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OBSESSÃO: A Verdade Sobre Meu Pai - CAP. V

Capítulo V – A grande descoberta

Fernanda chegou por volta das oito horas da noite. Cansada e triste com as atitudes do marido, entrava num estado depressivo. Incerta sobre fidelidade de Jean, sentia-se mutilada por dentro. Jamais amara outro homem, por isso tinha por Jean um zelo absurdo; qualquer que fosse a ameaça, ela estaria lá, destemida e pronta ao combate. Não o perderia facilmente.  Em nenhuma hipótese o deixaria para outra mulher, fosse ela quem fosse. Porém, ultimamente não conseguia entender o que estava acontecendo. Sua cabeça sucumbia ao pensamento mais comum na vida de um casal: a possibilidade da traição.
O relógio soara novamente, era a quarta vez desde que chegara da casa dos pais e até aquele momento Jean não dera notícias. Impaciente, desistira há muito tempo de ligar para o celular do marido, sempre desligado, aumentando ainda mais suas desconfianças recentes.
Relutou durante algum tempo em ligar para Elizabete, não querendo perturbá-la com seus problemas, mas a paciência chegou ao fim. Fernanda, decidida e irredutível, ligou para a sogra. O telefone chamou até a linha cair. Resolveu tentar novamente e, pouco depois do segundo toque, uma voz sonolenta chegou aos seus ouvidos.
— Pronto!
— Quem fala? — perguntou, aflita.
— É Jurema. Deseja...
— Jurema, é Fernanda. Jean está aí? — Perguntou ávida pela resposta.
— Não sei, menina. Eu já estava dormindo e dona Elizabete está deitada faz tempo, com a mesma dor de cabeça de todos os dias. Se ela acordou com o telefone, quem vai ouvir depois sou eu. — disse ela, sem demonstrar simpatia.
— Me desculpe, Jurema, mas Jean não voltou para casa ainda. Ele disse que iria ver a mãe, por isso pensei que ainda estivesse aí — justificou-se.
— Ele estava, mas não está mais.
— Tem certeza! Quando ele saiu? — quis saber.
— Está tudo apagado aqui. Se puder esperar um pouco, posso verificar, mas tenho certeza de que ele já foi. — falou nitidamente contrariada. Sabia que Jean ainda estava no escritório, mas não podia chamá-lo.
— Tudo bem, eu espero.
Fernanda aguardava impaciente a volta de Jurema. Torcia para que a empregada dissesse que ele ainda estava lá. Ficaria furiosa por não ter sido avisada, mas pelo menos saberia o que aconteceu. A empregada demorava uma eternidade, enquanto isso Fernanda ia à loucura. Enrolava o fio do fone em seus magros dedos, puxava-o, retorcia-o e nenhuma resposta. Até que do outro lado da linha a voz mal-humorada, disse:
— Jean não está. Eu avisei.
— Como não está? — perguntou, não acreditando — Ele disse que iria visitar Elizabere!
— Ele veio, mas não está mais aqui. Já olhei em todos os quartos e até mesmo no quintal. Jean não está.
— Tudo bem, Jurema. — Falou num tom frustrado, misturando raiva e decepção. — Desculpe ter ligado essa hora, mas eu estou preocupada.
— Ele já deve estar chegando — disse impaciente, olhando o relógio — fique calma, não adianta ficar nervosa. Notícia ruim é a primeira a chegar. Se ela não chegou até agora, não chega mais.
— Sei! — disse, conformando-se.
— Olha, Fernanda, não me leve a mal, mas estou com muito sono. — disse, sem deixar dúvidas de que estava incomodada.
— Boa noite, então. — Respondeu, deixando a cabeça cair por sobre uma das almofadas da sala. Seu olhar era triste e sua mente venenosa — Aquele patife me paga.
Jurema ouviu as últimas palavras de Fernanda e pensou no que Jean estava fazendo, remexendo em coisas que deveriam permanecer enterradas.
                           ***
Ainda paralisado pelo susto, Jean estava mudo. Jurema passara pela biblioteca não fazia muito, chamando-o diversas vezes num tom quase inaudível, mas ele não a respondeu. Não querendo arriscar seu segredo, achou melhor fingir ter partido. Com medo de ser considerado louco, não poderia explicar a ela a aparição que o assombrou. O suor banhava-lhe o corpo e sua respiração estava ofegante. Nunca tivera experiências com o sobrenatural, também, nunca se interessara por assuntos místicos. Na verdade, era um cético; duvidava de tudo o que não fosse comprovado pela ciência ou por uma razão muito forte. Não conseguia acreditar no que vira. Provavelmente era uma armadilha de sua imaginação, concluiu, tentando acalmar-se do susto.
Não se demorou mais. Esperou pelo silêncio e a escuridão da casa para que pudesse partir. Dez minutos passados do apagar da última lâmpada, abriu cautelosamente a porta e saiu furtivamente. Não conseguia ver muito, a escuridão era plena. Com muito cuidado, foi esgueirando-se pelo corredor até chegar à porta da sala. Silenciosamente a abriu e caminhou apressado para o carro. Trazia consigo o envelope furtado. Ninguém dará falta dele. Talvez, nem saibam que ele existe; pensou.
Era tarde e novamente encontraria problemas ao chegar a sua casa. Fernanda não entenderia tão facilmente, como da primeira vez, sua demora sem saber a verdade. Mesmo nervoso e angustiado, tinha consciência dos seus atos. Ela precisa entender. Não poderia deixar que a emoção guiasse seu destino, a razão deveria permanecer em sua vida como o sangue em seu corpo. Minutos depois, estacionava o carro na garagem de sua casa.
Quando entrou pelo jardim, desejava encontrar uma justificativa convincente para dar à esposa, mas pensava em tantas coisas diferentes que não conseguia formular uma boa história. O envelope em suas mãos ganhava a preferência, roubando todas as atenções e aos poucos toda a sua vida.
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 16/04/2006
Código do texto: T139891

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
201 textos (24138 leituras)
15 áudios (1092 audições)
6 e-livros (1207 leituras)
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