Por que chora?
 
Pedro Martins queria ver a paisagem e se esquecer do resto. Para tanto, aproveitou sua folga, naquela sexta-feira, para ir à velha igrejinha, que ficava perto de sua casa, num outeiro, em frente à baía de Guanabara. Era uma bela tarde de final de outono: apesar do céu aberto, o dia não estava quente, e uma fraca e preguiçosa brisa soprava quando queria.

Lá, sentou-se na escada, debaixo de uma velha mangueira, de costas para a igreja e de frente pro mar, e divisou o horizonte, as gaivotas, um veleiro que ia longe e também uma pequena planta, que havia nascido numa rachadura do cimento e lhe roçava o pé. Ali ficou.

Depois de algum tempo, sentiu alguns pingos nos braços. Não era chuva; o sol brilhava livremente, como já se disse. Pedro continuou sentado ali e, de vez em quando, sentia gotas tocarem sua pele. Olhou para cima, procurando o que poderia ser, mas não achou mais que folhas, galhos e o céu, sem nenhuma nuvem. Quis atribuir os pingos que caiam da árvore a alguma chuva que tivesse caído nos últimos dias, mas não pôde fazê-lo, pois não chovia havia mais de uma semana. Passou a observar, portanto, a mangueira, a velha mangueira, e aí lhe surgiu a idéia de que ela chorava.

No entanto, refutou este pensamento, dizendo a si mesmo que árvores não choram, não ficam tristes, não são gente. Teria sido só um pensamento fugaz, daqueles que vem não se sabe de onde, e tão rápidos chegam, mais rápidos se vão. Mas, a cada pingo que sentia, o pensamento do choro da árvore retornava; e, depois de mais alguns pingos, Pedro desistiu de reprimi-lo, e passou a refletir sobre o porquê do choro da mangueira: chorava ela de tristeza ou alegria?

Concluiu, depois pensar um pouco, que havia de ser choro de tristeza, pois eram lágrimas persistentes, constantes. As lágrimas de felicidade, refletia Pedro, são efêmeras: não se chora durante horas quando acontece algo bom. Este choro perene é de tristeza; a mangueira estava, pois, sorumbática. Mas por quê? Quais seriam as mazelas de uma velha árvore que mora num outeiro, em frente a uma igreja?

Seria o cemitério, que ficava do lado esquerdo da árvore? - pensou Pedro. Não, não poderia ser. Em primeiro lugar, porque não jaziam árvores no cemitério; em segundo lugar, a triste árvore estava acostumada com as sepulturas, enterros e mortes, uma vez que sempre morou ali, e, como se sabe, não se chora pelo que é trivial, pelo que se vê desde sempre. As coisas corriqueiras podem até emocionar, mas isto só acontece quando nos damos conta de que, na verdade, elas não são tão ordinárias como as julgávamos.

Não era o cemitério o motivo das lágrimas. Quem mora ao lado de um cemitério toda a vida, não chora por vê-lo. Na verdade, era acostumada com os sepulcros; via-os apenas como muros caiados e não choraria por isso.

Convencido de que não era o cemitério a razão da mágoa, Pedro procurou outro motivo para o sentimento da árvore, e achou, dentro de si, que era saudade o que a árvore sentia. Será que ela sentia falta dos filhos que teriam nascido de suas sementes? Estaria triste por suas sementes terem germinado longe dela? Como o chão a sua volta era revestido de cimento, suas sementes não brotavam ali, perto dela, e isso poderia lhe causar saudades de mãe que não tem os filhos ao redor.

Não demorou muito para Pedro deixar de lado esta idéia. Pensou melhor e percebeu que as plantas deviam ser muito acostumadas a viverem longe de suas crias, pois as sementes quase sempre são levadas para longe. Quantos moleques não pegaram mangas daquela velha árvore e as levaram embora? Pedro mesmo fora um daqueles garotos, e ali foi, em muitos verões, catar mangas, comê-las e arremessar longe seus caroços. Não era saudade o que ela sentia.

Depois disso, lembrou-se de que ali onde estava sentado se realizavam casamentos; assim, passou à idéia de que a árvore chorava por causa da falta de casórios debaixo dela. Mas logo descartou a conjetura: a árvore poderia até gostar de assistir às núpcias, da gente animada perto dela etc., mas definitivamente não era motivo para chorar, tendo em vista que era uma sexta-feira ensolarada, o que tornava bem provável que houvesse bodas no dia seguinte.

Pedro então olhou o mar, viu o pôr-do-sol colorido e também uma estrela, que despontava com um brilho fraco. Não pensou em nada, olhou apenas, sentiu somente; deixou-se ficar ali, contemplando, mas sem pensar em contemplar. Sentiu lágrimas. Lágrimas que escorriam por sua face; não, não eram da mangueira, eram suas. Ele chorava.

Chorou durante o ocaso e continuou chorando, depois de o céu escurecer completamente; não pensou no tempo que passava, na noite que caía, nos motivos das lágrimas. Apenas chorou.

Levantou-se muito depois e se pôs a caminho de casa. Somente voltou a pensar quando já estava na rua, e só aí que se perguntou por que chorara. Refletiu sobre as lágrimas, mas continuou sem encontrar razões para justificá-las.