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A CAÇADA


A fama daquela paca da Serra do Arria Saco já corria léguas. Quase todo caçador de topete, marca “Roger” verdadeiro, queria por que queria pegar aquela espertalhona.
Vinha gente de longe. Os pretendentes a caçador de primeira linha chegavam como não quisessem nada numa porta de venda. Cisca daqui, cisca dali, puxa conversa, paga uma caninha, arranja amizade e dali a pouco a língua ficava solta e cada um contava mais uma tentativa, uma corrida desenfreada na mata, inventavam ou aumentavam as histórias, mas caçador que é bom mesmo, experiente, já conhece todas essas manhas e não se deixa enganar.
O Juca era um desses. Morava longe, lá para as bandas de Minas, no Porto dos Surubins, divisa com a Fazenda Val de Graça. Lugar de terras boas, margeando o rio Paraíba, com grandes várzeas onde se cultivavam arroz, milho e tudo mais que se plantasse e, por cima disso, muitas caças de pelo e de penas.
Paca ali também existia... E muitas. Era só soltar a cadelinha Pé de Vento e esperar na boca da toca. Caçavam-se quantas quisesse. Se se enfastiava com a carne vermelha, o rio estava ali para fornecer cascudo, piaus, carpa e até se dar ao luxo de oferecer gostosos pitus facilmente apanhados de mergulho ou nas armadilhas feitas de bambus lá nas águas da “Clínica Geral”. Este era o nome de um braço do rio que formava um grande poço de águas mansas e que fornecia ao pescador cagão uma variedade enorme de peixes. Dava de tudo, como dizia o Izinho.
O Juca estava ouvindo e matutando. Soube de um galope feio sofrido pelo Quiabo, caçador respeitado da região e que cismou, como ele, de pegar a paca. Também tinha um cachorro bom, o Mosquito. Os quartos dele eram meio secos, atrofiados porque fora atropelado na estrada quando ainda era pequeno. Cachorrinho azarado: passavam ali não mais que uns dois ou três carros por dia e o bestalhão ainda deu sopa e quase morreu.
Quiabo também era desses caçadores que somente caçavam pelo prazer, mania mesmo. Não matava a caça, gostava de pegar viva, desmoralizar o bicho e depois soltar.
Escolheu uma noite de lua nova, muito escura, mas de tempo bom. Antes, durante o dia, esteve no local verificando, pesquisando e descobriu a toca do animal. Trilha bem limpa, rastreada e debaixo de um lajedo grande havia uma fenda por onde entrava. Olhou para os lados, para cima, virou o corpo, observou tudo, até mesmo para a moita de assa-peixe bem folhuda, arbustos ainda jovens, que dariam um bom esconderijo para ele. Ajeitou um lugar rente à trilha, aplainou a terra, acomodou uma pedrinha quase plana de modo a fazer uma pequena base para apoiar uma lamparina.
Os caçadores de pacas usam colocar uma fonte de luz qualquer na trilha ou bem próximo dela e na entrada da toca. Quando a paca vem correndo para buscar refúgio e encontra a luz, para por um instante, tempo suficiente para o atirador fazer a mira e disparar.
Examinou tudo com cuidado, até mesmo a posição certa de colocar a rede dentro da entrada da toca de modo que ela, quando tentasse entrar, seria apanhada pela armadilha. Chegou mesmo a fincar uns pedaços de bambus para melhor amarrar as pontas da rede. Tinha de ser bem feito. A danada era marota. E ele teria de colocar a rede de noite, depois que o animal já tivesse saído para procurar alimento e água, pois sabidamente as pacas alimentam-se após o escurecer.
E a noite imaginada chegou. Sem muito vento, calor, céu limpinho e escuro, sem luar. Um breu.
Botou Mosquito na trela e deitaram morro acima, na direção do Arria Saco, lugar já seu conhecido. Não se esqueceu de amarar alguns dentes de alho em volta do tornozelo para espantar as cobras. Fez tudo direitinho como havia planejado. Acendeu a lamparina, colocou a rede no seu devido lugar, abriu a touceira de assa-peixe, quebrou uns galinhos que estavam atrapalhando sua visão, e soltou o cachorrinho.
Cachorro paqueiro e dos bons é só tirar a trela; ele fareja a trilha e parte em busca da caça. Enquanto está na busca, correndo pela trilha, emite um latido que é bem diferente daquele de quando ele avista ou fareja de perto o animal. Por esta característica o caçador sabe quando o cão “levanta” a paca, ou seja, quando ele a está perseguindo verdadeiramente ou se ele ainda está à sua procura.
Não demorou muito ele ouviu Mosquito indicar que teria encontrado a paca, já do outro lado do morro. E os latidos foram ficando mais fortes, sinal de que estariam aproximando. Tensão! Mesmo para os experientes, o coração dispara e a respiração fica difícil. Modernamente, adrenalina pura, brother!
Percebeu, do lado direito e de cima, ruídos de galhos quebrando e ela chegou. Como todas, parou por um breve instante, tempo suficiente para ele ver que era um pacuçu enorme e se enfiou toca adentro. Passou por dentro da rede como se fosse feito de fumaça! Quiabo sentiu um tranco no gogó, como se o coração quisesse sair e entalasse ali! Como é que aquele bicho poderia ter passado por dentro da rede? E passou! Só pode ser coisa ruim!
E o Quiabo nunca correu tanto na vida. Lamparina, rede, Mosquito e mais o que houvesse ficaram para trás. Deitou morro abaixo, derrapando daqui, rolando dali... Mas susto ainda maior ele tomou quando chegou à sua casa: Mosquito já estava lá! Encolhido, arrepiado, rabo entre as pernas e com aquele olhar de não estar entendendo nada, sabe? Diacho! Só pode ser o Demo! Será que Mosquito também pressentiu ou estava mesmo era com medo da atitude do Quiabo? Ficou a dúvida!
Mas o Juca que não tinha medo dessas coisas e até zombava delas e achou logo uma explicação: o Quiabo não colocara a rede corretamente. Deu mole! Deve ter ficado um canto mal ajustado e a danada - muito esperta - viu e passou por ali e ainda deu um baita susto no munheca do Quiabo. Mas olha! Somente o Juca achava isso. Todos tinham agora certeza de que a tal paca não era paca: era o Belzebu transvestido de animal para fazer medo aos caçadores. Lá ninguém mais da região iria caçar. Deus me livre! Cruz credo!
Por vias das dúvidas, apesar da sua coragem, ele iria caçar a paca numa noite clara, de lua cheia. De certo aquela paca não seria um lobisomem, porque lobisomens não saem em noite escura, só com lua cheia e contra esse bicho ele não conhecia nenhuma mandinga. Com esta certeza, ele estaria garantido contra aquela aparição, quanto a um possível erro de cálculo ou uma falsa premonição. Sabe como é, né? Seguro morreu de velho!
Ele iria trazer aquele pacuçu de qualquer maneira, vivo ou morto, questão de honra de um caçador antigo e afamado. PhD. Ele teria de usar um instrumento qualquer de aço e aço virgem que nunca tivesse sido usado ainda para nada. A não ser vampiro, combatido com estaca de madeira e crucifixo, todos os outros bichos ruins não aguentam arma de aço ou de prata. Pensou, pensou e surgiu uma ideia: ele usaria uma navalha aberta, com o fio para cima, bem no meio da trilha e quando o pacuçu viesse a toda, meteria a barriga ali e... Bumba! Plano perfeito!
A primeira providência seria comprar uma navalha novinha em folha. Foi ao armarinho na cidade próxima e viu na vitrine uma dentro de um cartucho azul com várias palavras escritas que ele não entendia, mas uma, Solingen, ele entendeu e o fez confiar. Não sabia exatamente de onde viera, mas aço Solingen não haveria melhor, ele já craniava.
Chegando à casa, apanhou o afiador - uma correia de couro curtido - passou uma pasta de cor escura e começou a tarefa de afiar a ferramenta. Começava de cima para baixo, de um lado e do outro da lâmina, sempre no mesmo sentido, nunca “ao contral”, como costumava dizer.
Depois de certo tempo pegou outro afiador, este feito de um pedaço de miolo do pendão da piteira e também contendo a pasta escura. Mesmo processo: passa de um lado, suspende a lâmina, inicia de cima para baixo do outro lado, mas repetido com uma rapidez espantosa. Prática não se discute!
Em dado momento a lâmina já fazia um som esquisito que dava uma aflição, uma coisa ruim nos dentes da gente, e a navalha brilhava tanto que posta ao sol refletia, provocando um borrão azul-escuro nas vistas para todos os lados que se olhasse.
Depois de um número de vezes, com todo cuidado, parecendo um cirurgião habilidoso, levantou o braço esquerdo, olhou, virou de um lado para o outro e escolheu um só fio de pé e com a ponta da navalha encostada rente à pele, fez uma pequena pressão e o pelo voou longe.
Deu aquele quase sorriso, somente repuxando os cantos da boca fechada, estava satisfeito e a tarefa terminada. Fechou a lâmina, recolocou-a dentro daquela caixinha sem fundos, botou o conjunto no bolso da camisa, retirou de lá o espelho arredondado com o escudo do Fluminense na parte de trás, pegou o pente, ajeitou o vasto bigode preto e depois, com a palma da mão, deu uns pequenos toques no cabelo.
O Juca tinha a cadela Pé de Vento. Ele a ganhou do Zé Miúdo, morador na beirinha do Paraíba, perto do Poço dos Surubins, lugar muito usado nos anos passados para atravessar o gado do estado do Rio para o de Minas.
Pé de Vento era muito dócil, degringolada, esquisita a ponto de não parecer muito normal. Não que tivesse parafusos de menos, mas se tinha a impressão que alguns não estavam bem apertados. Só sabia caçar. Quase não latia, permanecia horas e horas sentada e com as patas dianteiras retas, olhando não se sabe para onde, sem a mínima reação. Burra que nem uma porta! Difícil olhar para você, mas se isto acontecesse, ficava com aquele olhar morto, com aquela cara de deprimida crônica. Mas como se transformava numa trilha de pacas! Que teteia! Parecia que o espírito do cão paqueiro incorporava na bichinha. Nunca ela deixou de levantar uma paca sequer. Juca tinha total confiança na cadelinha.
Tudo pronto; só faltava chegar a noite certa. Tinha de ser com lua cheia e isto só acontece a cada mês. Às vezes, logo na lua boa, está nublado, ou chove ou ainda venta muito e faz frio. Nada disso é bom e é preferível esperar a próxima. Também, não tinha pressa.
Juca já vinha observando o céu à noite. Já notara que a lua em forma de “C” vinha saindo por cima da mata e, bom observador, sabia que estava na crescente e logo aquele “C” iria transformar-se e ficar como um “O” brilhante da lua cheia.
O tempo estava firme, com calor e um leve vento soprava de vez em quando. Calculou que mais uns dois ou três dias as condições estariam ótimas para ele acabar de vez com a fama daquele pacuçu e ele se tornar o mais famoso, “sepultar” de vez o Quiabo já bastante desmoralizado. Não estava de tudo porque o pessoal garantia que aquilo não era natural, tinha bicho ruim na parada.
Às oito horas daquela quinta-feira a lua já estava no céu. Nenhuma nuvem, nem um tiquinho para fazer remédio. Quase sem vento, somente brisa leve para amenizar o calor e fazer mexer sombras nas estradas ou bulir com as folhas das bananeiras que brilhavam ao luar e faziam medrosos acreditar em almas do outro mundo envoltas em branco, noivas fantasmas.
Chamou Pé de Vento e caminharam juntos serra acima. Pé de Vento não precisava de cambão ou trela. Era só chamar e ela se punha a trotear sempre atrás do Juca, mesmo que estivessem andando por uma estrada de dez metros de largura. Mania dela, uai! E o Juca também não ligava para isto.
Chegaram ao lugar predeterminado. Juca agachou perto da trilha e a cadelinha na sua atitude clássica: bunda no chão e as patas dianteiras retas e arquejando um pouco pela subida, língua de fora, olhar perdido e com aquela “cara de vaca roxa”.
Tudo preparado, navalha aberta e presa nos bambus fincados no chão, Juca pegou a cadela pelo cangote, abaixou sua cabeça, encostou seu focinho na navalha para ela sentir o azougue do aço e disse que ela deveria pular quando chegasse ali etc, etc... Incrível! O Juca que era de falar pouco e agora estava conversando com cachorro!
Arranjou um lugar atrás de umas pedras para se esconder e deu ordem para Pé de Vento. E ela partiu para fazer a única coisa que os seus genes sabiam, além de mantê-la viva. Demorou um pouco, mais do que o normal. Os latidos dela estavam fracos, longe, mas daqueles da procura. Ela ainda não achara o pacuçu. De repente, os sons eram outros e o Juca sabia muito bem que a caça estava sendo forçada a vir para a toca, refúgio seguro de qualquer paca acuada.
E vem chegando, chegando. O Juca até já se levantara e, vestido com a roupa verde própria para caçada, de certo a paca o confundiria com uma moita qualquer. Quando chegou ao lugar da navalha, ficou petrificado: o pacuçu saltou. No exato momento da sua chegada deu um ventinho besta, bestinha mesmo, e a sombra da árvore deixou o luar iluminar a navalha e produzir o reflexo percebido pela caça e... Pronto!
Em seguida, o pior! Pé de Vento, feliz pelo dever cumprido, vinha a toda e quando passou pelo Juca só faltou dar adeus e jogar beijinhos, refestelando-se. Burra como sempre, esqueceu as cruciais orientações, nem notou a navalha e foi pra cima. O corte foi profundo e, por sorte, desviou um pouco, de relepa (palavra que somente Juca conhecia), e passou rente ao umbigo. Por pura sorte não pegou a veia que passa ali, senão... Babau!
Agora estava ali caída, a babaca! Tripa para todos os lados, sangueira danada e ela com aquela mesma cara de vaca de presépio. Com certeza ainda não tinha notado a gravidade da situação; que ela estava mais para almoço de urubus no dia seguinte ou que já estavam nascendo até as asinhas de um anjo prestes a alçar voo.
Por um instante o Juca ficou sem ação. Gostava demais da cadelinha e teria de fazer alguma coisa. Não teria tempo de levar para casa, cuidar e com esses pensamentos, olhou para o chão e não muito longe, pertinho dos seus pés uma enorme trilha cheia de formigas tanajuras.
Apanhou Pé de Vento, botou as tripas para dentro, pegou uma tanajura das grandes, juntou a pele da barriga da cachorrinha, botou as tenazes ali e a formiga travou. Separou o corpo da cabeça do inseto com a unha e a cabeça prendeu-se firme. Heureca!
Fez isto um montão de vezes e a barriga dela parecia estar fechada com um zíper gigante. Levou Pé de Vento para casa, colocou naquele quartinho lá dos fundos, aquele que serve para guardar tudo, ficou muito triste pelo seu egoísmo, macheza ou um orgulho besta por querer caçar o pacuçu. Vaidade pura pra cima do Quiabo. Coisas mesquinhas de alguns humanos. Agora já era tarde. Na verdade estava arrependido e não tinha muitas esperanças de que ela saísse daquela encrenca.
Mas a danada tinha carnadura boa e sangue melhor ainda. Dez dias depois da tragédia, mais ou menos, ela já estava de pé e o Juca resolveu então deixá-la sair para andar pelo terreiro.
Surpresa! A pintainhada da galinha mutuca vendo as cabeças das saúvas “pensou” que eram caroços de milho dependurados na barriga de Pé de Vento e caiu de bico. O Juca nem teve o trabalho de retirar os pontos!


14 de fevereiro de 2003.
Dbadini
Enviado por Dbadini em 08/06/2009
Código do texto: T1638882
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Sobre o autor
Dbadini
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil, 78 anos
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