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Laura


Laura estava pensativa, olhava a roseira em flor e a mangueira carregada, conjeturava sobre o sentido das coisas... Do alto dos seus quase setenta anos, finalmente entendia que o ciclo da vida era perfeito: nascer, crescer, procriar e morrer. Morrer.


- Sinhá quer suco de manga?


Sorriu. Para que precisaria de suco de manga, agora? Talvez para dar trabalho aos agentes funerários lavando seu estômago...


-Não.


Seca. Poderia ter dito, “meu bem”, “querida”, “meu anjo” – mas não seria ela, certas atitudes não são passíveis de modificação, ou alterariam o cerne do ego trabalhado anos e anos. Matriarca e proprietária. Sorriu outra vez, pensando nos filhos disputando a herança, nas noras controladoras de rédeas curtas... Seus sete filhos se casaram com mulheres fortes, disso não havia dúvidas; nunca havia entendido o porquê de ter gerado sete imbecis e hoje, no limiar do último ato desse teatro descomunal, compreendia... E Laura gargalhou, alto e forte, se curvando e trazendo lágrimas aos olhos secos... Ah! Doces enganos, passar a vida desejando algo que não se concretizaria nunca! Nunca filhos fortes e esposas servis, pois o exemplo que tiveram em vida foi exatamente o contrário – escolha sua? Já não sabia.


A criadagem não entendeu e achou que o acesso de riso da patroa era o início de uma síncope, correram para ampará-la.


- Ora saiam de perto de mim, abutres! Ainda estou viva e mando em meu nariz!


Abutres, aves de mau agouro, sanguessugas! Passaram toda a vida babando na barra de sua saia, buscando efetivamente uma única coisa: proteção. Agora, eles tem medo, muito medo.


Laura sublimou a raiva em contemplação – era preciso, o tempo urgia! Ela via os sinais, sentia e pressentia a indesejada de todas gentes, não podia perder tempo em assuntos de somenos importância. Voltou os olhos ao seu cabedal, vasculhou com a mente todos os seus pertences, os enumerou e classificou, arquivando em ordem de importância na memória: a fazenda, os cavalos, o gado... Todo o trabalho de uma vida que os filhos idiotas e suas famílias néscias poriam fogo em muito pouco tempo. Posto que estariam amparados, o compromisso estaria cumprido.


Laura lembrou da infância, das surras e castigos do pai que tornaram seu caráter rijo, endurecido, era o único dos quinze embriões de sua mãe que havia vingado e, pior das deformidades, era mulher. Lembrou depois da adolescência apática e curta, pois, aos treze anos o pai lhe arranjara o traste que viria a ser seu consorte até que a morte os separasse e pusesse a termo aquela relação torpe, cuja obrigação conjugal – único encargo exercido fatalmente com a participação do marido - era calamitosa para ambos.


Depois da morte do cônjuge, pôde sentir o êxtase libertário da solidão – delícia absoluta que preenchia as noites com prazer ardente, transcendente, e os dias com o exercício lúbrico e apetitoso do domínio soberano sobre o império paterno.


Lembranças, lembranças... Mas o tempo se vai rápido, uma dor latente no lado esquerdo do corpo a abateu sobre a cama, logo após a dor se instalou sobre o peito e pressionou a respiração, se sentiu sufocar. Laura teve medo – não da morte, essa era bem vinda –, mas da dor. Buscou forças e arremessou o abajur contra a parede, jogou os bibelôs da mesinha no chão e os empregados vieram em seu socorro. Foi só o que pôde ver, por que em seguida perdeu os sentidos.


Quando despertou, não abriu os olhos, queria curtir bem o momento de uma vida completa e as recompensas celestes... Imaginou nuvens brancas e anjos tocando liras, santos e auréolas e o seu próprio halo dourado alojado sobre sua fronte poderosa. Mas os sons que ouvia, não condiziam com o futuro projetado: vozes muito conhecidas, esganiçadas e tortas. Ah! Deus, não! Não poderia ser, não merecia tal castigo! Mas era. Eram os filhos grunhindo, as noras tagarelando.


Abriu os olhos e constatou: não estava morta, aquilo não poderia corresponder sequer ao inferno. Tentou falar, mas só emitiu sons ininteligíveis, resmungos incompreensíveis; tentou se mover, mas nenhum músculo respondia.


- Mamãe! Que bom que a senhora acordou! A senhora consegue falar?


Ó mortificação! Suportar, ainda sem replicar?


- Sai daí, palerma! Deixa eu falar com a minha sogra, a gente sempre se entendeu muito bem. Querida Dona Laura, sabemos da sua dificuldade, sua doença e tal... Mas a senhora sabe onde está a senha do cofre? Basta um aceno de cabeça, imagine que está em seu quarto, eu saberei interpretar seus sinais.


Laura correu os olhos pelo ambiente, era um quarto de hospital. Sentiu as forças se esvaírem e pediu a Deus para a levar. Mas Deus, esse ser onipotente e desobediente, não a levou. E não a levaria nem tão cedo.


Laura ainda permaneceu no hospital até que os médicos recomendassem sua ida para casa, por não haver o que fazer ali, seu quadro não demonstrava qualquer melhora. Quando foi para casa, não era a sua casa. Os filhos alugaram um apartamento na cidade, a depositaram sobre um colchão d’água numa cama hospitalar e contrataram uma enfermeira gorda e estúpida. O apartamento era minúsculo, seu quarto pegava todo o sol da tarde e Laura suava em bicas. Nos finais de semana alguém da família a visitava e pagava a enfermeira. Dava graças por este dia, não pela visita, mas pelo banho que tomava, as roupas que trocava. Em seu quadril abriu uma ferida enorme, cheia de pus que empestava o ar e por isso a enfermeira mantinha a porta do quarto fechada.


Os filhos a declararam incapaz, soube disso pela conversa da nora com a enfermeira, e tomaram conta da fazenda. Parece que mandaram arrombar o cofre e, decepcionados (nada havia lá além de manuscritos da mãe de Laura) abandonaram o casarão.


Este suplício durou um ano inteiro, até que recebeu uma visita inesperada. Zelma, sua cozinheira de tantos anos.


- Posso ficar com Dona Laura sozinha um pouco?


- De porta fechada, à vontade – declarou a enfermeira.


Zelma passou um tempo observando o corpo inerte da patroa e recordou os maus tratos, recordou os insultos, os impropérios desferidos durante quarenta anos de serviços.


- Dona Laura, a senhora me maltratou muito. Os nomes que a senhora me deu nesses anos, que eu tinha vergonha de repetir para os meus filhos, até os tapas que marcaram minhas costas já tão sofridas... A comida que a senhora não comia e mandava fazer de novo e de novo... Teve dia de fazer janta quatro vezes e já era madrugada quando eu ia limpar a cozinha mais a Eva. A Eva morreu, a senhora soube? Morreu de complicação do parto daquela criança que ela esperava quando a senhora adoeceu... Deve ter sido a escadaria que a senhora mandou ela limpar sozinha, pra largar de ser preguiçosa e entender que gravidez não é doença.


Zelma respirou, limpou as lágrimas que escorriam e continuou.


- Não tenha medo, não. Não vim lhe fazer mal. Acho que o que a senhora sofreu, purgou o mal que fez a tanta gente. Eu vim aqui lhe fazer um favor.


Zelma abriu a bolsa e tirou de lá um vidrinho escuro. Laura entendeu e balbuciou algo como “desculpe e obrigada” e bebeu o conteúdo do vidrinho de uma golada só. Sentiu as tripas retorcerem, o estômago queimar, o intestino esvaziar. Sentiu o escuro profundo e finalmente deu boas vindas à morte tão cobiçada.


Antes de morrer, Laura analisou a ótima capacidade que tinha para escolher empregados. Zelma, Zelma... Fiel até o fim.
 
Jane de Paula Carvalho Santos
Enviado por Jane de Paula Carvalho Santos em 03/04/2006
Código do texto: T133076
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Sobre a autora
Jane de Paula Carvalho Santos
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
20 textos (703 leituras)
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Jane de Paula Carvalho Santos