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Minha Doce Gumercinda

Tenho uma empregada de nome Gumercinda. Ela é excelente na cozinha, trabalhadeira e dedicada.Sua idade, ela não conta, mas deve rondar lá pelos 48 a 50 anos.

Tem filhos e filhas, um bolão deles, mas todos já encaminhados.É viúva e mora com dois filhos solteiros.

Mora numa casa bem rudimentar, na periferia da cidade. Leva meia-hora de trem, todos os dias. Diz ela que levanta às 3 horas da manhã. Nunca perguntei porquê. Mas um motivo forte devia haver.

UJm dia acabei descobrindo: limpar a casa, depois dos "trabalhos" feitos durante à noite.

Ganhava bem, descobrindo e resolvendo problemas dos outros, advinhando o futuro ou trazendo gente morta para falar com os vivos. Uma parada,essa Gumercinda!

Trabalha de segunda à sábado,folga aos domingos, e não dou muitas ordens do que quero comer. Ela já conhece meus gostos, das crianças e do meu marido, que a deixo a vontade, só compro os ingredientes.

Gumercinda tem uma mania que venho observando há muito tempo: ela carrega tudo quanto é bugingangas prá seu quartinho, que fica nos fundos de nossa casa, onde coloquei um sofá e uma pequena tevê. Ali, ela almoça avidamente vendo qualquer coisa, mas tem preferência por filmes de terror. Escreve rudimentar e lê aos solavancos.

Mas ela tem uma hábito comum: guarda todas as bugingangas que vem da padaria ou do supermercado.

São caixas velhas, copos plásticos de mate, caixa de fósforos vazia, folhinhas,acho desde 1950, pacotes de ração de cachorro, caixas velhas dos mais varidos tipos: de sapatos, das que chegam do supermercado, papel laminado usado, papel de plástico que vem do açougue com carne, ou da padaria, com presunto ou queijo.

Jogar panela velha na lixeira é um perigo: ela corre prá apanhar. Latas de óleo e caixinhas de iorgute são também suas preferidas.

Fica contente quando vamos às compras - dia preferido dela: como sobra caixas de papelão, sacos plásticos e papel!

Jornal lido ela tem aos montões. Aliás é a primeira coisa que faz quando chega em casa pela manhã: recolher os jornais que ficam espalhados na sala e amontoar no quartinho. Revistas, pior ainda.Ela tem aos montões. Toda resvista passada e lida, colocada na lixeira é prato feito prá Gumercinda.

Roupas usadas é atração. Ela pede alguma roupa que a gente não usa mais mais e atulha no quarto. Eu pergunto se ela não vai levar tudo de uma vez. Ela, com plena sabedoria, diz que não. Se levar tudo, a criançada da vizinha ou os parentes avançam em tudo ou roubam.

Por isso ela vai levando de acordo com as necessidades de frio e calor. Depois de usados, ela tráz para nossa casa para lavar, ser guardada e, na estação adequeda, ela torna a levar as roupas.

Ela amontoa também rolos de papelão de papel higiênico, frascos velhos de remédios, lâmpadas queimadas e qualquer tipo de fio elétrico que tenha sobrado que alguma conserto. Sobras de cartas lidas e atiradas ao lixo também são aproveitáveis.

Vejo, cada dia o quarto dela crescer de bugingangas. Quase vai ao teto de tanta coisa. A tevê quase desaparece entre revistas e jornais.

Um dia, tenho vontande, e não tenho coragem, de chamar um caminhão e limpar aquele quarto. Mas seria uma maldade.

Lá estão também, rasgos de roupas, linhas de todas as cores que se possa imaginar, agulhas dos mais variados tamanhos que mais parece um centro cirúrgico.

Ela fica de olho também em meus maços velhos de cigarros que jogo no lixo, cada vez que jogo um, ela vai, apanha e leva pro quarto. Frascos de detergentes vazios ela tem aos montões assim como tampas de sabão líquido ou caixas vazias de sabão em pó.

Gumercinda, enfim é cozinheira, mas no fundo, se existisse tal expressão seria uma "guardadora-mór" da casa.

No fundo nunca compreendi tal atitude e nunca a repreendi. Não sei o que se passa no mundo mágico de Gumercinda e seus trapos.

Não ouso tocá-los sob pena de ferir e angusitar alguém.

Vá, Gumercinda, essas coisas ainda vão servir prá alguma coisa. Só não pode, num descuido, incendiar minha casa pois caixas de fósforos ela tem às pencas.

Vá Gumercinda, a vida é assim mesmo. Angústia dói e fere, mas tornar alguém feliz é mais dignificante.As mãos de Deus também rondam por ali.

Mas que falo? Estou começando a guardar canetas velhas !
José Kappel
Enviado por José Kappel em 12/04/2006
Código do texto: T137749
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel