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Doidinha calibre 28

vTítulo:Doidinha, calibre 28
Dando linha ao pensamento artesanal, indo e vindo nesse universo que vai do imaginoso ao palpável, tecendo a trama, explorando a extravagância do sonho, na nítida impressão que vai se materializando, naquela “grandeza mais enorme de grande”.
Costurando o fio do cotidiano que não tem nada de lógico, com a linha dez do fantasioso, deixando a realidade complicada se descomplicar.
Chega pra lá, deixa eu ir descendo essa escadaria toda bem devagar, pra não dar cãimbra.
Comboio estava lá naquela birosca com o Cabeça-Branca, lembrando com saudades daquele tempo em que “eram velhos”.  Maior prosa, falavam do tempo em que tomavam uísque importado, vinho encorpado verde, que deixava no copo um rosário de bolinhas efervescendo, como um colar. Agora - como brincam -, “mais moços”, ficam no chopinho gelado sem grandes extravagâncias, conservando um sorriso maroto, à espera de alguma “doidinha cheia de mumunhas”, do tipo “saúde-premiada”. Coisa de adolescentes.
A birosca lotada, parecia final de campeonato, e pinta na mesa de Comboio aquela “doidinha”, signo de carneiro, altamente consumível. Tipo peixe-morre-pela-boca. Chega o garçom com o cardápio, ela o toma nas mãos, passa os olhos de cabo a rabo e divertida diz:
___ Não boto objeções a nada!
Comboio, Cabeça-Branca e Doidinha, na maior animação, passavam a limpo toda e qualquer história de amor: amor filial, amor paternal, amor matriarcal, amor conjugal, amor livre, amor secreto.
Comboio entrecortava com perguntinhas, tomava a bola em rápidas jogadas e ficava quieto.
___ Que qui é ? perguntava Doidinha.
___ Nada, nada! Comboio exclamava.
Nadinha coisíssima nenhuma, ela já estava percebendo no “flagra” aquela mistura dos sentidos, porque ele ouvia e olhava, olhava e ouvia, admirava sua beleza e corava.
___ Que qui é? ela voltava a perguntar.
___ Sabe, _ respondeu-, fico desesperado na minha incompetência quando vou chegando perto, e se você quer saber mesmo toda a verdade, eu acho que toda sacanagenzinha, todo mau pensamento, deve ser precedido de uma Ave-Maria, Pai-Nosso, Credo e Salve-Rainha.
Ele estava precisando achar o tom, aquele tom musical que o momento exige: reflexivo, discursivo, polêmico, lírico. Optou pelo tom coloquial:
___ Oi! Sabe que eu tenho horror a aglomerações? Chega aqui mais perto, ô Doidinha envenenada!
A vida é sempre feita de ocasiões, situações, previsíveis ou não, só que essa parecia saborosa demais, temperada, picante, diante daquele artesanato, e sorveu o doce, deixando correr o gelado que arrepia a nuca e falou:



___Menina bonita,
vem brincar comigo.
Conheço um  joguinho
muito divertido
e sei que vai gostar.
Menina bonita,
calibre 28,
conheço esse jogo
desde o tempo de rapaz,
e é ainda meu jogo favorito.
Joguinho de mistérios,
claro que sem esses mistérios dolorosos
das estações da vida.
Ele começa na estação
dos mistérios gloriosos,
e a quem chegar primeiro
cabe a glória de um desejo.
Daí pra frente, tem as estações desejosas
dos mistérios fogosos.
Menina bonita, calibre 28,
brinca comigo.

Comboio  ia feliz, e planejava tudo para o primeiro dia de pagamento, e dizia:
___ É nele que estamos com força total, tudo certinho, não faltando nenhum acessório: grana no bolso, coisinhas assim-assim, e se deixarmos passar do primeiro, mela tudo, porque ordenado é como menstruação, demora trinta pra chegar, mas em quatro acaba.
Estava tudo completo, não faltava atração, um verdadeiro coquetel, mistura de emoção, disposição, humor, grana, bigode aparado, banho de cheiro, projeto das arábias.
O caderninho preto de Comboio, que representava a mais pura e rica condensação da mais variada aventura novelesca estava ali, para a hora do grande suspense, pois a escolha ia de “A” até “Z”, sem escapar o ipsilone.
Era completinho, do “A”de Auxiliadora, um avião pronto para decolar, morena que fazia justiça ao grande provérbio latino “nunca deixe para amanhã o que pode comer hoje”, até o “Z”da Zildinha, aquela inocência pura.
Questão de latitude ou longitude, sei não, só que do “A”ao “Z” fica enorme a diferença.
Se era o “A”de Auxiliadora, a endiabrada embarcava, oi-oi, mascando goma, girando o botão do som até o último, provocando maior agitação, junto com Comboio que ia comendo aquela zueira capaz de capotar qualquer um.
Talvez questão de fuso-horário, na mesma hora, mesma condição, outro dia, Zildinha, morna e mansa, embarca com generoso beijinho, revelando quase nada, pedindo licença, e tirando da bolsinha um K7 que toca Vivaldi, coloca no “tape’, baixinho, suspirosa.
Embalagem por embalagem as duas empatam, prontinhas para presente.
Comboio pensava na escolha, costurando a fantasia: um bom negócio é aplicar com renda pré-fixada, porque assim vou sabendo qual é o lucro final. Colocou o cacife no “P”de Pérola e deixou o dadinho rolar, pensando: poeta que é poeta vê em Pérola um episódio de ficção no real, conduzindo a mais inesquecível viagem.
Esse caderninho não falha, e essa doidinha, Pérola, barroca e bem elaborada, com seu lado lúdico estimula qualquer imaginação. É dessa safra que deixa qualquer um ancorar no reino da fantasia. Telefonou, dizendo a ela:
___ Vamos transar programinha tipo “feira-da-solidariedade”, alguém precisa de você? Do tipo computador, não precisa falar, escutar, discutir, apenas seguir a bula?
Pérola, doidinha calibre 28, com aquele humor poético de quem sempre jogou nas “diretas-já”, aceitou e arriscou brincando:
___Que tal ir um pouco além, por que não um programinha tipo vôo alto, asa delta?
Foi assim. Pérola , cheia de entalhes e detalhes era aquela temperatura de verão praiano. Depois, um oásis de satisfação.
Para Comboio, depois disso, ficava fácil encarar os outros vinte e nove dias de deserto, com aquele sorriso de humor satisfeito, não humor de doer a barriga e dar indigestão, mas com aquele sorriso sexo-afetivo de carne e osso.

...........

Comboio pintou, bordou, doidinha calibre 28, pouco mais, pouco menos, pouca importância havia. Doidinha é doidinha, Comboio, nem tanto.
Todos discutindo coisa séria. Falavam de malte e cevada no mercado consumidor, entendidos como são nesse negócio que é da maior inutilidade prazerosa da vida, a cervejinha gelada.
O filão era um sem-fim: bom-humor, piadinhas bem temperadas, carne, tira-gosto e futebol com rádio-caixotão, tudo como diziam: “muito biutiful”.
Todos nessa de nem-te-ligo, que a vaca -vá-pro-brejo, empurrando a geladinha. De repente enxergam um retardatário, passinho manso, cabeça baixa. ___ É Comboio, exclama o Cabeça-Branca. Parecia até preguiça, mas não era não, era coisa séria.
___ Destranca esse mistério, ô Comboio! É câncer? -- era a maior zueira do Cabeça-Branca, chacoalhando a caixa de papelão com tampinhas, enquanto enchia mais um copo.
É bom que se explique: tem sempre um mestre em tampinhas, que é nomeado para a noite, com a finalidade de contar as tampinhas. Ele abre e serve as cervejas da noite e, no fim, divide o prejuízo irmanamente, sem prejuizo pra ninguém.
Comboio se derretia todo e todo mundo estava querendo entender o mal-entendido, com cuidado, porque dava para perceber o negócio: alta-tensão.
Comboio pálido, pegou um copo, sentou, olhou olho-no-olho de cada um e falou baixinho:
___ Olhem bem aqui na minha cara! Psiu! Boquinha de siri, tá! Vou falar aqui entre nós, mas primeiro jura todo mundo em cruz, dá três beijinhos, senão jogo a toalha no ringue, dou a luta por terminada e nem-te-ligo.
___ Coisa séria essa do Comboio: jurar assim é como “botar a mãe no meio”, disse o Cabeça-Branca.
Mas, o que fazer? Tem momentos na vida que não dá para explodir um “qual é!”. Depois de passado e sacramentado o juramento, Comboio continuou:
___ Tive momentos de raro frenesi, do tipo “oliudiano”, eu e aquela doidinha da gema, nós dois, a endiabrada e eu, mais parecendo um Festival Internacional da Paixão.
___ Xíi! Tô sacando essa sua malparada vida. Entra logo com estricnina, bota o dedinho três vezes por dia no buraquinho da tomada e leva choque, porque jogo duro taí.
Era a primeira sacadinha-filosofal, misturada com malte e cevada, e o Cabeça-Branca parecia adivinhar, porque outras vieram.
___ Ô Comboio, toma essa unzinha, porque vida assim não dá mais meia-sola!
___Tira o time, exagerou na dose, foi com tudo e trombou na curva!
Era assim: cada um dava a sua sentença, e para cada uma um brinde, e iam juntando as tampinhas na caixa de papelão, até o fim da noite.
Comboio ia dizendo: --- Não estou consultando ninguém pra vasculhar como detetive a minha vida. Não estou precisando de lupa dentro da minha cabeça pra saber  que jeito está, e depois tirar de letra sacadinhas maliciosas. A verdade é que está doendo tudo aquí dentro, está difícil até de descer as coisas, parece que comi pão seco. Acho que estou na latrina. É isso aí ô cara: fossa! Também, tanto faz, é tudo a mesma merda. Estava querendo bancar o homem-de-ferro, mas no fim estou como ferro-fundido e mal pago.
Nessa altura estava todo mundo de copinho na mão, esquentando a cervejinha, porque Comboio estava numa pior, desenrolando seu desgosto.
___Estava danado pela doidinha, até que ela abriu o jogo e sacou: ___ Pra mim tá legal, só que faz tempo saí dessa de Papai-Noel!  É mole a gente ouvir aqui no pé-da-orelha essa da endiabrada? E a desabusada foi mais longe ainda: disse que possuía pequeninas fraquezas por fruta madura, mas não durava muito, porque madura cai do galho. Estão percebendo a doidinha? Eu estava pior que saco vazio, não conseguia parar de pé. Como falou? Se conheço ópera? La Donna è Mobile? Ô cacete, estou falando da endiabrada, aquela coisinha que conhece toda geografia do sexo-forte, e sabe brincar com suas fraquezas, agora vem esse aí com papo de ópera!
Estou falando sério, vê se entendem: doeu pacas! Doidinha da gema é aquela graça que aumenta o sabor de viver, a maior parafernália que botei na mão, e querendo é capaz de tirar fácil-fácil o gosto amargo das coisas.
Afinal, estava nessa roda de samba pra ser destaque e não pra de repente virar “coisinha significativa”, que deve ser guardada com muito cuidado. Pô! Minha cabecinha estava acelerada, partia com prazer-prazeroso, ia até o prazer-obscênico e sem mais-mais foi enquadrada no prazer-senil. Isso mesmo! Ela dizia que eu era “coisinha significativa”. É mole virar camafeu? Tenho cara de baú, traça, naftalina, relíquia, museu?
Como você disse? La Donna è Mobile? Devagar, ópera outra vez? Que é ?  Se ela é volúvel? Bota coisa aí! Escutem só: todo fim de semana íamos ao parque fazer cúper, no maior piquenique da história. Ela corria, cabelos soltos, eu corria atrás dela e ela corria. Eu de língua de fora, esbaforido, suando camisa, porque veja bem, preparo físico estava lá com doidinha, naquela resistência  do tipo nupcial. Depois ela sentava na relva fresca, toda sinuosa, com aquele suor que refletia muita luz, enquanto eu, estraçalhado e com o coração na boca, ficava com o corpo inteirinho molhado. Doidinha com aquele sorriso-pérola, sugeria copinhos e mais copinhos de água-mineral. Fácil, fácil, eu mandava ver. Só que nessa você tem que ter muita bexiga pra agüentar essa correria toda e ainda toda mineral. Barriga assim não agüenta nada, sem contar que  sem outra ela levantava-se dizendo:
___ Não afrouxa não, porque estamos voltando!
E, aquela promessa arfante e gloriosa, corria, corria, e eu, tanque cheio de tanta mineral, era uma idéia só: fazer xixi. Queria mais é que fosse tudo por água-baixo, só pra aliviar. Sei não , se não era marotice de doidinha.
Mas paixão é paixão, e eu não estava nem aí, topando tudo, no maior jogo de cintura, só que estava faltando pra mim jogo de espelho, porque nesta altura estava ficando anêmico.
Estou dizendo: descalcei a bota. Estou precisando de um banho de ervas, quebra-paixão, rompe-sonho, porque nessa travessura toda a minha travessura vai terminando pagã, direitinha pro limbo.
Mas, vou continuar procurando a tal felicidade. Não precisa ser oráculo pra ver que essa disputa é concorrida e poucos os eleitos.

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Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 07/05/2005
Código do texto: T15317
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
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