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CAÇANDO TATU


A caçada de tatus tem uma particularidade interessante, pois não se usa arma de fogo e, na maioria das vezes, somente foice, facão ou cacumbu. Geralmente os caçadores visam pegar o bicho vivo, tirando-o da toca.
Somente caçavam à noite, aguardando uma bem quente e de lua cheia, para facilitar a locomoção pelos morros e matos. Sempre levam um ou mais cachorros a fim de encontrar o esconderijo mais rápido.
Os tatus são bichos de hábitos noturnos e se alimentam de insetos e raízes. Durante o dia ficam dentro das tocas por eles cavadas na terra. Nunca habitam furnas de pedra e geralmente cavam os buracos próximos ao lugar onde abunda alimentação. Não são bestas e já aprenderam nesses milhões de anos que vivem sobre esta Terra que estando próximo da boia poupam energia na procura do alimento e a fuga é facilitada com a toca não muito longe deles, já que não são nenhuma maravilha em uma corrida à frente dos cães.
É muito difícil que um cão pegue um tatu correndo pelo mato. Geralmente eles o localizam já dentro das tocas e ficam acuando, tentando escavar a entrada do buraco, movidos pelo seu instinto e faro aguçados. Qualquer caçador experiente saberá interpretar o latido e saber se há algum na mira.
Existem alguns métodos para tirá-lo de lá. O mais usado é cavar bem adiante e na mesma direção do buraco feito pelo bicho. Deitado com o ouvido colado ao chão o caçador ouve o ruído da sua escavação debaixo da terra e pode precisar onde cavar. Geralmente não erram neste cálculo.
Outra forma é fazer uma cerca de bambus com lascas de um metro de altura, em média, e cercar a entrada do buraco, de tal modo que esta cerca forte ficasse exatamente com o mesmo diâmetro do orifício de entrada. Enche-se de terra seca a furna do condenado até a metade daquele túnel de bambus postado na vertical. Pode ir pra casa. O bicho quando percebe que está fechado lá dentro, cava a terra colocada e a joga para trás até atingir a superfície.
Chegando lá, ele se vê dentro daquela cerca justinha ao diâmetro do seu corpo. Para trás não pode ir, o buraco está cheio de terra e ele não consegue virar-se para cavar de volta e procurar outra saída. O jeito é ficar ali esperando o caçador vir apanhá-lo.
Também é possível retirá-lo enchendo a toca com água. É o tipo de caçada menos usada porque tatu que fez buraco perto de água fácil já ficou a milhões de anos para trás. A evolução não brinca em serviço e tatu burro já era e se estão aí, sem dúvida, porque aprenderam muito bem a lição e não vão fazer a besteira primária de cavucar tocas perto de rio ou o que o valha.
Mas o Zé não era um caçador de tatus. Era o campeiro lá da fazenda. Subia aquele morro em direção à matinha porque a vaca Sabaúna amoitou a cria. Ela sempre fazia isso e em todas as vezes que paria, ele já se preparava para procurar o bezerro escondido. Por vontade própria, sua cria nunca apareceria no curral.
Junto foi o Fuzil, cachorrinho sacana, muito esperto. Zé sabia que não devia levar cachorro para procurar cria de vaca parida, mas como evitar que aquele danado o acompanhasse? E, com seu faro, achou uma cova fresquinha de tatu. Pelo aspecto, qualquer bobo por lá saberia disso, aquela cova fora aberta àquela noite e estava rasa, pelo volume de terra do lado de fora. O Tatu estava ali pertinho e o Zé ficou tentado.
Canja demais. Chance dessas não se perde. Zé ficou de cata-cavaco e enfiou o braço. Nada! Deitou no chão e se espichou todo, quase enfiando o lado direito da cara na terra e encontrou o bicho. Travou-o pelo rabo e puxou. Cadê que saiu! Numa situação desta, o tatu encolhe-se e as garras e as escamas do corpo impedem que o corpo seja puxado para trás. Olha! Forçou tanto que até fez calo de sangue na mão, ralou peito pescoço e a cara quase toda. Não conseguiu e largou pra lá. Não era do ramo, se via.
Chegando daquela maneira o pessoal achou que a Sabaúna teria dado uma esfrega regrada no pobre Zé. Mas ela não era disso; tinha ciúmes da cria, mas não era de pegar tão forte assim. Depois de contar a história, a comadre Maria que estava, por acaso, lá na sua casa quase desmaiou de tanto rir:
- Mas compadre Izé! Ocê ainda num sabe como é que tira tatu da toca, rapaz? Ocê puxa pelo rabo dele forte como ocê fez e enfia o dedo no furingo do bicho. Ele treme tudinho, depois afrouxa, fica mole, esquece de enfiar as garras no chão e ocê tira ele pra fora. Facim, facim! Argum deslavado ainda vem com a cara mais safada do mundo e virando os zoinhos, num sabe?
- Ieu num sei de nada, não sinhora! E se for de precisão ieu enfiar o dedo lá nele onde a senhora falou, ele vai morrer de veio e barbudo dentro daquele buraco, porque num quero saber nada desse negócio de tremura, virar zoinho, essas coisas aí, não sinhora! Tá doido, homi! To sartano de banda!
Dbadini
Enviado por Dbadini em 21/05/2009
Código do texto: T1607007

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Sobre o autor
Dbadini
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil, 78 anos
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