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Mulheres e Empresa


Contemplava a sua frente uma moça elegante: saia curta, pele suave, cabelo impecável, bem falante. Lembrou da moça insegura, sua aluna de anos atrás. Recebeu-a com um sorriso, sem muito calor na voz. Dispunha em sua mesa do currículo com uma quantidade razoável de referências. Dois livros publicados; artigos, cursos e mais cursos. Olhava-os de relance, pois devido a alguma coisa que classificou como “falta de tempo”, não se dignara  examiná-los, contrariando a conduta metódica e arrojada, que lhe granjeara vertiginosa carreira na Empresa.  Por que esta má-vontade? Ela mesma não encontrou o motivo.

Mal ouvia a falação da outra, mexia sem parar nos papéis, conferindo as informações mais do que encarando a entrevistada ou fazendo perguntas  A mais jovem nem aí, continuava com muita segurança a discorrer sobre sua trajetória profissional, enquanto a entrevistadora pronunciava ahãs, que até para ela mesma, pareceram forçados. Buscava com  urgência alguma falha onde apoiar o veredicto, mas pensou que seria precipitado, que deveria ser “isenta” e dar a oportunidade que concedia a todos concorrentes. Neste caso por que a hostilidade? Sempre soubera competir e o fato de ter ascendido sem pisar em alguém, era resultado da consciência de sua auto-estima e valor.

Agüentaria, entretanto, aquela pessoa ao seu lado todos os dias? E com seu  consentimento? Mesmo estando evidente a brevidade da entrevista, preparou-se para o “gran finale”, em que diria que lamentavelmente... o que mesmo arrumaria como desculpa? Resolveu adiar e ver como  levar adiante a questão do “descarte”. Este deveria ser discreto, bem fundamentado, porque entrevistada possuía amigos  na Empresa. Sentiu-se desconfortável, o que um observador mais atento que não a auto-encantada pretendente, poderia ter percebido: o rubor em sua face, o olhar desatento e o constante revirar dos papéis, como se ali fosse encontrar o que procurava: algo que elegantemente volatilizasse a candidata.

Decidiu por nova entrevista, alegando que não tinha poder de decisão (que feio! dizia sua vozinha interior), mas era necessário. Lutaria até o fim para não permitir a entrada de alguém (não seria ela o seu espelho?) na Empresa.  E se fosse uma tática errônea? Logo argumentou para si mesma que “ela” poderia  conseguir uma vaga em outro departamento, e aí sim, teria uma bela inimiga. O que Maquiavel mesmo recomendaria? Não lembrou, até porque ele não se dedicou a questões relativas a subordinados, servos era o termo certo porque aqueles sequer existiam. Não era falha sua não, não haver lido!

Resolveu dar por encerrada a entrevista pedindo que voltasse em três dias, tempo que levaria para consultar seus superiores. Puxa vida, outra gafe! Não dissera


anteriormente que tinha autonomia?. Acrescentou, então, “você sabe, não gosto de passar por cima”, o que era um aviso caso seu ardil para descartá-la não desse resultado, e em pouco tempo antevia uma guerra de nervos  em curso nas salas de reunião e corredores e espaços mais significativos da Empresa.

Depois no banheiro houve o encontro com o espelho e pôde ver o estrago da sua divisão interior: no colorido do rosto, no cabelo que parecia ter caído um pouco mais, na boca cujo batom se fora. Tratou de reerguer-se, não seria uma concorrente a mais que a tiraria do seu rumo, já havia lidado com tantas, e até o momento se saído muito bem. Certamente sempre pudera ser solidária, pois na sua opinião eram umas coitadas: faculdades brasileiras de segunda linha, nada de MBA´s no exterior ou livros publicados. Era só dar corda e elas faziam o restante, ou melhor, se colocavam no “seu lugar”. E ela, qual o SEU lugar? Numa empresa com muitos homens, acreditava que  até o momento suas conquistas eram nada menos que formidáveis, mas e se com a chegada da novata tudo mudasse e...? Pensou ser um delírio quando estes pensamentos lhe invadiram a mente.

E agora,  voltava a tirar da gaveta aquelas “questiúnculas” que  sempre  sacudia  ao  vento: o  cargo que  ocupava  seria  um reconhecimento suficiente para sua dedicação, para o “dar o sangue”, que sempre haviam exigido dela? Ah! Estas coisas de baixo do tapete começavam a se manifestar, pondo as manguinhas de fora: ela não merecia mais? Uma vez argumentaram, após uma promoção de um colega homem com menor desempenho que o seu: “ele tem compromissos com família” e também um número maior de ofertas de emprego no mercado, é claro, o que não foi dito...

A  atitude de favorecer os homens, o machismo que anunciavam estar em desuso na Empresa era um fóssil gordo ainda a existir em seu trabalho. Neste momento viu claramente que nada havia mudado e que muitas vezes havia sido injustiçada. E se para com a candidata, aquilo que ela aceitou, deixasse de existir? Então porque não seguir as “normas”, garantindo sua defesa?

Sentindo-se  amparada na decisão que ainda vagueava em sua mente, formulou a si mesma a pergunta fatal: porque deveria ser a melhor que outros e não usufruir disto? Com esta questão para a qual já sabia a resposta, passou a olhar o currículo apresentado com nova disposição, agora sim para encontrar falhas, assincronias leves com o perfil buscado pela Empresa, e que fossem  decisivas para justificar o “não” que já decidira.

Marluiza
Enviado por Marluiza em 22/04/2006
Código do texto: T143295
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Sobre a autora
Marluiza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
45 textos (1651 leituras)
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