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DATA MARCADA

Eram quase cinco horas de uma tarde igual a tantas outras tardes. Tardes nojentas. Cinzentas. De horrível gosto. Deixaram a comida no chão, como sempre. Água, um pedaço de pão. Menosprezo de sobremesa. Nas paredes,  umidade. Vertidas em quantidades. Pareciam até estarem sensibilizadas com minha dor. Choravam. Meus ossos enfraquecidos já não mais queriam manter-me em pé. Aposentaram-se. Frágeis, passavam dias e noites enterrados em minhas carnes. Passei anos ali. Às vezes atiravam-me em um tanque onde havia mais limo que água. E gostavam. Assistiam implacáveis ao meu banho. Eu, aprendera a gerenciar-me. Sabia onde colocar minha raiva, minhas mágoas...Aprendi involuntariamente a manter-me exausto. O banho agora era diferente. Houve dias em que anestesiado, dele jamais quis sair. São banhos passados...Banhadas minhas feridas tal qual minha alma, gemiam dilaceradas. Cresciam em mim por todo lado. Talvez quisessem solidárias visitar meus ossos, mais nada. O cheiro do lugar era desumano. Dormia mal. Sobrevivia rodeado de medos e alheio a tudo, mantinha-me lá, desprezado. Quando acordava, meus braços franzinos permaneciam dormindo, calados. Para distrair minha palidez, desenhava. Minhas obras enfeitavam meu próprio olhar. As linhas, ângulos, figuras...os desenhos registrados, descreviam meu pensamento aprisionado. Aquele desabafo era todo meu. Era meu espaço. Era a arte de minha hedionda dor, grifado, grafitado. Ali, naquela jaula, mesmo o mais são, ficaria com o cérebro transtornado. Tivesse eu material, pintaria, mas sentia-me esgotado. Puxei o prato para mais perto e, encostado à parede comi os restos do que havia encontrado. Senti saudades do gosto da pasta de amendoim que adorava. Fechei os olhos então buscando nos porões de minha memória, além do gosto, o cheiro. Fiquei assim por um momento. De onde estava, podia ver preso à parede aquele velho relógio que metódico me espiava. Faltava quinze minutos para a boa hora do dia. A hora em que tomava minha aguada sopa. Era momento de celebração. Hora de economizar o que restara de meus dentes. Permaneci ninguém por mais um par de tempo e saudoso relembrei da única vez que recebi uma visita. A visitante cheia de medos, olhava-me gelada. Fizemos um pacto de amizade e tirei-lhe uma parte da cauda. Pronto. Estava batizada. Nós duas conversamos em voz baixa por um longo período de tempo, até, que num único soluço, pude ouvir sem misticismo o que já há muito aguardara...
Despedi-me, e na jaula ecoou a gasta voz daquele velho padre que me esperava.


Maira Knop
Enviado por Maira Knop em 22/05/2006
Código do texto: T160485
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Sobre a autora
Maira Knop
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 58 anos
26 textos (1177 leituras)
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