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OBSESSÃO: A verdade sobre meu pai - CAP. VI

DESESPERO

Deitada no sofá da sala, Fernanda parecia dormir. Com o corpo torcido, a mão levemente tocava a felpa do tapete. As pernas estavam dobradas, impedindo a circulação sangüínea. Sobre a mesa de centro havia uma garrafa vazia de uísque. O telefone, ainda ligado, fora atirado para o outro lado da sala, batendo violentamente contra várias garrafas no bar, sujando o tapete. Com o impacto, vários copos e taças se partiram em milhares de pedaços, que cobriram o chão. Um furacão humano passara por ali despejando sua fúria indomável e sanguinária, destruindo tudo ao seu redor, sem que nada lhe faltasse à ira.
Ao entrar em casa, depois de muito questionar sobre como se explicar à mulher, deparou-se com a trágica cena. Assustado, logo avistou a esposa deitada. Um acesso cego de raiva tomou-lhe o espírito.
— O que aconteceu aqui? — bradou, enfurecido.
Não tendo resposta, aproximou-se.
— Fernanda! — insistiu, elevando o tom de voz — O que aconteceu aqui?
Novamente, não teve resposta.
Ao vê-la mais de perto, levou um susto e recuou. Um forte cheiro azedo misturado com álcool vinha da mulher. Tentou desesperadamente acordá-la, sacudindo levemente seu corpo. Não se movia. Aumentou a força, intensificando o movimento, mas ela não reagia. Estava inconsciente. Ao tentar ajeitá-la no sofá, a cabeça de Fernanda virou para o lado e ele, por pouco, não vomitou sobre ela. Fernanda cobria uma poça de vômito com o rosto, sufocando-se com o líquido esverdeado e viscoso. Tentou sentir os batimentos cardíacos, mas eram imperceptíveis. Estava pálida, sem cor. Parecia morta.
Sabendo que para ajudá-la precisaria manter a calma, naquele momento, de nada adiantaria ficar com raiva ou indiferente. As atitudes teriam de ser tomadas rapidamente ou o quadro poderia ser irreversível. Precisava se acalmar, mas a visão à sua frente não era agradável. — O telefone!  Onde está o telefone? — Perguntava a si mesmo enquanto, em desespero, jogava as coisas pelo alto à procura do aparelho. Pouco depois, encontrou-o destruído. Mergulhou a cabeça nas mãos num sentimento de total impotência. O telefone celular estava descarregado.
Pegou-a no colo e, sem se importar com o forte azedume, correu para o carro apressado.
***
Fazia um calor insuportável naquela noite. Da sacada do prédio em frente à casa de Jean, Vera observava atenta o movimento na rua, estava há horas debruçada no muro à espera de mais algum fato para contar às amigas. Era tão comum vê-la espiar as pessoas da vizinhança que todos já sabiam as conseqüências de um descuido aos olhos da senhora do apartamento 356. Certa vez quase teve a vida em risco, quando viu a mulher do policial Monteiro aos beijos com o amante, um rapaz imberbe de vinte anos. No dia seguinte, a velha gorda contara a história para as amigas e rapidamente a notícia espalhou-se pelo bairro. O marido traído, ao descobrir o envolvimento de Vera, ameaçou-a de morte caso não parasse de inventar histórias e desmentir o que contara. Mas a língua venosa foi mais forte. Vera contou às amigas sobre a ameaça, deixando o policial em má posição perante aos vizinhos. Não tardou muito para Monteiro e a mulher se mudarem do bairro. Vera sentiu-se vitoriosa e, assim, achava-se no direito de intrometer-se na vida dos vizinhos, despejando seu veneno sem se importar onde e quem iria ferir.
De sua varanda, Vera viu Jean sair de casa com Fernanda aos braços. Fotografou a cena em sua memória. Atentamente assistia o desenrolar do espetáculo e virando-se para o marido, disse:
— Olha, João, aconteceu alguma coisa com a Fernanda.
— Que Fernanda? — Perguntou o velho, sem manifestar muito interesse no que a mulher dizia.
— A mulher do advogado aqui da frente. — Ela franziu a testa. — Como é o nome dele mesmo? Jean... Jean alguma coisa.
— Delacroix. — Respondeu o velho, impaciente.
— Isso mesmo! Ele pôs a mulher no carro. — disse em tom irônico. — Ela está desmaiada ou morta.
— O que é isso, mulher? — repreendeu-a.
— Não estou brincando, não. Ela não está bem. Quer saber o que eu acho? — disse empolgada com o novo assunto.
— Não, não quero. — Respondeu o marido insatisfeito com o comportamento da mulher.
— Você não quer, mas eu digo mesmo assim. Eu acho que aquele safado bateu nela.
— Você deve estar ficando maluca, mulher. — Disse João.
— Maluca, eu? Pois fique sabendo que minha cabeça está muito boa. Ouviu?
— Então por que você acha isso?
— Ele chegou duas horas da manhã. Ela, com certeza, foi tomar satisfação de onde ele estava e para não entregar a amante, bateu nela.
— Cuidado com o que você fala, Vera. Você não sabe se foi isso o que realmente aconteceu.
— É claro que foi isso. Está na cara para todo mundo ver. Ele a engana. Antes, chegava cedo, saíam juntos e voltavam juntos. Agora, eu já vi várias vezes ele chegando tarde da noite. Até dei umas indiretas para aquela menina, a Fernanda, mas acho que ela não me entendeu.
— Eu já falei para você não se intrometer na vida dos outros. Lembra do que aconteceu com o policial? — censurou-a, nitidamente irritado.
— Ah, João! — resmungou a velha, enquanto o carro de Jean saía em disparada pela rua.
— Vai cuidar da sua vida! Deve ter algo para você fazer, não tem?
— Estou ocupada! Se não quer saber, conheço quem queira!
— Você ainda vai se encrencar. Escute o que eu digo. Vem dormir!
— Ah! — exclamou, voltando para a sacada.
***
Quando Jean chegou ao hospital com Fernanda ainda inconsciente, a situação era caótica. Enfermeiras corriam para todos os lados em um desespero contínuo. Há poucos minutos ocorreu uma briga num clube próximo e várias pessoas estavam feridas. Os médicos plantonistas não conseguiam cuidar de todos os pacientes, que permaneciam nos corredores, ensangüentados à espera de atendimento. Pelo menos cinqüenta pessoas precisavam de cuidados médicos imediatos. Corpos mutilados serpeavam pela enfermaria, gritando em desespero à procura de alívio para suas dores.
Jean não sabia o que fazer. Sua esposa estava inconsciente e precisava de atendimento. Algo precisava ser feito rapidamente, mas ali não conseguiria nada. Sem reação, estava com a mulher nos braços, quando uma das enfermeiras, vendo o seu desespero, sugeriu-lhe que a levasse ao outro hospital. O tempo passava e Fernanda não recebia o atendimento, não poderia esperar mais. Precisava tirá-la de lá antes que o pior acontecesse.
Não demorou muito para que chegassem ao novo hospital. O ambiente era outro, pareciam ter saído do inferno e chegado ao paraíso. Tudo era tranqüilo. O silêncio dominava os corredores brancos, as pessoas caminhavam calmamente sem preocupação. Fernanda foi logo atendida assim que entraram pela porta principal. Puseram-na em uma maca e a levaram apressados. Jean ficou na recepção. Não poderia vê-la até que se soubesse o que acontecera. Preenchia a ficha de internação e esperava por notícias, temendo o pior. Tomado pela angústia, esqueceu-se dos fatos ocorridos antes de encontrá-la. Pensava na esposa e principalmente na reação que sogros teriam.
Doutor Flávio, o médico que atendeu Fernanda, finalmente retornou à recepção. Dirigiu-se a Jean:
— Senhor Delacroix, sua esposa está melhor. Felizmente conseguimos atendê-la a tempo. Não se preocupe, pois ela ficará bem.
— Mas o que aconteceu com ela, Doutor? — perguntou Jean, angustiado.
— Sua esposa entrou em coma alcoólico. Ela não corre perigo, porém necessita permanecer no hospital para observação. Amanhã, provavelmente, ela será liberada.
— Posso vê-la? — perguntou Jean.
— É claro que sim. Venha comigo, por favor. — disse o médico em um tom não muito amigável. — O senhor só não pode demorar. A visita deverá ser curta. — disse o médico, que se virando para a enfermeira que os acompanhava, pediu que levasse Jean ao quarto em que sua esposa estava.
A visão da mulher não o agradou. Dois tubos entravam em seu nariz. Seu rosto estava pálido, os olhos estavam fundos, com olheiras que lhe davam a impressão de terem sido esmurrados. Não havia mais beleza em seu rosto, vira uma mulher estranha, desconhecida. Muito diferente daquela com quem se casou. Sentiu-se mal. Incomodava-o vê-la em tão deprimente estado. Ele nada poderia fazer para mudar o quadro, o que estava feito era irreparável. Enquanto um turbilhão de pensamentos movimentava as idéias de Jean, ela dormia profundamente.
— O senhor tem que ir agora. — disse a enfermeira. — Eu sinto muito, mas não pode ficar mais. Amanhã, se ela estiver melhor, poderá ir embora.
— E se não melhorar?
— Ela ficará aos cuidados do hospital. Mas acredito que amanhã ela receberá alta, não é tão grave assim.
— E eu não posso ficar com ela?! — Perguntou Jean, revoltado com a situação em que se encontrava. Por que não poderia ficar com a esposa, tinha o direito de permanecer ao seu lado; pensava consigo mesmo.
— O senhor pode. Mas acontece que ela está em observação. Se ficar, poderá atrapalhar o atendimento. Amanhã, se tudo ocorrer bem, ela receberá alta e poderá levá-la para casa. — Explicou a enfermeira, com ternura no olhar e a voz meiga.
— Mas se algo acontecer, como ficarei sabendo? — perguntou preocupado.
— A recepcionista do hospital ligará para sua casa.
— Prefiro que seja você, se não for incômodo.
— Não, não há problema algum! — disse ela afetuosamente.
— Muito obrigado. Esperarei que me dê notícias. — Disse, enquanto virava-se para sair. — Boa noite! — despediu-se, conformando-se com a situação.
— Boa noite! Não se preocupe, cuidarei pessoalmente de sua esposa.
— Mais uma coisa — disse ele, voltando-se para ela. — Como é seu nome?
— Laura! — Respondeu prontamente.
— Obrigado, Laura, esperarei seu telefonema. — disse, saindo do hospital.
***
Não era seu costume ser tão atenciosa como foi com Jean. Laura sentiu-se atraída por ele. Era antiético, mas não conseguia controlar os impulsos do seu coração. Disfarçou como pôde, mas tinha consciência de que não havia sido o suficiente para passar despercebido seu flerte inocente.
***
Os pensamentos de Jean eram conflitantes. Não conseguia deixar de pensar no envelope esquecido sobre a mesa. Pensava nos últimos acontecimentos e tentava justificar seus anseios egocêntricos. “Não é descaso. Estou preocupado com ela. Estou preocupado, mas preciso saber o que o envelope esconde. Fernanda está bem. Amanhã ela voltará para casa.” Queria evitar o remorso, afinal, pensava mais em suas coisas do que na própria esposa internada. Naquele momento desejava somente pôr as mãos no tesouro furtado e mais nada.
Já em casa, caminhou pelo caos em que estava a sala. Cautelosamente esquivava-se dos cacos de vidro espalhados pelo chão, tomando cuidado para não se cortar com os estilhaços. A casa tinha um cheiro insuportável, o álcool contaminara o recinto e causava-lhe ardência nas narinas. Abriu as janelas e observou a rua mergulhada em silêncio e os prédios que se pareciam com imensas torres negras. Todos estavam dormindo naquela hora da noite, todos exceto Vera. Pôde ver seu vulto detrás das janelas de seu apartamento. Soube no mesmo instante que ela tinha visto o que acontecera em sua casa. No dia seguinte, a vizinhança saberia de tudo. Era mais um problema para pensar.
À mesa de seu pequeno escritório, segurava o envelope com receio. Respirava fundo, temendo abri-lo. Seu pensamento fluía assustadoramente e várias possibilidades se arquitetavam como num filme de terror.
Correndo os dedos pelas quinas do papel, lentamente descolou o fecho. Parou. Respirou profundamente, segurou a respiração e abriu o envelope. Pôs as várias folhas sobre a mesa e estudou-as uma a uma, eram cartas em sua maioria. Antes de manuseá-las precisava acalmar a excitação que o dominava. Tinha consciência de que tudo aquilo, talvez, não tivesse o valor depositado por ele, porém não queria acreditar nessa hipótese.
Atentamente, leu a primeira carta da pilha.
Querido Charles, a saudade consome minha alma. Os dias, meu amor, são tristes sem ver-te a sorrir perto de mim. A tristeza invade minha vida e faz com que queira a morte a não te ter ao meu lado. Quando voltas? Já não agüento a solidão de nossa casa.
“Nossa casa”; Jean repetiu mentalmente. “Quer dizer que meu pai teve outra mulher” , concluiu, vendo desmoronar a imagem de honestidade que acreditava ter o pai. Passou para outra.
“Preciso ver-te. Não agüento viver mais um dia sem o teu calor. Estou à sua espera em nosso lar. Não deixe de vir. É importante, preciso contar-te algo que mudará nossa vida para sempre.”
— O que seria tão importante? — cismava, falando entre os dentes.
Querendo, cada vez mais descobrir os segredos ali revelados, começou a separar as cartas por data, até que encontrou uma que o fez parar.
“Se não mais a ama como dizes, deixa-a. Se é por mim que morres, deixa-a e venha de vez para cá. Nem nós, tampouco sua mulher merecemos esta vida. É preciso que tomes uma decisão definitiva. Estamos sofrendo e sabemos que sua outra família também sofre, querido.”
Todas as cartas tinham a mesma assinatura, Paula, mas não encontrou o sobrenome nas primeiras que leu.
—Quem é essa mulher? — perguntava-se intrigado. Continuou a leitura das cartas. A primeira constava de antes de seu nascimento. Esta, como outras poucas, era diferente das demais, o assunto principal era didático. Teciam longos comentários sobre livros, autores e estilos que Jean desconhecia. Depois, um longo período de silêncio separou os amantes. Anos depois, a correspondência foi restabelecida, porém o discurso utilizado era muito diferente das primeiras que leu. Se antes as palavras carinhosas eram escassas e o valor era centrado ao tema principal das cartas, a que tinha nas mãos era oposta às últimas. As palavras de carinho eram maiores do que o interesse literário, tinham sentimentos, acima de tudo, sentimentos de amor e saudade.
Depois da morte do pai, finalmente, descobrira que o seu exemplo de virtude não era tão virtuoso como ele o imaginava ser. Seu pai, durante toda a vida de casado, teve uma amante. Uma mulher a qual jurava amar e esse amor era completamente diferente do que destinara a sua mãe, era nítido que o sentimento entre ele e Paula era muito mais forte. Pôde enfim descobrir por que a entrada no escritório era proibida. O fascinante quadro, aquela belíssima figura, era Paula, sua amante, por isso não permitia a entrada de Elizabete e de mais ninguém que pudesse ameaçar sua dupla vida. Ninguém poderia afirmar com absoluta certeza quem era Charles, homem de pensamentos misteriosos e ações suspeitas.
Jean lia ininterruptamente as cartas, enquanto carregava a bateria do pequeno telefone celular.  Adormeceu poucas horas depois, deixando a cabeça cair sobre a mesa.
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 05/05/2006
Código do texto: T150655

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Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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