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A MÃE II





Depois que José nasceu, foi entregue a um orfanato. A mãe não podia criar. Mal tinha dinheiro para ela, não teria como sustentar o recém-nascido.
José cresceu em meio a outras crianças. Era um menino calmo, até. Não brigava e não fazia mal-criação.
Com cinco anos foi adotado por um casal que não podia ter filhos. Cresceu coberto de carinho e de mimos e bons estudos e roupas novas e televisão no quarto e tantas outras coisas.
Sabia que era adotado e só por isso guardava uma mágoa no coração. Poderia ser feliz, sim, tinha tudo o que se podia sonhar, mas algo lhe doía fundo no peito. Uma pergunta martelava seus pensamentos diariamente. Por quê fora abandonado pelos pais verdadeiros?
Não havia resposta. O assunto era proibido na casa e José cresceu junto com a mágoa. Seus olhos brilhavam estranhos uma tristeza sem motivo aparente.
Por vezes brigava na escola e despejava na cara do colega toda a sua raiva que só acalmava com a cor do sangue banhando o chão e suas mãos.
Os castigos faziam com que sua raiva voltasse e nunca mais parou de brigar.
Os pais adotivos estavam preocupados e não sabiam mais o que fazer. José tinha tudo e não parecia feliz. Respondia e gritava e xingava e quebrava as coisas dentro de casa e dizia odiar os pais adotivos.
Quando José chegou a adolescência, ninguém mais o segurava. Era puro ódio nos olhos e na língua e a casa vivia em tristeza constante. A mãe adotiva chorava, o pai adotivo havia ido embora para nunca mais. José tomou conta de tudo, mandava e desmandava e batia na mãe se ela o desobedecesse. A mãe adotiva chorava, mas não adiantava, José não tinha piedade, batia sua raiva e as palavras queimavam o coração da mãe adotiva que acabou por morrer de tristeza num dia em que estava sozinha na casa. Dormiu e não acordou.
José se fez dono de tudo e já não estudava. Andava com um bando de meninos iguais a ele, revoltados por qualquer motivo. Não trabalhava e já não tinha o que comer. Vendeu televisão e móveis e tudo o que tinha dentro da casa.  Roubou uma vez e gostou e voltou a roubar muitas vezes. Batia nas vítimas, era bom sentir o sofrimento dos outros. Era como se aliviasse o sofrimento do próprio coração.
Já adulto vendeu a casa e morava na rua com seus amigos e roubava e matava, até. E matar era um novo gosto na vida de José. Aliviava a revolta por algum tempo, ou até a próxima morte e era procurado pela polícia.
Planejava assaltos nas casas de um bairro simples. Para José não importava o que era roubado. Importava fazer sofrer quem morasse no local, até a morte. Sim, era o que importava para José.
Invadiram uma casa simples, onde tudo era pouco e os amigos de José quiseram ir embora para outra casa com objetos de algum valor, mas José quis ficar. José esperava alguém aparecer. Não havia satisfeito seu desejo. Os amigos saíram e foram atacar outra casa e José sentou numa das cadeiras e esperou a porta abrir.
Alguns minutos se passaram e enfim a porta abriu. Uma senhora de alguma idade um pouco avançada entrou sem perceber José que sorria sarcástico a imagem de sua vítima.
A mulher fechou a porta e acendeu a luz e só ai viu José, em pé, muito próximo pronto a atacá-la.
A mulher olhou firmemente para os olhos de José que, por um momento ficou sem reação. Ninguém havia olhado para ele daquela forma. A mulher continuava a olhar e seus lábios soltaram um nome num quase sussurro.
José não entendeu e mandou a mulher repetir e a mulher já sabia e o chamou de filho.
José estremeceu e a mulher o chamou de filho novamente e o abraçou com tanto amor que José despencou nos próprios joelhos e chorou os anos que passou sem resposta e perguntou entre um soluço e outro qual havia sido a razão do abandono.
A Mulher estendeu a mão para José que a segurou e então ela o levantou e levou para sentar numa cadeira. Contou a José suas razões e disse que havia sofrido muito, mas sabia que ele estava bem, sempre soube. Havia seguido o casal que o adotara até a casa em que moravam e só ai ela despreocupou o futuro do filho.
José chorou e gritou sua revolta. Não era justo ter sido abandonado. Não queria riqueza nem nada, queria apenas a mãe, a verdadeira mãe e gritou toda sua vida de maldades e todas as mortes e roubos.
A mulher sentiu o peito doer e pensou em morrer ao ouvir tanta atrocidade. Sentiu-se culpada por todas aquelas mortes e por todo o sofrimento que o filho havia causado e sem pensar muito, pegou a arma de José e atirou. Atirou tantas vezes que não se ouviu um pio de José. O corpo do homem cambaleou e escorregou para o chão. Estava morto.
A mulher chorando e tremendo caiu de joelhos perto do corpo inerte de José e pediu perdão, perdão pelo abandono, perdão pela morte e perdão pela vida que ele não soube aproveitar.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 30/05/2006
Código do texto: T166078

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury