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Reflexos de uma mulher I

               Faz tempo que não nos falamos. Sei que não pensa em mim. Nem sente minha falta. Não lamento, nem faço críticas. Mesmo que não acredite, compreendo você. É provável que, em seu lugar, também procurasse esquecer o passado. Mas tenho coisas a revelar. Sinto necessidade ainda de lhe confidenciar sentimentos. Como a distância se fez entre nós, escrevo essa carta. Quem sabe, assim, me faço ouvir, impondo-me em palavras escritas. Você me conhece muito bem, saberá ler nas entrelinhas o que não direi aqui.

               Não somos mais a mesma. Ainda assim, você preservou em si algo de mim. Isso não pode negar. Reconheço-me em você, quando cruzamos nossos olhares, inadvertidamente, em algum espelho  esquecido no caminho. Vejo. E me surpreendo. Não tivesse conseguido desvencilhar-se de tudo que sou e represento seria hoje essa mulher? Essa fêmea apaziguada em seu próprio ser e sexo? Dona e senhora de seus atos? Ouvinte atenta dos próprios pensamentos?

               Especulações, somente especulações. Perguntas para as quais não tenho, e sei que não me dará, respostas. Nossa separação foi conturbada. Passional. Dolorosa. Como são todos os fins de caso entre aqueles que, por muito tempo, foram um só. "Uísque, dietil, diempax" (1), resumiram Aldyr Blanc e Sueli Costa. Não foi diferente conosco. Sentia você distanciar-se, cada dia um passo. Um passo de cada vez. Passadas lentas, mas inexoráveis. Um caminho sem volta. Sentimento enlouquecedor esse de pressentir, que perderemos o objeto do nosso amor - nossa obsessão. Para mim, sinônimos. Para você, antônimos. Nossa incompatibilidade maior.

               Não tive escolha. Era assegurar minha posse sobre você - submissa, dócil, resignada - ou perder-lhe para sempre.  Eu, deliberadamente, levei você  à beira do precipício. Esperei que a tentação do vácuo lhe seduzisse. Fui sordidamente cruel. Homicida e suicida. Da pedra, sentada, espicacei-lhe o orgulho. Aniquilei seus brios.  Destruí sua auto-estima. Reduzi a pó sua dignidade. Roubei sua identidade. Devastei sua vida. O que lhe restara, então? Nada. E, nada sendo, seria eu.

               Não lhe dera alternativas. Em minha suprema arrogância, pensara ter fechado todos as saídas desse seu espírito indômito. Trancado todas as janelas dessa sua alma altiva, insubordinada por excelência. Aniquilado forças e caráter. Enfim, você indefesa e cativa. Para sempre encarcerada em nós. Companhia? Apenas do Desespero, misto de algoz e parceiro de cela. Visitas? Só da Aflição, Ansiedade e Angústia - primas-irmã do Desvario - irmão-gêmeo da Desesperança. E eu, dona dos cadeados e correntes que lhe prendiam a mim. Finalmente, sua carcereira. Senhora absoluta do que em você não era eu.

               Sem fuga, teria de optar entre mim e o abismo. A loucura não lhe serviria de consolo, pois somos una - eu e a insanidade. Faces da mesma opressão. Por anos, você resistiu. Debatia-se. Rebelava-se. Procurava criar algum meio de escapar da clausura que lhe impus. Assisti, indiferente, você sangrar nas inúmeras  tentativas de escavar um túnel para a luz, em meio a nossa  escuridão. Não me compadeci do sangue que vertia de suas mãos ou do suor que lhe banhava corpo e rosto, produtos desse esforço vão. Você era minha, éramos nós, supunha eu. E isso me bastava como lenitivo para o que em mim restava de consciência.

               Admito: saboreei cada chaga aberta, cada nova marca ou cicatriz, fosse em seu corpo ou sua alma, como atestado do meu triunfo. Cada derrota sua, uma vitória minha. Era a reafirmação de meu poder sobre você. Eu prevalecendo em nós. Venci. Por anos seguidos, eu venci. Comemorei cada vitória, como fosse a primeira. A única. A última. Tanto mais se distanciava da parte de nós que não era eu, mais me regozijava. Quanto mais chafurdava no delírio, mais segura me sentia. Quando lhe pensei exausta, vencida, conformada na derrota, você escapou.

               Por qual desvão do espírito, imperceptível para mim, você encontrou saída? Donde tirou forças? Onde buscou ânimo? Como não senti em mim sua sorrateira fuga? Sofri, eu sei, da cegueira que ofusca a visão dos insolentes. Você se refez, é certo. Lentamente. Pouco a pouco, dia a dia, sob meus olhos cegos. Tão convicta de minha hegemonia em nós, não atentei para os sinais evidentes de sua regeneração. Renovada, partiu. Levou consigo o melhor de mim.

               Observo seu andar compassado, sem pressa. Evidência de quem se reconciliou com a vida. O Tempo foi generoso com você, percebo. Recompensou-lhe. Devolveu a sua silhueta a leveza e agilidade, que os anos passados em cativeiro lhe roubara. Cabeça erguida, sobre um pescoço de Modigliane, observa seus horizontes. Pondera, avalia, decide. Resolvida, deixa vir à tona partes de mim que, meticulosamente, escolheu. A minha determinação está em você. Incorporou a minha obstinação como arma para alcançar o que almeja.

               Sei e sinto que fui perdoada. Pois só o ato de perdoar-se desanuvia a face, descerra o cenho. Não mais olhos nublados, opacos. Em seu lugar, semblante calmo, olhar límpido. Sou, apenas, uma lembrança. Uma má recordação. Perdoada, mas não aceita. Em parte incorporada, mas não admitida em seu convívio diário. Vejo tanto de mim em você! Mas em mim, nada de você ficou. Deixou-me apenas a solidão. Agora, só lhe vejo em instantes fugazes, acidentais. Quando, por acaso ou destino, esbarramo-nos em um espelho qualquer esquecido no caminho.

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(1) Verso da canção Altos e Baixos.
Simone Salles
Enviado por Simone Salles em 08/05/2005
Código do texto: T15562
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Sobre a autora
Simone Salles
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil
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