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A Caixa

Ele chegou um pouco depois de Teco, procurando abrigo da chuva. Teco, por sua vez, moveu-se um pouco para o lado, de modo a dar espaço ao recém-chegado.

Seu nome era Manco. Não seu nome verdadeiro, claro, mas como o povo da rua quinze o chamava. Teco nunca entendeu aquele apelido, pois Manco aparentemente andava muito bem, tanto que vivia fazendo entregas para o Jobson.

Mas não dava pra fazer entrega nenhuma com aquela chuva, por isso Manco correu para a saída de ar do metrô que Teco estava usando como moradia nos últimos dias. Não se importava em dividir o espaço, muito pelo contrário. Gostava de companhia. Tanto quanto um garoto de seis anos podia gostar.

- Quié isso? - perguntou o Manco, depois que sacudiu a água represada no pixaim. Teco não entendeu. - Na tua mão, abestado!

- Ahn, isso? Sei não.

- Não sabe? Então pra que tu anda com essa caixa velha dum lado pro outro?

- Foi a Mãe que deu...

- "Foi a mãe que deu..." - zombou Manco, mostrando os dentes tortos e uma careta engraçada. - Quié que tem dentro dessa caixa da tua mãe?

- Sei não.

- Então abre, e a gente descobre.

- Não posso. Ela disse pra não abrir. Acho que tá vazia.

- Vixe, moleque lesado! De que serve uma caixa se não é pra carregar nada? Deve ter alguma coisa que valha aí drento.

- Sei não. Mas não é pra abrir. A Mãe disse que era pra eu guardar, mas que um dia ou eu ia perder, ou iam tomar de mim.

- Depois o manco das idéia sou eu! Quem ia querer uma caixa velha que nem essa? Inda mais vazia!

- Ela tá velha agora, mas quando a Mãe me deu tava novinha. Ela me disse que tinha feito só pra mim, pois a dela ela tinha perdido fazia tempo. Dizia que era pra guardar a coisa mais importante da vida, mas nunca explicou que treco era esse.

- Ah, entendi! A velha tava te usando de avião.

- Hum?

- Ô bicho lerdo! Avião, mula. Que nem eu. Tua mãe era do tráfico?

Teco sacudiu a cabeça vigorosamente. Podia não ter muita intimidade com o jargão da rua, mas sabia que a palavra "tráfico" nunca vinha num contexto bom. Sua mãe mesmo disse que tráfico era errado, e que meninos bonzinhos não se metiam com traficantes.

- Só tem um jeito de saber. Dá aqui essa porra.

- Não!

- Não vou tomar de você, moleque, relaxa. Só tô curioso. Você não tá?

- Arrã. Mas a Mãe disse pra não abrir, e eu não quero desobedecer. A Neca um dia queria tomar ela de mim, mas a Mãe não deixou. Brigou com ela.

- Quem é a Neca?

- É a vizinha. Tem um namorado diferente todo dia.

- Êita! E cadê tua mãe, ô fio dum calango?

- Num sei. Me mandou embora de casa. Disse que eu ia tá em perigo se ficasse com ela. Falou pra eu me virar.

O Manco deu uma risada esquisita.

- Tá com fome?

Mais um sacudir de cabeça, positivo desta vez, e cheio de esperança. Nos últimos dois dias não tinha comido nada, só tomado água suja da fonte da praça. Seus olhos brilharam quando o Manco tirou do bolso um saco plástico, que desenrolou rapidamente.

- Tó, dá uma cafungada. Pra enganar o bucho.

- Quié isso?

- Vixe, tô ferrado! Tu é cabaço?

Sem saber o que significava aquilo, Teco pegou o saco e cheirou seu interior. O odor imediatamente queimou suas narinas, e ele desviou, lágrimas incontroláveis caindo de seus olhos, num choro esquisito, que na verdade não era choro, mas que ele não conseguiu controlar.

- Não, ô besta! Com a boca! Assim ó...

E o Manco mostrou. O saco encheu e esvaziou três vezes antes que ele emergisse com um sorriso bobo na cara. Sem dizer uma palavra, passou o saco novamente para Teco. Ele repetiu a manobra do Manco, e sentiu imediatamente os efeitos no jovem cérebro. Um formigamento tomou conta de seu corpo, olhos semicerrados, coração nos ouvidos. A fome sumiu. O medo sumiu. A caixa, esquecida momentaneamente, escorregou pelo seu colo e caiu no chão, esfacelando-se um pouco mais.

O efeito durou menos que ele desejava, e suas pupilas aos poucos retornaram para o tamanho correto da iluminação de começo de noite. Abriu novamente o saco, pronto para repetir a experiência, mas ele foi imediatamente retirado de suas mãos.

- Vai na manha, moleque. Isso aqui pode queimar teus miolos. Pra primeira vez, tá de bom tamanho. Se tu quiser amanhã eu trago de novo.

Teco concordou, ansioso. Em seguida lembrou-se da caixa, que quase foi abandonada na experiência, e a puxou novamente pra perto de si. A tampa havia ficado um pouco mais arruinada no curto período de esquecimento, mas ele não notou. Assim que a colocou junto do corpo pensou em voltar atrás e recusar a oferta, mas achava que o Manco, que havia sido tão legal com ele, pudesse ficar ofendido. E queria tê-lo como amigo. Na rua é sempre bom ter amigos.

- Qual o nome dela?

- Hum?

- Volta pra Terra, pirralho. Tua mãe.

- Mãe? Juraci.

- Juraci? A Juju do Barraco Baixo?

Teco concordou, espantado.

- Danô-se! Tu é o moleque dela? Vixe, tô ferrado!

- Que foi?

- Moleque, tua mãe tava certa em te mandar embora. Ela tava cheirando mais que cocota em boate. Eu mesmo entreguei um monte de papel na tua casa. Bem que eu tinha reconhecido tua fuça, mas na rua a gente nunca sabe, né? Só que ela não pagou o Jobson. E quem não paga o Jobson, já sabe, né?

Não, ele não sabia. Lembrava de Manco chegando de vez em quando em sua porta. Era sempre bem recebido, e depois que ele ia embora sua mãe ficava mais feliz. E Teco ficava feliz quando o Manco chegava em sua casa, mesmo a mãe mandando ele pro quarto "pra ficar com sua caixa". Mas o Jobson ele nunca viu antes de ser expulso. Já tinha ouvido falar nele, mas nada demais. Jobson era um traficante, isso ele aprendeu. E traficantes são ruins. Só não sabia por que.

- Quiquieufaço agora? Ô Mãe do Céu, tanto lugar pra se esconder da chuva e tu me joga junto dum órfão de uma cheirada?

- Eu não sou órfão!

- Agora tu é, moleque. Tua mãe não pagou o Jobson, e ele apagou ela. Assim, pá, pum, boca cheia de formiga. Não tem conversa. Tua mãe já era.

Uma sensação semelhante à de cheirar o saco plástico do Manco se apossou pelo corpo de Teco. O corpo formigou inteiro, e o coração batia tão forte que reverberava em seu crânio. Sem perceber, largou novamente a caixa de lado, que agora parecia bem mais velha do que no começo da conversa, e enfiou a mão no bolso. Sentiu a textura lisa do objeto que encontrara jogado no mato na véspera. Seu polegar parou na única parte áspera e empurrou. Tec.

- Tu tá perdido. Tua mãe tá mortinha da silva. Cheirou casa, fogão, liquidificador... Mais um pouco e cheirava até você, podes crer. Agora tá comendo capim pela raiz. Pagou com a vida. Puta viciada dos infernos. Tu tá melhor sem ela.

Tec-tec. Uma gota de suor escorreu pela sua testa e caiu no chão. Tec-tec-tec. A respiração estava rápida e barulhenta, ressoando com o ribombar de seu coração nas têmporas. Tec.

- Moleque, melhor tu falar com o Jobson. Ele vai te dar sustento, como deu pra mim. Viver na rua não é pra qualquer um, e tu é muito novo pra ficar por aí. O Jobson vai te ajudar. Sei que vai. Mais que a estúpida da tua mãe.

Tec.

- Senta aí! Onde tu vai? Tá chovendo pra burro ainda... Ei, o que tu vai fazer com isso?

Teco não via mais nada. Segurou o estilete com tanta força que sentiu os dedos doerem. Antes que o Manco percebesse, a lâmina já tinha penetrado fundo em sua garganta, cortando vasos e artérias essenciais. A traquéia se inundou de sangue imediatamente. Tentou se erguer, mas a lâmina penetrou mais uma, duas, três vezes. O sangue esguichava a jatos curtos mas constantes, e ele caiu pra trás. A última coisa que viu em sua vida foram os olhos insanos de um garotinho de seis anos sobre ele.

Depois que o Manco parou de se mexer, Teco largou o estilete ensangüentado, que repicou no concreto áspero. Virou-se e saiu do abrigo, sendo imediatamente lavado pela chuva torrencial. O sangue escorreu de suas mãos, e as manchas em sua roupa rapidamente adquiriram um tom róseo. Saiu, cambaleante, sem destino, abraçando relutantemente a cidade que agora seria seu lar.

No duto de ventilação ao lado do corpo largado do Manco, jazia a caixa, agora uma coisa arruinada e bolorenta, largada displicentemente ao relento. Nada mais que uma metáfora vazia, perdida e, provavelmente, esquecida para sempre.


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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 12/05/2005
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia