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LUZ

Há horas estava deitada naquela triste cama de hospital em frente a uma imagem de Jesus crucificado, daquelas esculpidas em madeira. As paredes exibiam manchas deixadas pelo tempo e pelos ocupantes anteriores da enfermaria. Contemplando-as, se perguntava quantos dramas aquelas paredes azuis já não teriam presenciado ao longo do tempo. Lágrimas, gritos, dores e até mesmo a morte. Fechou os olhos, suspirando fundo, lutando para desvencilhar-se dos pensamentos sombrios. Sentia um misto de sensações desencontradas. O coração estava apertado de medo, angústia. E ao mesmo tempo, euforia, excitação, ansiedade, tanto que mesmo cansada como estava não conseguia se entregar à sonolência que a invadia. Queria levantar-se, ir embora dali, odiava hospitais. Aquela atmosfera fria, asséptica, cheirando a remédios, onde tanta gente sofria todos os dias, a apavorava. Outras pessoas com o semblante sofrido lá se encontravam também, cada um com sua dor, não havia privacidade nenhuma. Olhou em volta e os olhos detiveram-se na figura abatida de Dona Lurdes, observando-a atenta duma cadeira dura. A mãe estava a seu lado desde que as dores principiaram, devia estar tão exaurida quanto ela mesma. As dores. Como se tivessem ouvido-a pensar nelas vieram fortes outra vez, rasgando-a ao meio feito lâminas incandescentes. Estavam se intensificando nos últimos minutos, e ela gritou desesperada. Não agüentava mais. O médico viera há muito tempo e a deixara lá, esperando e se contorcendo. Volta e meia aparecia alguma enfermeira desinteressada para checar o seu estado e ninguém fazia nada. Droga de vida, além de todas as privações ainda tinha que passar por aquele pouco caso. Nem conseguia se animar ante a perspectiva de colocar mais um pobre coitado naquele mundo, que nunca dava nenhuma alegria. Interrompendo estes pensamentos, as dores vieram de novo, piores que nunca, arrancando um brado que ecoou por toda a enfermaria. Houve um tumulto em seguida, duas enfermeiras acorreram com urgência, o médico estava gritando junto da cama sem que ela tivesse visto de onde tinha surgido. A dor era absurda, parecia que ia morrer. Eles gritavam com ela, diziam pra fazer força. Não se sentia capaz, a cada pontada sentia-se desfalecer. Reuniu o que ainda tinha de energia, contraiu o corpo todo e urrou ainda uma última vez. E então tudo acabou. Ouviu um choro infantil, mas mal conseguia abrir os olhos. Quando o fez, a enfermeira não mais desinteressada sorria, aproximando dela uma coisinha pequena, arroxeada, olhando-a com os pequenos olhinhos pretos arregalados, como se lutasse para divisar-lhe as feições. Era mãe. Sentiu nos braços o calor do pequeno corpo e chorou em silêncio, as lágrimas abundantes lavando-lhe o rosto suado, enquanto contemplava os olhinhos do filho. A luz contida neles era tanta e tão intensa, que fazia tudo parecer menor. Todo o sofrimento, toda dor, toda tristeza. E sentiu crescer no peito um amor tamanho que doía, uma felicidade que não parecia ter limites. A luz inundava o mundo todo, era como se tudo começasse novamente. E começava! Soluçou, apertando o bebê contra o peito. “Obrigada, meu Deus”.

Livia Santana
Enviado por Livia Santana em 15/04/2006
Código do texto: T139700
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Sobre a autora
Livia Santana
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 33 anos
5 textos (201 leituras)
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Livia Santana