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PÍLADES E ORESTES


(homenagem a Machado de Assis)


Quando os gêmeos nasceram,  Carlota, a mãe, resolveu colocar o nome nos meninos de Pílades e Orestes.  Nomes que ela ouviu um dia, quando algum professor contava estórias da mitologia grega.  Ela sabia que os dois eram inseparáveis e assim pensou que seus filhos seriam: inseparáveis.  Além do mais, ter nome diferente de tudo era muito chique. Nada de José ou João ou Joaquim ou mesmo Antonio ou Pedro. Não. Os filhos de Carlota seriam reconhecidos pelos nomes gregos, famosos e tantas outras coisas que passaram pela cabeça da mãe, logo após o parto.
O tempo passou, alguns anos, e como assombro do destino, os meninos realmente eram inseparáveis. Gêmeos idênticos. Não era possível distinguí-los. Nem marca de nascença nem cor de cabelo. Eram iguais. Dois em um ou um em dois. Gêmeos idênticos e inseparáveis.
Quem não os conhecia, ao vê-los, esfregava os olhos, piscava e piscava para desembaçar a vista de ver duas imagens do mesmo menino.  Ficavam mesmo com os olhos ardidos de tanto esfregar e a imagem dupla não desmanchava. Demoravam até perceber que eram dois e não um só. Eram gêmeos idênticos.
Na mesma rua dos meninos morava a Dona Maria e o marido e a pequena filha única, Rebeca. Menina mirradinha para a idade, olhos claros, azuis ou verdes, dependia do dia, da roupa. Cabelos cor de palha formando cachos nas pontas. A pele toda pintadinha, sardas por todo o rosto e braços e pernas.  Rebeca não era linda, mas também não era feia. O que chamava a atenção na menina era o conjunto: olhos, cabelos e pele. Parecia mais um anjinho desses pintados em quadros, vendidos na porta da igreja.
Rebeca tinha a mesma idade dos meninos e por isso freqüentava a mesma classe na escola.  Os três se davam bem. Brincavam sempre juntos. Era um trio bonito de se ver.  Os meninos inseparáveis e Rebeca, sempre juntos. Sempre sorrindo. Nunca brigaram. Nunca.
Bem, nunca é um tempo muito longo e para não parecer estória mentirosa, os meninos brigaram, sim.
Com o tempo passando, os olhos dos meninos já não viam Rebeca apenas como a amiguinha da escola. Os anos fizeram os encantos da menina aumentarem. Os meninos cada vez mais próximos dela e como sempre inseparáveis,  começaram a sentir um algo diferente. Um sentimento de saudade quando  davam o tchau para se encontrarem apenas no dia seguinte.  Uma vontade de não sair do lado. Sonhos de mãos dadas e quem sabe um beijo tímido no rosto. Sonhavam com Rebeca, os dois juntos, o mesmo sonho, mas lá, no sonho, não viam um ao outro. Estavam sozinhos com Rebeca.
Eram gêmeos idênticos e nem Rebeca sabia distinguí-los.
Quando completaram treze anos, na festinha de aniversário que Carlota fez questão de preparar com todo carinho e dedicação, Rebeca apareceu mais bonita do que nunca. Os gêmeos sentiram o coração palpitar num ritmo apressado demais e não conseguiam desgrudar os olhos daquele rosto lotadinho de sardas.
Os dois, juntos, com o mesmo passo apressado, colocaram-se ao lado da menina. Rebeca sorria. Gostava dos dois. E não sabia distinguí-los e por isso não tinha preferência nem por um,  nem por outro  e então o que fez? Levantou sua mãozinha delicada bem à sua frente e esperou. Apenas uma das mãos levantada, bem à sua frente.
Os gêmeos se olharam e pela primeira vez seus olhos não demonstravam carinho. Lentamente levantaram suas mãos à altura da mãozinha da menina que pendia esperando, e, quase no momento de tocarem as mãos, como num balé muito bem ensaiado, os meninos pularam um para cima do outro e se fez a cena. Rolavam no chão, em silêncio. Não falavam nada, só rolavam.
A festa terminou ali. Carlota e o marido tentaram separar os meninos, mas foi inútil. Ninguém conseguiu desgrudar os dois que continuavam a rolar pelo chão, escorregando pela escada, passaram pela porta de entrada da casa e foram para a rua, sempre rolando.
Os anos passaram, Rebeca conheceu José e com ele namorou, noivou e casou.  Está para ter seu primeiro filho. É feliz junto ao seu José.
E os  gêmeos? Bem, os gêmeos continuam a rolar pelas ruas da cidade, em silêncio. Quem sabe, um dia, você veja pela janela os gêmeos idênticos embolados um no outro rolando, rolando, rolando, rolando...
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 27/05/2006
Código do texto: T164362

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
114 textos (8469 leituras)
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Paula Cury