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Paixão Secreta

     Acordou sentindo em seu coração um presságio de que o mundo a acolheria diferente. Desceu as escadas, arrumada para a escola, e deparou-se com um belo arranjo de flores na mesa da cozinha. Seu sorriso adolescente transformou-se em um sorriso de mulher.
     — Parece que os rapazes começaram a notar sua beleza, héin, Alice? — comentou sua mãe, suspirante, enquanto servia o desjejum.
     Alice era mesmo muito bonita. Seus olhos azuis, as sardas na altura do nariz arrebitado, e sua boca rosada atraíam muitos admiradores, embora nenhum deles fizesse questão de se mostrar secreto. Retirando o papel que se prendia ao ramalhete, podia-se ler: “Ao meu amor escondido, de quem o quer todos os dias, um alguém”.
     — Que lindo! Um admirador secreto! — a mãe suspirou novamente.
     Seu irmão Sérgio chegou até a cozinha e franziu a testa:
     — Oras, homem que é homem se declara na cara. Esse lance de flores é coisa de frutinha...! — desdenhava enquanto mastigava a torrada apressadamente.
     Na escola, Alice procurou desviar os pensamentos da dedicatória e imaginava o que pensariam a respeito disso o seu núcleo de chegados: Joana, sua melhor amiga e conselheira nas horas vagas; Bel, se havia alguém informada de tudo era ela; Deco, o garoto mais bonito da escola; Felipe, amigo de todos, adorava tocar violão; e, é claro, Sérgio, que também aprontava todas com a galera.
     O que pensariam? O que Alice deveria pensar? A coisa mais complexa de sua vida até hoje tinham sido as equações algébricas, mas agora algo novo surgira. Algo que não havia surgido para nenhum de seus amigos da escola. Algo que nem mesmo podia ser ensinado na escola. Era uma mistura de frio na barriga e calor no peito. Sensação estranha essa. Talvez ficasse mais tranquila se soubesse quem era esse amor escondido.
     No recreio, o papo não podia ser outro:
     — Bel, eu acho que alguém está apaixonado por mim! Ele deve ser romântico. E tímido. Mandou-me flores e um bilhete na minha casa — contava Alice.
     — Ah, amiga, diante do amor verdadeiro todos os homens são tímidos. Conseguem mexer com garotas quando estão em grupo, mas sozinhos são todos uns frouxos. Gostam, mas não sabem amar, só querem beijos e carinhos. A gente nunca ouve nada sério deles.
Joana resolveu sugerir:
     — Frouxos ou não, tem um gato gamado na Alice. E eu acho que é o Ricardo, um que senta no fundo da sala, não fala com quase ninguém, e olha toda hora pra a Alice.
     — Pois eu acho que foi o Felipe — tentou Bel —, ele não vive perguntando se você não gostaria de umas aulas de violão na sua casa? Pois tenho certeza de que é só pra passar mais tempo com você. Já sei! Que tal marcarmos um cineminha pra sexta-feira? Um filme no escurinho pode revelar muito sobre um homem...! — arrematou Bel, sentindo-se a conselheira amorosa.
     O recreio foi passando entre risos e palpites, até que combinaram com os meninos sobre o cinema. Todos confirmaram ir, sem saber que Alice queria mesmo era resolver o mistério. Quando a turma passeava no shopping chamava a atenção de qualquer um ao seu redor, e era uma algazarra como cachorros se engalfinhando na rua. Sérgio era o contador oficial de piadas, sempre sabia de alguma nova, e de tanto ser considerado jovial, por mais sem-graça que fossem algumas anedotas, sempre se ria. Felipe era um tipo de escudeiro de Sérgio, estavam sempre juntos nos deboches e nas bagunças, diferente do Deco, que não precisava mesmo falar muito para chamar a atenção, era um rapaz na sua, descolado, com estilo, um pretendente perfeito, pensava Alice. Bel falava alto como de costume, rindo de tudo e apontando para qualquer outro adolescente que estivesse fora de moda e que andasse de mãos dadas com a mãe. Joana era a comentarista das opiniões de Bel. Já Alice, desta vez, estava quieta demais. Estava era apreensiva e nervosa, imaginando se teria sido o Felipe ou o Deco seu amante oculto, ou se era outro, que não estivesse com eles.
     Antes de assistir ao filme, Alice fez que precisasse ir ao banheiro, e aproveitou para sussurrar para o irmão:
     — Serginho, vê se descobre com eles quem mandou as flores, tá?
     — Irmã, você tá carente, héin?
     — Não é nada disso, idiota, é que você não saca nada de amor. E deve estar é com inveja...! — e saiu altiva com as amigas.
Durante o filme, não se imaginava quem teve a brilhante ideia de sentarem meninas de um lado e meninos do outro, e eles ainda ficaram urrando o tempo todo. Nada rolou. Depois foram comer hambúrgueres numa lanchonete, e foi aquela sessão de assuntos aleatórios de adolescentes:
     — Uma vez, uma prima minha foi fazer a brincadeira do copo e o copo revelou que ela morreria atropelada. No dia seguinte ela saiu para a rua e morreu mesmo. Por isso nunca mais participei da brincadeira do copo — contou Deco.
     — É. No filme “O Exorcista” tudo começou assim — comentou Felipe.
     — Sabiam que a atriz ficou possuída de verdade, nas filmagens? — disse Joana.
     — Eu não acredito nessas coisas de diabo, mas tenho um medo de macumba! Conhecia um vizinho que não tinha medo. Ele comia as pipocas de macumba — revelou Sérgio, em meio aos risos da turma.
     — Eu também tinha um vizinho que não tinha medo de nada, e ele era meio engraçado, e era a cara daquele ator que atuou no filme “Os Caça-Fantasmas”, o James Belushi — completou Bel.
     — Ai, que ele não fez esse filme! Você está confundindo ele com o Bill Murray! — corrigiu Felipe.
     — Gente, chega de falar de fantasmas, vamos falar de... — cortou Joana.
     — Amor! — gritou Bel, olhando para Alice, que ficara sem-graça. Alice corava muito facilmente, ainda mais sob a pressão de saber por quem estava sentindo calafrios na barriga.
     — Seria tão bom se as pessoas do mundo sempre se entendessem como os picles do Mc Donald´s, que sempre acham quem os queira quando outro o rejeita — suspirou Joana, comendo os picles que Felipe deixara em cima de um guardanapo de papel.
     — Vocês já provaram comer feijão misturado com Neston? — sugeriu Deco.
     — O Felipe deve ter experimentado. Ele é o tipo que assiste a filmes cult bebendo Fanta Uva! — despontou Sérgio.
     — Só sei que eu não faço mais a brincadeira do copo...! — continuou Deco.
     Alice estava entediada de todo aquele papo-furado quando olhou para o chão e notou um papelzinho jogado perto de sua cadeira. Olhou para o seu irmão, que estava sentado ao seu lado, para ver se ele tinha percebido. Como Sérgio prestava mais atenção no debate sobre ficção e realidade, Alice pegou o papel discretamente e o abriu em seu colo. Seu coração palpitou ao ler: “Continuo a te amar, não se esqueça. Beijos, de quem quer ser seu amor”.
     Rapidamente Alice olhou ao seu redor tentando verificar se havia alguém olhando para ela. Mas de qualquer forma, era óbvio: seu amor secreto estava naquela mesa. Enfim, a ida ao shopping tinha valido a pena. Alice guardou o bilhete e esperou chegar em casa para comentar a novidade com sua melhor amiga. Joana não podia apenas trocar mensagens com Alice. Elas tinham que se ver e tramar um plano. Joana sugeriu:
     — Que tal fazer o seguinte? Você manda flores para o Deco e flores para o Felipe, dizendo que quer falar sobre o romance. Um deles não vai entender nada, só que aí a gente explica pra ele depois, mas o outro, o verdadeiro, vai ligar pra cá na hora ou falar com você o mais cedo possível! Não é genial?
Depois de muito deliberarem, acabaram concordando que essa era uma ideia bem louca, mas que iam tentar mesmo assim. As duas amigas foram até a floricultura da praça e mandaram entregar uma rosa para cada um antes do fim da tarde.
     — Agora é só esperar o resultado. Vê se me liga, tá? E boa sorte, amiga! — despediu-se Joana.
À noite, o telefone tocou. Alice teve receio de atender, e esperou seu irmão correr até o aparelho:
     — Alô? Oi, amigo! Como? Mandaram o quê? Sei lá, nem imagino quem pode ter sido. Tá, se eu descobrir eu te falo... Hum, quer falar com a Alice? Tá bom. Alice, é pra você! — grita Sérgio.
     — Quem é? — perguntou ansiosa, já descendo as escadas.
     — É o Felipe.
     Seu rosto branco cheio de sardas corou novamente. Ela atendeu ao telefone, tentando não gaguejar:
     — Felipe? Oi, é a Alice. E aí, como você está?
     — Meio confuso, e cheio de coisas engasgadas para falar, faz algum tempo — respondeu. — Bem, e liguei também para saber se você está a fim de umas aulas de violão, sabe... aí na sua casa mesmo, um dia desses...!
     O coração de Alice acelerava a cada palavra. Joana estava certa, ele se entregaria. Não era Deco, como imaginava, mas Felipe também era um cara legal. Nunca havia sido amada antes, e sentiu dentro de si que devia se abrir com Felipe. Mas com cautela, o coração é a parte mais delicada e preciosa de uma mulher. Marcou de passar na casa de Felipe no domingo à tarde, para conversarem. E sonhara àquela noite que namorava o rapaz.
     No dia seguinte, na hora combinada, Alice chegou à casa do amigo. Ele abriu a porta e ficaram jogando conversa fora, na sala. A menina resolveu acabar com a timidez e foi direto ao assunto, serena e meiga:
     — Felipe, foi você quem mandou as flores àquele dia?
     — Sim, fui eu. É que... Estão sendo bem cuidadas?
     Os olhos de Alice pareciam brilhar. O frio se transformou em borboletas na barriga e o calor agora apertava no peito. Finalmente o amor de sua vida havia chegado, repetia mentalmente. Para aumentar sua felicidade continuou:
     — E o bilhete no shopping, foi você quem escreveu? — quis a confirmação final.
     Felipe sorriu timidamente, levantou-se, coçou a cabeça, olhou para a rua através da janela, e confirmou. Alice encheu os olhos de água, segurou nas mãos do amado e declarou:
     — Ó, Felipe, não precisava ficar assim tão tímido. Eu também estava ficando meio a fim de você. Seus olhos, suas covinhas... Não tenha vergonha. Se você queria me namorar era só pedir.
     — Sabe, Alice... É que... Como vou dizer? Nós dois juntos não vai dar certo. Desculpe, mas talvez eu tenha me precipitado.
Alice mudou totalmente sua fisionomia. Virou-se confusa para a porta e tremulamente exclamou:
     — Felipe, eu não entendo... Depois de tudo...! Você está é gostando de outra pessoa, Felipe, é isso?
Ele acenou a cabeça que sim.
     — Me diz, Felipe, me diz! Eu preciso saber quem é, senão não vou conseguir dormir em paz hoje. É a Bel? A Joana? Quem é que você tanto ama, afinal para ter enviado tantas declarações?
     Felipe engoliu seco, respirou fundo, e, enchendo-se de coragem, confessou:
     — É o Sérgio.
 
Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 18/04/2006
Reeditado em 16/01/2016
Código do texto: T141056
Classificação de conteúdo: seguro

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Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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