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ONTEM ACABOU O MUNDO.

O mundo acabou ontem. Não saiu nos jornais pois, não existem mais jornais. Mas, posso garantir que ontem foi o dia final.
Quando dei por mim hoje – ou acordei hoje -, não encontrei mais nenhuma das imagens, às quais sempre me serviram de referencia para me sentir vivo constatando que a vida continua. No entanto estou vivo, acho, pois tenho consciência do meu corpo e do que me rodeia. Afirmo que o mundo acabou porque não existe mais nada do que seria o cotidiano da minha vida. Meu quarto, minha casa, minha rua, minha cidade, tudo isso não existe mais. Também não existem destroços, sinais de grandes tragédias tais como furacões, vendavais, grandes ondas, terremotos, nada. Tudo se apresenta limpo e sossegado de tal forma que parece  que sempre foi assim. Sinto sob meus pés o contacto sólido do chão mas, não é terra, não é areia, não é campo nem é úmido muito menos seco . A cor é cinza como fuligem de um incêndio, mas não exala cheiros. O céu é também cinza esfumaçado, e  se completa com o chão de tal forma que não existe horizonte. É como se fosse uma parede que se afasta à medida que me aproximo. Procuro por outras pessoas, animais, plantas, objetos e nada  me é visível.  Onde está  a minha vida, meus amigos minha família minha rua, minha cidade? Sigo andando, curioso pelo incompreensível da situação. No entanto me sinto extremamente confortável despojado de qualquer sentimento de perda ou frustração,.Tento apenas compreender, percebo que embora tenha consciência do meu corpo, não o vejo. Não vejo minhas mãos, minhas pernas, enfim, nada. Meu corpo se confunde com a paisagem, neutro de imagem mas íntegro no sentir. Penso que seria bom se encontrasse algo em que pudesse me ver, um lago, um tipo qualquer de espelho, mas nada existe. Continuo andando pois me parece ser o que me resta. O que teria acontecido? Talvez um grande meteoro tenha caído na Terra e a tudo destruiu. Continuo andando. Não tenho noção de tempo, pois sem referencia nenhuma o tempo não existe. Simplesmente caminho. De repente percebo um pequeno movimento no chão, parece ser o ar deslocado rapidamente como se uma faísca cortasse o amorfo do ambiente. Me concentro para ouvir algum ruído: nada. De diferente apenas um minúsculo furo no solo. Talvez deste furinho houvera saído algo que me deu a impressão  de que algo se movia. Na falta de melhor opção resolvi me aproximar e por ali ficar porque era ali que me pareceu existir o único sinal de vida que me uniria ao que sempre existiu, à normalidade de ontem. Ali fiquei por indefinido tempo. Senti que ficaria ali eternamente visto este buraco ser a única imagem diferente de todo o resto. De repente observo dois minúsculos pontos negros que se movem no corpo de uma espécie de siri da areia. Corpo e pernas quase brancos cujos olhos me observam e rapidamente voltam para as profundezas. Enfim compreendi que havia vida afinal. Resolvi então encostar meu ouvido rente ao chão e percebi que de dentro do solo se ouviam os ruídos de toda a vida normal que existia antes. Sirenes, buzinas carros motocicletas gente gritando, crianças chorando, ruídos de tiros e de bombas. Certamente o mundo continuava normal lá embaixo. O siri apareceu mais uma vez como a me convidar para percorrer aquele túnel que levaria à antiga realidade. Eu poderia me tornar tão pequeno quanto aquele buraco. Novamente encostei o ouvido  na abertura e ouvi novamente todos os ruídos da vida que os homens construíram para si. Levantei, andei em volta daquele elo que ainda me unia à vida anterior, voltei a sentar e com estrema felicidade empurrei com os pés um pouco da matéria que era o solo fechando o buraco. Decidi ficar para entender o que realmente aconteceu e também para usufruir eternamente desta enorme paz e sensação de felicidade.
Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 27/05/2006
Reeditado em 31/05/2006
Código do texto: T164092
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Sobre o autor
Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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