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A Entrevista

Estava lá eu na minha paz dengosa lendo "As delícias de Melissa", um livro altamente pornográfico mas que tem um sentido básico na vida do autor: tudo é sexo na vida . Como a minha fome havia passado degustei uma pedaço de uma deliciosa torta de maçã com um gole generoso e altivo de uísque.

Foi quando a história de Melissa acabou: ela foi assassinado pelo amante.Pior ainda ainda: a pobre Melissa havia sido esquartejada. Titubeei num jornal e me desanimei logo quando vi na manchete que tudo ia mal no país.

De minha casa via a montanha azulada contrastando com um céu de inverno muito forte que se rebatia com o meio sol. Fiquei imaginando se as pedras se moviam? Se tudo se move na vida, porque não as pedras? Por isso, todos os dias, durantes vários anos, vinha todas as manhãs, regularmente, fotografando com minha Cannon de 500mm, sempre pelo mesmo ângulo, aquela velha pedra.. Nada parecia se transformar.A pedra não se mexia, não se transformava. Em suas costas só vagavam vegetações as quais não dava muita importância.

Enquanto eu vivesse - dizia prá mim e pro meu Ballantine's - iria acompanhar a vida daquela pedra. Uma loucura.

Minha mulher que me abandonara há cerca de 2 anos, não dava sinal de vida nem de morta. Nem pra saber como eu passava. Era uma boa mulher. Mas era incontestável que nosso gênio sexual não batia entre os lençóis.

Foi quando a campanhia tocou. Era um jornalista que havia marcado hora. Ele queria saber, numa enquete de mal gosto, como viviam e pensavam os moradores daquela vila. Nos apresentamos e ele se achegou logo ao meu uísque. Sentamos no varandão e ele puxou logo um caderninho de notas, um gravador portátil, um lápis, uma caneta. Tava esperando a hora em que ele ia puxar uma revista da Playboy. De sorriso largo, baixinho, trilhando o caminho da calvice, mas ainda tinha entulhos de cabelos espalhados pelo rosto de barba mal-aparada.

Ele olhou prá mim, com um olhar angustioso e disse, podemos começar? Eu retruquei que sim , solavancando mais um gole daquele bom uísque.

- Seju nome?
- Augusto Pacífico da Silva.
- Profissão.
- Ex-funcionário público.
- Signo: Não tenho.
- Altura: 1,55
- Olhos: Dois. Sendo, por uma questão natural, de cores idênticas.
- Costuma fazer sexo?
- Costumo.
- Com que frequência.
- Frequência normal.
- Por exemplo...
- Depende de quantas vezes a arrumadeira vem limpar a casa.
- Quantas vezes ela vem?
- Diariamente. Às vezes duas vezes por dia, pois a casa suja muito.
- Mudemos de assunto - refutou o repórter, saboreando mais um pouco de uísque.Perguntei: tá gostando do uísque. E ele:
- Bom muito bom, delicioso, tem gosto de uva.
Pela minha vivência deduzi que o repórter começava a ficar bêbado. Já estava achando que o uísque era vinho.
- Cor: Preta.
- Porquê?
- Não suja.
- Comida preferida:
- Arroz e feijão acompanhado de um litro de aguardente do armazém de seu Zé.
- Porque aguardente.?
- Você queria que eu tomasse álcool puro?
- Tá bom...tá bom, disse ele.
- Perfume:
- Da arrumadeira.
- Bebida preferida?
- Rabo de Galo que a venda se seu Antônio vende. Uma delícia! Aquilo com torresmo e linguiça é uma gostosura.
- Sabonete?
- O que está no banheiro.
- Se você pudesse ser outra pessoa, quem queria ser?
- Juiz de futebol.
- Roupa preferida.
- Camisa, calça,cueca, meias e chinelos. Mas quando estou sozinho em casa, e é quase sempre, ando nu.
- Qual sua maior qualidade?
- Não ter nenhuma.
- Seu maior sonho?
- Ser garçon.
- Porquê?
- Comeria e beberia de graça todos os dias.
- Seu maior defeito.
- Ter vontade de dormir o dia inteiro.
- Uma mania.
- Ajudar minha arrumadeira nos afazeres dela.
- Sua maior qualidade?
- Diferenciar as coisas grandes das pequenas.
- Um defeito que não tolera nos outros.
- Aquele que é bonito demais.
- Porquê?
- Por que não deixa uma prá gente.
- Sua maior aventura.
- Conquistar a namorada de meu melhor amigo.
- E no que deu?
- A namorada me largou.
- Programa de televisão preferido.
- Angélica e Eliane.
- O que você olha primeiro numa pessoa.
- Se é homem ou mulher.
- Gosta do frio ou do calor?
- Depende de quem está do meu lado fazendo carinho.
- Já teve alguma doença?
- Todas.Menos uma.
- Qual?
- Impotência.
- Quantas namoradas você teve.
- Uma.
- Uma?
- A cada dia eu trocava de mulher.
- Qual a qualidade que você mais admira?
- A falsidade dos outros.
- Sua maior alegria?
- No dia que eu vesti calça comprida.
- Sua maior loucura.
-Ter me casado com a mesma mulher que antes era apenas namorada.
- Possui computador?
- Possuo. Mas não funciona de jeito nenhum.Penso em transformá-lo numa TV!
- Possui TV a cabo ou coisa parecida?
- Não. Só tenho um ferro de passar as minhas roupas.
- Lê jornal?
- Leio só a primeira página de todos os jornais.
- Todos?
- Todos! Na banca de jornal.
- De que tem mais saudade?
- Do meu bisavô.
- O que ele fazia?
- Nada, absolutamente nada. Nem o conheci, mas era gente boa.
- Se você fosse mulher qual a primeira coisa que faria?
- Tentava me transformar num homem.
- Do que você ri com mais facilidade?
- Dos palhaços do circo.
- Um homem grandioso na história?
- Kaiser.
- Quem?
- Kaiser. Serve qualquer um Kaiser.Primeiro, Segundo, qualquer um. Aquele que inventou a cerveja.
- O que você prefere fazer à noite?
- Dormir.
- Música?
- A banda do Zequinha, lá da vila, que toca todo domingo.
- Memória política?
- Aquele fatídico dia de 1964, quando passava pela avenida Rio Branco, indo comprar revistinha de mulher nua, quando a PM e o Exército cercaram tudo.
-O que você fez?
- Entrei no primeiro cinema, sai pela porta de trás, passei numa loja de roupas e me vesti de mulher grávida e sai tranquilo pela avenida. Um PM até me ajudou a atravessar a rua.
- Um músico.
- Brahma.
- Um filme.
- Hércules e os Gladiadores.
- Quantas vezes você foi convidado a concorrer na Academia de Letras?
-Nenhuma. Eles nem conhecem.
- E sua obra?
- Totalmente pornográfica e os homens da Academia, como já passaram da fase, tem medo que eu faça alguma besteira.
- Quantos livros já vendeu?
- Milhares.
- Qual que você considera o melhor?
- A História de Antônia.
-O que tem nele de diferente?
- Eu conto a vida sexual de minha ex-mulher. Ela comprou toda a edição e jurou me matar !
- Um homem...
- Caminha.Foi ele que mostrou o Brasil para o Cabral.
- Nome de mulher:
- Janete. (Minha arrumadeira)
- Uma frase:
- Deus por mim e salve-se quem puder.

Neste momento a entrevista acabava. Ele se mostrava cansado de tanto escrever, apesar de ter o gravador ao lado. Me agradeceu pelo tempo perdido comigo - eu disse que era o que mais tinha. Bebericou a última dose de meu uísque. Colocou todos os apetrechos no bolso e disse que teria de cortar alguma coisa da entrevista porque o espaço não era muito grande. Eu disse que estava bem e nos despedimos. Levei o homem até a porta e ele se virou pra mim e disse: posso fazer uma última pergunta?

Eu disse, lógico, faça.
- Você vive de que?
- Simples: de duas coisas : de minha aposentadoria de R$ 151 e de dar entrevistas. Mando a fatura amanhã pro jornal!
José Kappel
Enviado por José Kappel em 12/04/2006
Código do texto: T137762
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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