Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

FAROESTE CAP - 8

Capítulo Oitavo

“Um xerife sem saída”

Dois dias depois Chambord batia na porta do consultório médico. Ninguém atendia. Havia acabado de chegar de Dallas.
— Senhor Chambord, há dois dias que não temos notícias do doutor Smith — disse um passante pela rua.
— Dois dias! — exclamou Chambord curioso.
A mente de Chambord começou a pensar coisas ruins. Não! Seu irmão não faria nada de errado. Agradeceu e saiu pela rua.
— Senhor Chambord — gritou o xerife ao vê-lo.
— Estou muito ocupado agora, xerife! Depois, conversaremos...
— Não vou incomodá-lo. Apenas uma pergunta — insistiu o xerife.
— Diga! — respondeu Chambord impaciente.
— Por acaso, sabe alguma notícia da senhorita MacGreen? O senhor acabou de chegar de Dallas, talvez a visse por lá.
— Não! Não a vi! Não me meto na vida dos outros. Com licença!
— Ela sumiu! — disse o xerife sozinho pela rua. — Ela deve estar aprontando alguma coisa.
*****
Chambord cavalgava apressado para um de seus ranchos. Tentava afastar os pensamentos nefastos que envolviam sua mente. Se por ventura tivesse mesmo acontecido o que imaginava, iria à bancarrota e uma cidade inteira iria fritá-lo vivo.
Não! Seu irmão jamais faria uma coisa assim. Também estava curioso para saber o que havia sido feito da senhorita MacGreen. Esporeou seu animal.
Ninguém além de seu irmão sabia daquele cofre subterrâneo. Nem mesmo Simon. Logo agora, e depois de tantos anos, haviam conseguido eliminar todos os concorrentes. Não! Não havia nada de errado. Era sua mente maliciosa que estava pensando coisas inúteis.
— Smith! — gritou antes mesmo de descer do animal. — Smith! Onde você esta! — gritou bem alto vendo a porta principal do rancho aberta e nenhum movimento ao derredor. Sacou seu colt entrando pela casa gritando o tempo todo por seu irmão.
Não havia ninguém.
— Onde você esta seu miserável! — berrou furioso.
Entrou para o cômodo mais ao fundo. Seus olhos percorreram todo o ambiente. Tudo certo! A mesa estava no mesmo lugar e o tapete grosso estendido por debaixo dela. Ainda bem — pensou.
Saiu da casa. Tudo quieto! Uma quietude de incomodar. Gritou várias vezes por seu irmão e pelos dois funcionários. Ninguém respondia. Foi até ao estábulo. O coche não estava lá. Eles já deveriam ter voltado.
Gritou por todos novamente. Deu alguns tiros pelo ar. Voltou a casa. De relance viu uma garrafa de uísque aberta. Não havia observado antes. Serviu um gole para si e caminhou pela casa. Então, ao olhar para o chão viu rastos em direção à mesa ao centro do cômodo que paravam na borda do tapete.
Seu coração disparou! Colocou o copo em cima da mesa. Num ímpeto empurrou-a para o lado enrolando rapidamente o tapete. Abriu o alçapão e desceu sem mesmo levar um lampião. Ao fim da escada acendeu um fósforo e gritou:
— Miserável! Eu vou matar você! Eu vou matar você... seu desgraçado! — voltando apressadamente e recompondo o tapete e a mesa no mesmo lugar.
Droga! Não poderia ir ao xerife e dizer que seu irmão havia lhe roubado... não poderia dizer isso a ninguém... Onde aquele miserável poderia ter ido? Ele não iria para Dallas... daria muito na cara. Não iria para o rancho da senhorita MacGreen também. Não estava na cidade. Seus dois empregados não haviam aparecido com o coche. Não. Eles não fariam isso. Meu Deus... iria ficar louco de tanto pensar — concluiu mentalmente e desesperado.
O melhor que tinha a fazer era se acalmar e tentar descobrir o que havia acontecido.
Foi ao xerife.
*****
— Xerife!
— Sim, senhor Chambord!
— Preciso fazer uma queixa!
— Queixa! Contra quem! Quem teve a audácia de fazer alguma coisa contra o todo poderoso senhor Chambord? — perguntou o xerife, demonstrando nas entrelinhas certo deboche.
— Alguém entrou em um de meus ranchos — respondeu Chambord fazendo-se de desentendido pelo comentário do xerife.
— Quem... em especial! Todo mundo entra em ranchos de todo mundo por aqui... senhor Chambord. Eu mesmo entrei em dois ranchos hoje — brincou o xerife com certo deboche novamente.
— Não estou por conta de suas gracinhas, xerife!
— Nem eu, senhor Chambord  disse sério o xerife. — Quem o senhor pensa que é que pode fazer o que bem entender a vida toda! Acha que ninguém pode cobrar do senhor o que lhe é usurpado? Acha que é um semideus no Oeste! Jogue limpo e terá todo o meu apoio — finalizou o xerife, depois de olhá-lo mortalmente.
— Aonde quer chegar xerife? Olhe com quem esta falando!
— Estou falando com o maior trambiqueiro desta região e talvez de todo o território do Novo México, isto, sim! Ainda estou finalizando minhas investigações, mas eu vou pegá-lo! Daqui a poucas horas chegará a Santa Fé a qualquer momento alguns Rangers de Dallas e viraremos sua vida de cabeça para baixo, mas eu vou pegá-lo, senhor Chambord!
— O que esta acontecendo, xerife, que eu não estou entendendo — comentou Chambord falando mais moderadamente ao sentir que o terreno estava completamente minado.
— Não se faça de idiota!
— Acabei de chegar de Dallas... fui até meu rancho e alguém esteve por lá e me roubou! Vim fazer uma queixa! — exclamou.
— Sente-se, por favor! Poderia dizer-me onde esta a senhorita MacGreen?
— Já lhe disse... não me meto na vida dos outros!
— Seu tesoureiro esta morto! Simon esta morto! O ex-namorado da senhorita MacGreen esta morto! Meus dois auxiliares estão mortos. O nosso barbeiro e seu concorrente na cidade estão também mortos! E a senhorita MacGreen, ninguém tem notícias dela há dois e creio que o senhor não tem nada a ver com tudo isso! Acertei? E nem com aquele assalto no trem e aquelas mortes, nem com a morte dos irmãos Kents, havia me esquecido deles, nem com mais dois homens mortos no trem quando degolaram seu tesoureiro... Deixe-me ver se me lembro de mais alguém... Não... Não... No momento não estou me lembrando — brincou o xerife andando pela sala num gesto de uma falsa preocupação —, mas a qualquer momento... quem sabe... poderá aparecer alguém morto por aí. Vamos ver quem será o próximo — debochou novamente.
— E, por acaso, eu sou o único culpado? Acha que eu sozinho faria um estrago assim na cidade!
— Não, sozinho, não! Mas seus tentáculos! Como também o motivo leva sempre ao senhor ou a alguém ligado ao senhor. Portanto, há um vinculo com tudo que esta acontecendo por aí com sua pessoa. Eu o aconselharia a não sair da cidade.
— Eu tenho negócios em Dallas e sempre eu vou até lá.
— Não saia da cidade. Posso precisar do senhor a qualquer hora — aconselhou o xerife, mais ordenando que pedindo.
— Acha que eu tenho medo de um xerife sem fibras como o senhor! Eu sou o dono desta cidade! Até que os Rangers chegue por aqui alguma bala pode procurá-lo pelas ruas! Atravesse na minha frente e será um homem morto! Eu sou Marlin Chambord, xerife, o senhor se esqueceu!
— Não! Mas segundo o que me foi enviado de Dallas, o senhor tem negócios por lá com tal de... deixe me ver... — procurando algumas folhas por sobre a mesa — Smith... ou melhor, Terence Chambord, seu irmão, ou estou enganado! É por isso que ele viaja sempre para Dallas também —  e esticou a folha a ele. — Segundo a senhorita MacGreen, os dois irmãos seriam Simon e Timoty Jacob. Mas eu a vi e ouvi conversando com o nosso doutor Smith numa cabana onde Simon foi encontrado morto, então, deduzi que o nosso doutor houvesse dito isso a ela para desviar a atenção de seus concorrentes e agora chegou a confirmação: Terence Chambord e Marlin Chambord, irmãos... uma dupla de facínoras que amedrontava os arredores de Dallas há muitos anos atrás... ou estou enganado novamente!
— Acertou até demais, xerife! Só se esqueceu de uma coisa... a hipoteca de sua casa e do seu rancho miserável e que estava nas mãos daquele barbeiro idiota foi negociada há algum tempo. Eu já esperava que um dia o senhor pudesse levantar a voz comigo, pedi uma pessoa para comprar algumas hipotecas por aí, portanto...
— Miserável!
— Pelo que sei não esta com as contas em dia e sua mulher e seus filhos ficarão na rua. Então, deixe de conversar fiado e me ajude a procurar meu irmão. Ele me roubou tudo que eu possuía e quem sabe terá uma boa porcentagem e poderá pagar sua hipoteca!
— Seu desgraçado!
— Eu jogo bem, xerife! E quanto à senhorita MacGreen, ela me vendeu o rancho dela e eu não a vi mais... e antes que o senhor comece a fazer perguntas há uma mina de ouro naquele rancho e ela não sabia... somente o pai dela sabia.
— Isso não vai ficar assim, senhor Chambord!
— Vai sim! Agora, vê se some dessa delegacia e vá procurar meu irmão, senão, farei um exército maior do que o General Ulysses Grant comandou na Guerra de Secessão e varrerei esta cidade do mapa do Oeste! — gritou Chambord. Depois, montou em seu cavalo e saiu pela rua.
— Onde esta a senhorita MacGreen, meu Deus! — exclamou desolado o xerife.
Momentos depois sua atenção voltou-se para a rua.
Um coche parava na porta da delegacia. Não acreditou! Helen MacGreen descia dele vestida como um cocheiro.
— Algum problema por aqui, xerife? — perguntou ela, sorridente.
— Oh, Deus! Por que esta vestida assim! Por onde andou? As coisas estão fervendo, senhorita!
— É mesmo! Eu estive dando umas voltas por aí... tive que arrumar esse disfarce. Mas o que esta acontecendo?
— Primeiro, diga-me uma coisa, vendeu seu rancho para Chambord?
— À força! Ele e o doutor me obrigaram!
— Foi o que imaginei! Sabia que há uma mina de ouro por lá.
— Aha... aha... aha... aha... — gargalhou ela. — Meu pai inventou isso para conseguir o empréstimo, xerife, mostrou a Chambord algumas pepitas de ouro que ele comprou em Dallas, ele precisava daquele empréstimo para melhorar o rancho e comprar mais gado. Chambord não queria emprestar, então, nós tivemos a idéias de fazer isso. Levamos um mineiro lá... havíamos deixado algumas pepitas de ouro num buraco na montanha... tudo deu certo! Ele comentou com o doutor Smith para que a notícia se espalhasse e Chambord começou a jogar sujo e tudo deu no que deu.
— Santo Deus! O velho MacGreen era mais esperto do que eu pensava. Outra coisa... aconteceu algo em um dos ranchos dele... o irmão dele, o doutor Smith o limpou!
— É mesmo! Que pena! Eles me obrigaram a assinar alguns papéis... e ninguém pode pegar nada em pagamento — e riu.
— Você... não teve nada com...
— Ora, xerife... ele não me pagou o meu rancho... Então...
— Ele esta pensando que foi o irmão dele...
— Claro! Eles me disseram que todos por aqui sabiam que eu estava em Dallas e ninguém teria prova contra eles e para todos os efeitos o irmão dele estava sozinho no rancho e tudo sumiu!
— E o doutor Smith? Aliás, Terence Chambord.
— Bem... ele é muito frágil. Não suportou uma pequena “pancadinha” na cabeça. Escondi o cadáver dele. Vamos pegar Chambord?
— Não posso!
— Como... não pode! O que está havendo! Passou para o lado dele?
— Ele acabou de sair daqui... a hipoteca da minha casa e do meu rancho estava com o barbeiro e foi adquirida por Chambord. Eu não sabia! Vou perder tudo se fizer alguma coisa com ele. Há um pequeno atraso de minha parte.
— Peça para lhe mostrar as hipotecas! O senhor quitará de uma só vez!
— Ora, ora, senhorita, eu não tenho dinheiro para saldar tudo!
— E nem ele tem as hipotecas! Pode prensá-lo! Ele não as possui!
— Como sabe disso?
— Ora, xerife, no rancho de Chambord havia uma filial do banco dele. Havia muita coisa por lá... papéis... e no meio deles encontrei as suas hipotecas e a de vários rancheiros... vou devolver todas elas!
— Santo Deus, criatura! Você vai fazer um estrago maior do que um furacão na vida dele.
— E mais, creio que tenho dinheiro o bastante até mesmo para fundar um banco melhor do que o dele... Ele me roubou um rancho e uma mina de ouro, certo! Eu estava em Dallas, xerife, não há provas contra mim!
— Você é incrível!
Lucas Durand
Enviado por Lucas Durand em 25/04/2006
Reeditado em 13/07/2015
Código do texto: T145155
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Lucas Durand
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
491 textos (377233 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 16:12)
Lucas Durand