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O DIA DE UMA PROFESSORA

Era hora do rush. A professora, apressada, encaminhava-se para o ponto de ônibus que ficava a uma quadra da escola. Chegou lotado. Nem um lugarzinho para ela sentar. Foi entrando, pedindo licença a um e a outro, para o fundo do ônibus. Encostou-se num banco e segurou no ferro para se equilibrar a cada solavanco do coletivo.
A viagem seguia. Olhar distante começou a pensar na correria que foi o seu dia de trabalho. Aconteceu de tudo. Aluno que caiu e se machucou; reunião de mães; discussão sobre o dissídio coletivo dos professores; gincana de matemática e português. O ônibus deu uma sacudidela e ela se ajeitou segurando firmemente no ferro. A cabeça continua a trabalhar. Riu, intimamente, ao recordar da professora da sala vizinha à sua. Mocinha, ainda sem experiência em lidar com crianças, a professorinha da sala ao lado, estava de cara enfiada no livro de chamada, colocando as presenças e as ausências, quando um aluno de sete anos disse timidamente:
- Fessora, eu vou ao banheiro.
- Não. - disse ela sem tirar os olhos do livro.
Continuou seu trabalho. O menino ficou lá, em pé aguardando. Novamente ele disse:
- Fessora, eu vou ao banheiro.
Não. – disse rispidamente. E outra vez o menino pediu e outra vez ela negou. Quando terminou com o livro de chamada disse ao menino:
- Agora vá!
- Já fui, fessora!
Então ela olhou na direção do menino e viu o poderoso riacho de água morna correndo na direção da sua mesa. Corre servente de balde e vassoura na mão. Risos loucos dos outros meninos e o autor da proeza encostado num cantinho morrendo de vergonha, enquanto inspetores de alunos, apressados, vinham em direção da ala esquerda da escola, onde ficavam os alunos maiores. Quê teria acontecido? E sai uma das professoras com sua saia preta chapada de chicletes tutti frutti. A turma juntou todos os chicletes mascados, puseram no assento da cadeira. Colocaram a cadeira embaixo da mesa. A professora entrou, e como sempre fazia, puxou a cadeira e olhando para a classe dizia:
- Boa tarde, gente! E, plaft, sentou-se em cima do monte.
Voltou a rir intimamente. Lembrou-se da hora do recreio quando os meninos jogavam bola na quadra de esportes. Uma quadra bem feita, demarcada com faixas brancas, redes de proteção, grades e todo o aparato de segurança que uma quadra exige. Um dos meninos escalou a grade para assistir melhor o jogo. Estava na metade da escalada quando o pé escorregou. Agarrou-se firmemente ao arame da grade, só que suas calças desceram e o pobre estava sem cueca. O jogo parou. A turma rolava no chão de tanto rir até que o professor de Educação Física veio em socorro do menino.
Deu um suspiro. Olhou pela janela embaçada do ônibus para ver se já estava perto do seu ponto de descida. Qual nada faltava muito para chegar. Nesse momento, o homem que estava sentado no banco do corredor dos passageiros, deu uma leve pancadinha no seu braço e disse:
- Dona, dá pra senhora largar o meu ferro que eu vou descer nesse ponto?
Ela tomou um susto. Ficou vermelha. Pediu desculpas por ter, a viagem toda, segurado o ferro (pensando que era o do ônibus) que o passageiro trazia preso entre as duas pernas para que não ferisse ninguém.
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 28/04/2005
Código do texto: T13644

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão