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Onde caíram os meus botões?



Cinqüenta e três anos de escritura. Foi o primeiro imóvel adquirido pela família quando Copacabana ainda era um bairro afastado e poético. O prédio resistiu aos anos e às mudanças de geografia. Os primeiros moradores envelheceram e a vida seguiu o curso com os filhos e netos, alguns novos inquilinos e muitos desconhecidos.
O apartamento 401 era um retrato do tempo. Nas primeiras duas décadas, a família abria as portas para reuniões de jovens, jantares, festas; nos anos 70, as portas ficaram entreabertas com o luto pelo patriarca e a vida dos filhos que encontraram novos abrigos; com o tempo, as portas foram cerradas com as tantas trancas e segredos. O “olho mágico” se transformou no contato rotineiro com a realidade de medo e violência.
Restaram Dona Iolanda e suas lembranças.
Um dia a senhora abriu as torneiras do apartamento e todas estavam secas. Falta d’água? Ligou para portaria e foi informada que o abastecimento estava normal. Tentou novamente. Nada. Não havia uma gota no apartamento.
Sede. A senhora sentia o ressecamento dos anos. As torneiras vazias...
Bombeiros. Depois de alguns momentos de exclamação, o diagnóstico: toda a tubulação do apartamento estava comprometida, os canos estavam entupidos com os anos. A senhora ainda tentou amenizar: “Todos os canos? Como? Nunca aconteceu...”
Os bombeiros foram categóricos: o caso era gravíssimo. Só uma reforma geral com a troca de todo o sistema hidráulico poderia dar uma sobrevida ao apartamento e a assepsia necessária para não contagiar com infiltrações as residências vizinhas.
A senhora tentou resistir. Rezou, dormiu, pensou que poderia procurar outros profissionais, mas no dia seguinte as torneiras estavam ainda mais secas. Sem saída e completamente sem água, chamou os dois filhos que logo assumiram o problema. Hospedaram a mãe e contrataram os empreiteiros de confiança. Dona Iolanda não se conformava. O apartamento, apesar da idade avançada, estava bem conservado. Lembrou das veias entupidas que silenciaram o marido.
Por que tão de repente?
A senhora embalou cautelosamente as lembranças mais importantes e conseguiu levar a adolescência dos filhos, as macarronadas de domingo, os primeiros passos dos netos, junto com o terço, as contas e o cartão do banco para sacar sua aposentadoria.
Dois meses. A senhora alternou a estadia na casa dos filhos, foi adulada pelos netos, recompensada pelos familiares, mas sentia-se exilada de sua vida. Não conseguia se reconhecer nas sombras, a visão cansada e já comprometida pela catarata dificultava a adaptação aos novos ambientes. Queria assenhorear-se de suas pequenas manias.
Os filhos assumiram a reforma. Redesenharam o banheiro e a cozinha. Retiraram a velha banheira branca, trocaram o espelho, a iluminação, os armários, as torneiras, lavaram todas as roupas, luziram a prataria, substituíram os pratos rachados... Os azulejos foram pintados com tons claros. Aproveitaram para reformar a sala e os quartos com conceitos modernos.
A senhora permaneceu ausente. Os filhos sabiam de sua dificuldade para lidar com mudanças, ela sabia que não tinha forças para acompanhar as reformas. Não tinha estruturas para presenciar a retirada dos pregos das paredes, dos azulejos rachados, das pequenas marcas no chão de sua história.
A senhora retornou ao lar e encontrou um apartamento cheio de cores e luzes. Estava lindo, completamente reformado. Até os sofás ostentavam novas estampas. Ela atravessou a porta com cerimônia. Perdia-se entre as sensações de estranhamento e de contentamento.
Andou por todos os cômodos. O novo banheiro, a cozinha arrojada, o brilho renovado no chão de sinteco, a tonalidade alegre das paredes... Abriu a torneira e sentiu a umidade lhe desenhar a emoção do primeiro café feito há cinqüenta e três anos.
Os familiares e vizinhos fizeram uma pequena comemoração e se dispersaram. A senhora permaneceu sentada. Procurou algumas lembranças que não sobreviveram às tantas mudanças, tentou reencontrar sua rotina nas sombras, nos novos cantos... Os conceitos modernos eram inadequados às arquiteturas que alicerçavam seu pequeno mundo.
Na dispensa encontrou sua caixa de costuras. Há muito não conseguia enfiar uma linha na agulha, mas guardava os retalhos de alguns feitos. Entre os bordados coloridos, encontrou três botões. O pequeno azulado era da camisinha de pagão do primeiro filho. Lembrou do tempo em que alinhavou nas entranhas a continuidade e sentiu os olhos molhados com a emoção do nascimento. O botão preto era do casaco usado pelo marido na viagem de lua-de-mel. Recordou da forma como ele caiu na fonte do parque das águas em Caxambu, ela reviveu a face rubra do desejo em contraste com serenidade de sua viuvez. O branco era... Tentou se lembrar, costurar as tantas vivências, mas perdera o fio. O branco era do esquecimento.
Dona Iolanda abriu as novas torneiras...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 01/05/2005
Código do texto: T14101
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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