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O ÚLTIMO PRESENTE

O  ÚLTIMO  PRESENTE


Poucos casais foram felizes como eles. No primeiro aniversário de Neida, após se conhecerem, Cândido a presenteou com um anel de noivado. No seguinte já estavam casados e o presente foi bem mais modesto, mas com o mesmo afeto. Assim continuou, ano após ano. Cândido  jamais se esquecia de presentear sua esposa, por mais simples que fosse a lembança.
Ele, filho de imigrantes portugueses, trabalhava como Guarda de Presídio na Penitenciária do Estado, ela era Servente  Escolar numa escola do primeiro grau, também pertencente ao Estado. Empregos  garantidos mas com salários modestos, com poucas perspectivas de melhora. Alugaram uma casinha modesta próxima da escola onde Neida trabalhava, mas seu marido tinha que se valer de uma bicicleta para chegar ao trabalho. Veio o primeiro filho e Cândido não pode estar  ao lado de sua esposa na hora do parto, pois seu trabalho não permitia ausências.
Quando Cândido não estava trabalhando no presídio, fazia muitos serviços de funilaria, profissão que herdara do pai. Era a maneira de equilibrar o orçamento pois as despesas estavam em alta com a chegada do bebê, e  o seu  sonho  era  adquirir  sua casa própria, fato esse alcançado alguns anos depois de muita luta e sacrifício. Cândido foi para uma auto-escola, tirou sua carteira de motorista e logo conseguiu comprar seu primeiro carro, um Jeep, que fora usado na  segunda guerra mundial. Agora podia passear com toda a família que estava para crescer novamente, pois Neida estava grávida. Mesmo assim, sua bicicleta não se aposentou, continuava sendo útil e ajudava na economia da gasolina.
Tudo transcorria bem, o filho crescendo, o orçamento equilibrado, o amor constante e para completar a felicidade do lar, nasceu uma menina. Foi uma benção de Deus !  Ela seria educada como estava sendo educado o irmão, com muito amor, respeito e dignidade. As crianças estudaram em escolas públicas e os pais continuavam a economizar cada centavo, pois além querer proporcionar educação superior aos filhos, também almejavam uma vida mais confortável para todos.
Uma vida árdua mas muito feliz. Conseguiram adquirir uma casa na praia, trocaram de carro várias vezes e os filhos se formaram na faculdade. Ambos se aposentaram e agora tinham mais tempo para usufruir a companhia um do outro. Passavam longos períodos na praia, nos finais das tardes passeavam de mãos dadas à beira mar, contemplando as maravilhas da natureza, vivendo intensamente o milagre do amor.  Com os filhos casados, vieram os netos, outra benção !
A idade geralmente trás dificuldades com a saúde. Cândido apresentou um problema de visão e sua retina estava se degenerando. Procuraram especialistas e o mal acabou sendo controlado, mas deixou sequelas. A perda parcial da visão o tornou impossibilitado de dirigir seu carro. Foi um golpe cruel, a depressão rondava e o prazer da vida ficou seriamente ameaçado. Estava aberta a porta para outros males, pois seu estado de ânimo fora atingido.
Pouco tempo depois, problemas de estômago, fígado e por fim o diagnóstico trágico: Seu corpo estava sendo invadido por uma doença fatal. Todo o possível foi feito, seus filhos procuraram os melhores médicos, os melhores cirurgiões, mas a doença se apresentava imbatível. Iniciava-se o período mais crítico, as dores aumentavam de intensidade,  a terapia trazia desconfortáveis  efeitos colaterais. Seu abatimento era nítido. Foi internado num hospital e mantido sob sedativos, pois as dores eram terríveis. Neida, como sempre, mantinha-se ao seu lado. Passava 24 horas no hospital ao lado do marido,  resistindo ao pedido dos filhos, que queriam substituí-la.
Como o estado de saúde dele se agravava, Cândido foi transferido para a U.T.I., sendo privado da companhia da esposa durante à noite. Talvez pelo sofrimento e pelas dores que sentia, experimentava o fenômeno do desdobramento, que consiste no  abandono do corpo material, mantendo o consciente alerta, em estado astral.  A sensação de paz e bem estar nesse  estado é muito grande. Sentia-se flutuando no espaço. Podia ouvir e ver tudo o que se passava ao seu redor.
 Na  véspera do  aniversário de Neida, no final da tarde, sua filha fora buscá-la  no hospital. Como estava com sua filhinha, não foi até a U.T.I., permaneceu na recepção aguardando a mãe. Neida recebeu o comunicado que sua filha se encontrava no saguão, e preparou-se para despedir-se do marido. Católica, possuidora de muita fé, sempre assistia  uma missa aos domingos, tendo o inseparável marido ao seu lado.  Ajoelhou-se ao lado da cama e começou a rezar.  Cândido no seu estado astral assistia toda a cena, seu corpo   material estirado na cama e sua esposa  segurando sua mão inerte. Após um Pai Nosso, ela iniciou uma conversa com Deus:
- Jesus, não consigo ver o sofrimento daquele que dedicou toda sua vida para me fazer feliz. Homem honesto, trabalhador, que sempre colocou a família em primeiro lugar. Bom pai, bom filho, bom marido. Ele não merece continuar sofrendo assim. Amanhã é meu aniversário e ele, pela primeira vez, não vai me presentear. Portanto, peço ao Sr., Jesus, o meu presente de aniversário :   Se for para ele continuar sofrendo, por favor, leve-o com você !
Ao ouvir essas palavras, o consciente de Cândido levou um choque. Sentiu forte pressão em seus ombros, olhou para o alto por alguns instantes e sentiu uma segurança que jamais havia experimentado. Sentia-se forte, dono de si mesmo, tinha total domínio sobre seu livre arbítrio. Voltou sua atenção para o quarto a tempo de ver  a companheira de sua vida deixar  seu  quarto.
Neida abandonou o hospital rapidamente. Beijou sua filha e neta e dirigiram-se para o carro. Permaneceu calada por todo o percurso. Angustiada, logo que chegou em casa procurou se isolar e pôs-se a chorar baixinho num canto. Uma hora depois o telefone tocou anunciando o falecimento de seu marido, que acabara de lhe dar, com a anuência de Jesus, o seu último presente.
 
Mário Mercadante
Enviado por Mário Mercadante em 21/04/2006
Código do texto: T142860
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Sobre o autor
Mário Mercadante
Pirapora do Bom Jesus - São Paulo - Brasil, 75 anos
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Mário Mercadante