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Ardência num abolerado a dois



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Ardência, num abolerado a dois

Cidadã pacatíssima, franzina perseguidora do ditado “os homens são todos iguais”. Era Ardência, por quem Olegário vivia um verdadeiro frenesi passional, desarmado. Se Ardência chegava  naquele passinho rápido e macio, num descontraído mexer de ancas, virava cochicho geral: ___ Em carne e osso, é ela Ardência!
Realmente azeitava todo tipo de fantasia, deixando entrar o sol ardente que aquece, doura e colore os sonhos. Verdadeiro teto-solar. Acrescentaria mais, nem muita carne e muito pouco osso de contrapeso, medida certa, e arriscaria sem medo de errar: Ardência ardia!
Verdadeira seqüência de bem, mal, quer, não quer, provocando desejos de engatar ré, voltar o velocímetro, zerar, retornar, como no Princípio o Verbo amar.
Ardência, começo de muita paixão. Debaixo do dourado dos seus óculos escondia seus sonhos, que quando alegres pareciam time entrando em campo, ovacionado e espoucado, mas se tristes, era time depois de engolir uns cinco a zero. Olegário andava em seu encalço, e mais tentasse, tudo em vão, pouco conseguia, porque ela parecia um país vizinho, de difícil acesso. Mesmo assim, não descartava Ardência.
As comadres, sogras, más línguas enfim, falavam dos três amores de Ardência, isso sem contar o de Olegário, solitário e escondido, porque este não entrava na estatística, seu crediário com ela não era nem um pouco facilitado. Verdade verdadeira, Ardência nunca desfraldou bandeira para ele, que ficava com uma vontade enrustida na garganta, de dividir, e resolveu buscar conselho num amigo, já que diziam: amigo é pra essas coisas.
___ Acho que ela não sujaria as chuteiras por sua causa! Seca foi a resposta.
Olegário chegou à conclusão da inutilidade de pedir conselhos, porque amigo não era como animador de auditório em domingo de T.V., sempre disposto a promover casamentos, noivados e outras recreações, colocando pimenta onde é possível, tempero onde se faz necessário, incentivando e dizendo:
___ Entra de cabeça! vai com tudo marmanjo!, não se esqueça que mulher, piada, fofoca e caneta Bic não tem dono!
Nessa época do one-way, Olegário não descartava a possibilidade de Ardência, e um dia arriscou: embrulhou em celofane um presentinho do tamanho de um sabonete e mandou a ela por um moleque. Um risco e esperança, pequena, do polegar ao indicador, não mais que isso. Juntou um bilhetinho para identificar-se, porque tinha consciência dos amores de Ardência. Bilhete simples, pouco e sincero: que uma bomba Napalm estourasse na mão de um pretendente, e num passe de bruxa, o próximo virasse laxante, desobstruindo sua passagem. Embrulhou sem constrangimento, porque achava que bilhetinho era como OVNI, um vê, e se contar ninguém acredita.
Embrulhou-se na esquina, na espera de um sinal dessa trajetória cheia de curvas de Ardência, com frio na barriga, imaginando os cabelos  longos, negros e fartos. Sentiu toda sua fragilidade quando o menina voltou sem um sinal verde. Olegário não desanimou,  lembrando do animador de TV como alento:
___ Vá de cabeça, marmanjo! E pensava:”e vou de cabeça, porque a humanidade ganharia muito mais, se num futuro próximo, numa marmelada qualquer, acontecesse o encontro de Ardência, num abolerado a dois, comigo”.
E permaneceu nessa certeza de que qualquer outro conselho mofado e cheio de reticências, nada mais era do que um vestido de noiva, que não repete mais a cena e vai pro baú.
Olegário ia afinando o seu sonho, de ouvido, e em sua imaginação tateava o corpo de Ardência com suas mãos nem muito rápidas, também nem muito lentas. A impressão era de que em seu sonho tateava o corpo, como ele pedia.
Ensimesmado, nesse momento parado, pensava Ardência como um estado de graça, e se saía de si, voltava a lembrar do animador de TV. Não ia desistir e disso era testemunha.
.............
Sexta, o coração de Olegário dava pulos, ensaiando combinar os ingredientes. Pois é, pensava: como ficam íntimos um pé de porco, paio, calabresa, no caldo grosso do feijão. Preciso misturar meus ingredientes para despertar-me, porque como se desperta um se desperta outro, se paladar é sensível, eu, sensual. É sexta, não vou querer ficar no desamparo. Never! Se pensam que lidam com pó-de-traque, vou mostrar que lidam é com nitroglicerina, e assim desafio esse marasmo, crio clima de fascínio, porque Olegário que se preze não fica parado e deitado, salivando hormônio
em cima de página de revista.
Coisas de tarô, Olegário estava com astral mais alto que dólar no paralelo, quando de repente o telefone toca:
 Vamos!
Uma proposta, e vinda de quem veio não era caso de pensar, sim de agarrar.
___ Vamos! Era Ardência. Olegário satisfeito e excitado.
Um “vamos”, pode significar muita coisa, ou coisa nenhuma, talvez uma transa, e aí!
Transa-se na escola, ao compasso de um teorema, e Olegário então, crescido e vacinado! Na cabeça de Olegário formava-se uma confluência entre vamos e transa, o que seria? Bom papo, joguinho de batalha naval, martini com amendoim, cineminha das oito...estava eriçado. Ao seu lado um vasinho de flor balançava os galhos de satisfação, surgia assim o grande momento da sedução.
___ Está mais do que ótimo! Claro! Vamos!
___ Certeza? dizia Ardência.
Incerteza, o começo de uma paixão, porque as duas caminham juntas, como o arame e o equilibrista.
___ Brilhante idéia! Vamos! confirmava Olegário.
E foi, disparado no “vamos”, abolerado a dois, com sua cabeça modelando a geografia de Ardência, como argila nas mãos do artista, alisando, arredondando, polindo tudo que fere. Uma festa dentro de Olegário, com o coração balançando mais que fusquinha 61. Tudo no capricho!, pensava. Usou bico fino, paletó, gravata, encheu o tanque do carro, encheu o copo de uísque e gelo, brindou, tomou e foi lá.
Como chofer de madame, desceu, abriu a porta, ela entrou e Olegário corou de emoção.
Ardência, coque no cabelo, saia cortada do lado mostrando as pernas, e os dois naquela conversa entrecortada de está frio, faz calor, chove não chove, um noticiário meteorológico.
___ Chegamos, é aqui! disse Ardência.
Foi um pique só. Boa noite, prazer, uisquezinho rolando, música de teclado e Dolores Duran é o que ouviam: “como esse bem demorou a chegar”. Olegário foi chegando como se chegasse num bombom cherry, cuidadosamente, para provar sem escorrer o mel. Tocou o braço de Ardência, ela entendeu.
Dançaram. Dançaram enchendo suas fantasias e sonhos, de algodão doce.

.............
Domingo. Tudo certo. Ir à casa de Ardência. Sentia tudo saindo muito bem, e pensava:”tudo muito biutiful, poético pra cacete”. Olhou, sondou, achou o número: é aqui! Pura emoção, estava cansado de saber que era lá, e deu dois toques para ficar marcado: “dois toques sou eu”. Pensava uma cena de impacto, afinal precisava agradar, a primeira impressão é que fica. Tão simples e tão complicado, vou na maior camaradagem, porque se não me conhecem como Saudade de Matão, de rabo de olho já me viram umas três vezes.
A cabeça ia disparada. Se me perguntarem:___ Molha a boca? Só água, vou dizendo logo. Pena não ter trazido guarda-chuva, impressiona.
___ Carinha prevenido esse Olegário! diriam.
Um senhor veio até a porta, e Olegário todo simpático:
___ Boa tarde! Como vai o senhor?
___ Quem é o senhor?
Desconcertou, pois era o pai de Ardência, e que lembrasse, o havia visto umas três vezes. Misturava tudo na cabeça de Olegário, mas como sempre nas horas difíceis, partiu para brincadeirinhas, a fim de dar tempo ao tempo.
___ Sou Lugar-tenente de Virgulino, trago recado urgente pra Maria Bonita!
___ Tá falando em tequinicolor ,seu moço, quem é Virgulino?
Olegário estava aflito. Problema de “semancol”, tá gozando minha cara, não desisto, vou dar canseira.
___ Virgulino, meu senhor! Capitão Virgulino, conhecido por Lampião, pô!
___ Esse dobrou o cabo da esperança faz tempo, vi na Globo, e aqui não tem nenhuma Maria Bonita.
Olegário suava, sem saber qual rumo a seguir, e pensava: puxa vida, tem momentos que pouco estou me lixando, mas esse! Me aprumei todo, banho de perfume, respirei fundo, gotinhas de hortelã, coração tranquilo, e continuando nesse papo vou precisar acionar meu projetinho explosivo, meu alarme pra saco-cheio, aí ou mela ou vem a concórdia.
Olegário não estava com coragem para isso, resolveu pela trajetória da linha reta, atacar sob pressão.
___ Meu senhor, estou mais é querendo ver Ardência! Ardência! O senhor já ouviu falar?
___ Claro! Faz tempo! Ela até já fez xixizinho no meu colo, deixou minha mulher com barriga nove meses. E aí?
A testa de Olegário toda molhada, e se oferecessem uma cervejinha gelada, virava a tulipa, e indignado pensava: depois de xampu, bigode aparado, secar o vidro de colônia, queria ver Ardência. Ela disse que era tocar e entrar, e eu aqui discutindo o xixizinho no colo e a gravidez de sua mãe. Que adiantou talquinho antiperspirante com um papo desse, que mais parece banho-turco?
De repente. ___ Desculpe, pai!, que estão fazendo aí, manda o moço entrar.
Era Ardência e pronto, Olegário ferveu, queimou pôr dentro. Aquilo parecia conto do suadouro, porque o pai esquentava e Ardência fervia.
___ Ô pai, não reconhece Olegário? Já sei, está sem os seus óculos.
Ela veio sorrindo até o portão, como um Querubim. O sorriso de Olegário estava mais amarelo que a diarréia da menina Ardência, que o pai não chegou a contar.
Olegário entrou no céu. Sufoco, pai sem óculos.

...........
Com muita água-de-cheiro, num macio aveludado de lima da Pérsia, radiantes, faiscando de prazer, vão indo no maior convite aos cochichos, Olegário e Ardência, essa maior erupção vulcânica.
Quer mais? Outro flash de Ardência? Pois é, nessa noite multicor, pôr trapaça da sorte, tenho máquina, não tenho filme, e fica impossível um flagrante para projetar.
Vou tentar o recurso sinuoso e resignado das palavras, apimentado, açucarado, sei lá, filtrando no possível do meu coador melita, mudando tom, não deixando escapar nada dessa lembrança aveludada, contando do circunstancial na maior fidelidade.
Ardência está aí, esbanjando talento, inspirando-se em Olegário, sem petulância, porque paixão é assim mesmo, o maior troca-troca de exaltação.
Sem exibição, vão eles espalhando sorriso, jorrando ternura, nesse festaço da vida. Ela cheia de luminosidade e sonoridade, “pimentinha ardente”, como a chama Olegário, seguindo com ele no seu crepúsculo, com aquela cabeleira negra e farta, olhar miúdo e cobiçado, ancas sinuosas que só ele pode alcançar.
Olegário tem sua alquimia, Ardência tem a dela, e juntos a maior implosão, primeira e última dose, vão se ganhando no brindar, frente a frente, cara a cara, num flash real, como o outono que desvela as árvores, deixando-as desnudas de folhas, mostrando todo seu contorno.
Transparentes, nada a esconder, cartões perfumados, alimentando a grande ilusão de viver.
Ardência e Olegário, pincelada de mansidão, que não dá nesse flash para emprestar ao mesmo tempo, ciúme e poesia, encanto e imaginação.

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( Miro Camargo )
Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 07/05/2005
Código do texto: T15315
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
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