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A Conspiração dos Mortos

Parte 1 – A assembleia dos mortos

     Imaginem que, um dia, há muitos e muitos anos, os mortos se cansaram de seu descanso. Eles perceberam que estavam sendo esquecidos pelos vivos, perceberam que os vivos só aprendiam o verdadeiro sentido da vida quando morriam, perceberam que os vivos, com o tempo, mudavam suas tradições, seus medos, havia o que antes era proibido e se permitia, e o que era permitido e se proibia.
     Os mortos, então, se reuniram no Além com o fim de criar um plano para permanecerem influentes no mundo dos vivos. Após muita deliberação, eles chegaram a um acordo final e elaboraram uma Constituição, a ser seguida por todo e qualquer morto, e que está vigente até os dias de hoje:

     Art. 1º Nós, os mortos, reunidos em assembleia, declaramos que descansamos em um Estado Democrático. Este Estado é dividido em vivos e mortos.
     Art. 2º Sendo, pois, os mortos em maior quantidade que os vivos, cumpra-se a vontade da maioria. Logo, os mortos devem governar os vivos.
     Art. 3º Os mortos de maior influência devem permanecer no mundo dos vivos e orientá-los em seguir os preceitos dos mortos, através de assombração.
     I – Nenhum vivo deve deixar de ser assombrado pelos mortos.
     II – Um único morto pode assombrar muitos vivos, se for de sua capacidade.
     III – Um único vivo pode ser assombrado por mais de um morto, conforme a necessidade e prévio acordo entre as partes assombrantes, contanto que se cumpra o inciso I.
     IV – Os vivos não devem perceber o assombramento dos mortos que tentam governá-lo, sob pena conforme o Art. 6º.
     Art. 4º Os mortos que não seguirem esta Constituição estarão sujeitos à pena de serem esquecidos pelos vivos.
     Art. 5º Os mortos que tentarem assombrar os vivos, mas não conseguirem por motivo de força maior, também sofrerão a pena do Art. 4º.
     Art. 6º Ao vivo que descobrir os mortos que o assombram será dado o direito de exorcizar os seus mortos.
     I – Aos mortos exorcizados, leia-se o Art. 5º.
     II – Aos mortos não exorcizados, vale esta Constituição.
     III – É permitida a outros mortos a tentativa de ocupar-se do assombramento do vivo exorcizante, no lugar dos exorcizados.
     Art. 7º Os membros desta constituinte disporão de resoluções complementares a fi m de se regular o cotidiano dos mortos no mundo dos vivos.

     Parte 2 – Orestes assombrado

     Orestes era assombrado pelo fantasma da sua bisavó — que também assombrava sua mãe e, eventualmente, suas tias. Claro que Orestes não percebia, a princípio, que estava sendo assombrado.
     Sua bisavó não tolerava atrasos. Quando Orestes combinava um encontro com alguma namorada e esta se atrasava, sua bisavó aparecia e, atormentando Orestes, o fazia brigar com a amada.
     Sua bisavó tinha medo de arriscar-se. Odiava novidades. Quando Orestes foi convidado por seus sócios a participar de uma nova empresa, o fantasma paralisou-lhe as juntas, arrepiou sua espinha e segurou seus tornozelos, até que Orestes desistiu da nova empresa.
     E sua bisavó odiava crianças. Orestes casou-se e teve filhos. O fantasma o atormentava para que fosse autoritário e inflexível. “Que escangalho vocês estão fazendo aí na sala?”, vociferava Orestes às crianças.
     Assim viviam os vivos assombrados pelos mortos.

     Parte 3 – O exorcismo

     Um dia, Orestes percebeu que algo o perturbava. Reviu sua vida e notava que em muitos momentos era assombrado por um fantasma. E decidiu que iria exorcizá-lo. Orestes procurou um exorcista, e juntos, durante várias sessões de exorcismo, foram descobrindo os fantasmas que o assombravam. Alguns foram fáceis de exorcizar, já outros foram mais resistentes. Mas Orestes foi determinado: “Chega desses fantasmas escangalhando minha vida!”, era sempre assim que ele dizia quando se irritava. Enfim, Orestes lutou bravamente contra o fantasma de sua bisavó, até que finalmente o exorcizou. Orestes não sentia mais aquela antiga impaciência, aquele antigo medo, aquela antiga inflexibilidade. Aquilo era a sua bisavó, e não ele, que bravamente a exorcizou.
     Orestes estava liberto. Agora, sentia seus próprios medos, cometia seus próprios erros, e viveu uma vida que fosse dele mesmo. Tornou-se um homem renomado, um gentil marido, e um pai admirável. Amontoou grandes realizações. Tornou-se um líder prestigiado e um notório empreendedor. Mas, como todos os vivos, também envelheceu. Anunciou sua aposentadoria: “Já estou um bocado escangalhado”, como dizia. Passou seus últimos anos com seus netos e bisnetos. Até que finalmente morreu. Seus familiares, amigos e admiradores diziam que lá se ia um homem e tanto.
     Algum tempo depois, um antigo e ferrenho concorrente de Orestes solicitou uma coletiva de imprensa para anunciar uma ousada expansão de sua empresa. No dia marcado, uma multidão encheu o auditório, ansiosa pelo anúncio do novo grande líder local. O homem adentrou o palco sob aplausos, enquanto se dirigia confi ante ao púlpito. Pegou o microfone e iniciou seu discurso, mas logo se deteve, levemente constrangido – alguém se esquecera de ligar o microfone. Aumentando o constrangimento, bem na hora em que o som foi ligado, o empresário resmungava. As primeiras palavras que o auditório lotado ouviu foram: “Maldito microfone escangalhado!...”


(publicado em: "Mentes Inquietas", Andross Editora, 2013)
Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 18/04/2006
Reeditado em 14/12/2016
Código do texto: T141333
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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