente, deixaria os sogros esperando por ele. Não gostava da idéia de almoçar com Pedro e Rita, sabia que iria se aborrecer, era sempre assim: cobranças, indiretas, reclamações e, principalmente, quando iriam ter filhos. Não adiantava explicar-lhes seus planos, falar-lhes do despreparo para assumir uma responsabilidade tão grande. Jean não queria ser como foi o pai, queria ser presente na vida do próprio filho, mas ainda não tinha condições psicológicas e financeiras suficientes para reduzir a carga horária no trabalho. Precisava de mais alguns anos para estabelecer-se, crescer profissionalmente, mas isso não importava para os sogros e principalmente para a esposa.
Chegaram na hora marcada. Pedro os esperava ansioso no jardim.
— Finalmente! Pensei que não viessem mais! — disse Pedro, abrindo os abraços e caminhando em direção aos dois.
— Pai — disse Fernanda, o abraçando — não demoramos tanto assim.
— Chegamos na hora — completou Jean, tentando disfarçar seu descontentamento.
— Vamos entrar, sua mãe está na cozinha, preparando o almoço. — falou, apontando o caminho de peras que levava à porta da sala.
Ao entrarem na cozinha, encontraram Rita sentada à mesa.
— Minha Filha, que bom que você chegou! Preciso de sua ajuda aqui. — Disse sorridente com a chegada de Fernanda.
Levantou-se e a abraçou com ternura, ignorando a presença de Jean. Tinha por ele uma desconfiança que beirava a antipatia desde que se tornara íntima de Charles. Não fazendo questão de esconder seus sentimentos pelo genro, deixava nítido seu descontentamento com a união dos dois.
— Rita! — Cumprimentou-a, Jean, já sabendo que dificilmente ela o receberia bem.
— Jean! — devolveu o cumprimento, sem esboçar nenhum tipo de reação.
Voltou-se para a filha.
— Você me ajuda com o almoço?
— É claro, mãe! O que você está preparando?
— Nada demais, só uma massa italiana.
Não havendo o que fazer ali, ele saiu à procura de Pedro.
***
Logo após o almoço, Jean parecia não estar disposto a permanecer na casa dos sogros por muito tempo, desligava-se das conversas com freqüência, causando embaraços a todo hora. Fernanda não sabia por que o marido estava distante, mas imagina ter relação com a noite em que desapareceu depois do trabalho. Quando questionada pelos pais se havia algum problema com ele, respondeu dissimulada:
— As coisas no escritório não andam bem. Jean pegou um caso complicado e está tendo problemas para inocentar seu cliente, por isso não tem dormido direito, fica pensando em maneiras de resolver a situação, mas não encontra uma solução favorável aos seus interesses.
Em sua mentira havia um pouco de verdade, Jean não encontrava a solução, seu pensamento aprofundava-se cada vez mais no pai, em sua imagem antes de falecer. Ligou pontos, traçou linhas imaginárias que não se completavam apesar dos esforços, mas não conseguia entender por que o pai nunca falara do quadro.
Existe algo de estranho nessa história e eu vou descobrir o que é. — Afirmava para si mesmo.
As horas demoravam a passar e ele não queria mais ficar. Desejava retornar a casa de seus pais e vasculhar o escritório até encontrar o que queria para pôr fim ao mistério que o consumia. Precisava encontrar uma desculpa para conseguir a liberdade e fugir do olhar desconfiado de Rita. Precisava desaparecer antes que Pedro perguntasse sobre os netos e se irritasse diante da negativa.
Chamou a esposa e disse-lhe que iria visitar a mãe, afinal ela iria passar outro Domingo solitária.  Fernanda, disse que o acompanharia, pois precisava conversar com Elizabete. Ao perceber que ela não o queria deixar só, desconversou, insistindo para que ela ficasse, pois havia semanas que não visitava os pais.
Fernanda não gostou da idéia, mas acabou aceitando-a, pois sem o marido presente, poderia ficar despreocupada em conversar com a mãe sobre o estranho comportamento do marido nos últimos dias, sem ter que disfarçar o que diziam.
Sem demora Jean partiu, com o pensamento fixo na idéia de explorar todo o escritório. Estava tão compenetrado em seus desejos que nem mesmo se despediu, causando um leve mal estar em Fernanda, que diante dos pais, não soube como explicar a conduta do marido. Forçada pelas circunstâncias, não poderia mentir nem omitir suas preocupações aos pais. Não havendo saída para seus problemas, contou-lhes os últimos acontecimentos de sua vida conjugal e as preocupações que a afligiam, segurando forçosamente as lágrimas que teimavam em escorrer pelos seus olhos. Seu casamento chegara a um ponto crítico, quase sem volta. Não havia mais interesse em mudar as coisas e os segredos de Jean causavam-lhe muitas desconfianças. Não resistiu à dor por muito tempo e chorou angustiosa e compulsivamente no colo materno.
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 01/04/2006
Código do texto: T131844

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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