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A HERANÇA

Noventa e dois anos. Essa era a idade de vovó Alzira, uma portuguesa afeita ao trabalho e muito econômica.
Chegara ao Brasil ainda menina e logo se adaptara a nova vida na terra estranha.
Vovó Alzira casara-se e tivera seis filhos; três homens e três mulheres. Passou pela Primeira Guerra Mundial e pela Segunda. O filho mais velho foi lutar pelo Brasil, lá na Itália, isso a deixou triste, porém não esmoreceu. Trabalhava como moura para ajudar o marido. Finda a guerra, eis que o filho volta, são e salvo. Ela agradecia a Deus a graça de ter o seu menino em casa novamente.
Com o dinheiro da criação de porcos e da plantação de legumes, ela foi comprando casas. Tinha um patrimônio de uns dez ou quinze chalés espalhados pelo morro.
Casou os filhos. Perdeu o companheiro de tantos anos depois de uma fortíssima gripe.
Os filhos se espalharam pelo Brasil; São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Morava com uma das filhas que optara por Santos. Casada, muito parecida com a mãe, Zildinha cuidava dela com carinho. Os outros filhos só apareciam para casamento, batizado ou morte de alguém.
Vovó Alzira tinha um baú que trouxera da Ilha da Madeira. Ali guardava suas riquezas; dinheiro, lençóis e toalhas de mesa de puro linho português, bordados à mão, uma verdadeira obra de arte.
Neste baú, havia uma caixa preta, entalhada a canivete, presente de seu pai, que vovó Alzira não deixava ninguém mexer. A filha pensava que era mania de velho, - deixem pra lá... – disse ela aos irmãos numa rápida visita que eles fizeram a Santos.
Um dia vovó Alzira passou mal. Já estava bem velhinha. A filha a levou para o hospital. Ficou internada. A filha então aproveitou para dar uma espiada no baú e por conseqüência na caixa preta. Os olhos arregalaram-se.
- Nossa! Quanto ouro tem a minha mãe!!
Havia uma grande quantidade de libras esterlinas de ouro (dinheiro inglês). Tinha moedas de 1810 até 1920 que o seu pai enviava por amigos que vinha lá da Ilha da Madeira. Foi a forma que ele encontrou de ajudá-la. Vovó Alzira nunca se desfez de nenhuma das moedas. Era o patrimônio que deixaria para os filhos.
Vovó Alzira saiu do hospital, mas não se recuperou totalmente. Um belo dia ela deitou e não levantou mais. Foi uma correria. Avisar os irmãos, os demais parentes espalhados por aí. Em pouco tempo todos sabiam da triste notícia.
Em tempos passados, era costume, quando morria alguém, fazia-se o velório na casa do morto.
A filha providenciou tudo. A mesa, o esquife, as velas, flores e o véu para cobrir o cadáver por causa das moscas.
Os filhos foram chegando. Cada um com uma expressão diferente de tristeza. A sala estava cheia de gente. Amigos da morta e da filha.
Ninguém reparou que os filhos desapareceram da sala. Neste momento ouviu-se um burburinho, um falatório que aos poucos foi se tornando tremenda discussão. Os filhos, mesmo sem enterrarem a mãe, estavam disputando a tapas o conteúdo do baú e as escrituras dos quinze chalés que a defunta deixara. Saíram do quarto, onde a morta vivera, arrastando lençóis, escrituras das casas, toalhas, dinheiro e as moedas inglesas e as jóias. Vieram se espancar na sala onde estava o cadáver o que resultou na queda das velas acesas em cima da morta, pegando fogo no véu e, conseqüentemente, na roupa e nos cabelos da defunta. As pessoas presentes chamaram a polícia. Enquanto esta não chegava, jogaram água no cadáver para apagar o fogo. A gritaria era geral.
Quando a polícia chegou, todos falavam ao mesmo tempo, cada um querendo mostrar a sua razão e os seus direitos. A morta, alheia a tudo, estava encharcada de água, sem cabelos e cheia de fuligem.  O cheiro de carne queimada pairava no ar.
O delegado confiscou o baú, para desespero dos filhos e disse:
- Só um advogado dividirá os bens da morta. Caso alguém insista em retirar alguma coisa desse baú, será enquadrado na lei de furtos e roubos e passará um bom tempo atrás das grades...
Depois da fala do Delegado, os ânimos serenaram e o corpo de vovó Alzira pôde ser levado em paz para o cemitério.

Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 28/04/2005
Código do texto: T13647

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão