Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O mímico

Vivia o mímico num alojamento mofado atrás da ribalta de um pequeno palco de espetáculos, cujas apresentações se davam aos finais de semana.

O grande público do salão constitua da boêmia local que detinha o controle da noites - os mesmos freqüentadores das tavernas, bordéis e casas de jogatina. Compareciam ao teatro ao fim da jornada noctívaga, acompanhados de suas damas de luxo e seus camaradas extravagantes, despertando cada pedaço da noite com sua estéril agitação insone numa maré de vociferações e risos que se misturavam ao som das fanfarronas e bandoleiros, adejando noite adentro para o alto das cameeiras, até dissipar-se completamente na forma de um grito surdo, ecoado nas vielas mais distantes. Findado o delírio noturno, e a cidade aquietando-se, a aurora insinuava-se plena e calada, forjando a atmosfera serena que recai sobre o semblante de um pecador conjurado, ao despertar repleta de silêncio e fatiga.

Morava lá, no alojamento de depósito no corredor dos bastidores, rodeado de acessórios cênicos inutilizados: fragmentos de pintura de antigos cenários, onde se entrevia o pedaço de um capitéu de palácio de uma corte francesa do século XVIII em frente a um céu azul, ou uma murada de cor desbotada; vestidos, fantasias, máscaras e trajes puídos, uma penteadeira com um espelho quebrado, e a sua própria fantasia, a qual ele próprio consertara e se apropriara ao saber que dela iriam se desfazer. Não tinha memória de quanto tempo havia estado lá, pois que parecia sempre. De lá só saia para se dirigir ao palco, quando chegada sua vez de se apresentar para um público espalhafatoso que já desperdiçara sua energia irreverente nas comédias bufas,  não restando muito interesse para a sua elegante pantomima.
 
Deixavam ao mímico os intervalos entre uma peça e outra, e quando mais, os últimos minutos da noite, e o faziam por piedade, pois dele já se sabia a respeito que para mais nada vivia, recebendo por isto não mais que o quarto e comida.  E assim vivia, aprimorando sua arte todos os dias, passando o menor tempo possível sem sua maquiagem, treinando e criando novas expressões, numa escala em que se variavam formas do riso e da tristeza. Houve um dia no qual sua arte era apreciada, que ele era o espetáculo principal, e ao inverso de hoje, as encenações bufas serviam apenas para a entrada do seu espetáculo maior, enquanto preparava sua maquiagem nos bastidores. Apenas o mímico e o cenário; uma releitura de um mito trágico forjando gestos e expressões em lugar da métrica e da dicção, tendo a sensação de carregar nos ombros toda a feição trágica do mundo, daquela vida transbordante de triste beleza a qual solitariamente desfrutava e ampliava na solidão calada de seu exercício.

Poderiam haver elementos no mundo aos quais, se despendido alguma sorte de esforço, poderiam bem ser entendidos pelo mímico de acordo como realmente são, em sua nua concretude, despidos da couraça lírica que o espírito humano, em ocasiões em que se vê dotado de tentações tantálicas em usurpar algo do absoluto, confere com obstinação ao derredor. Entretanto, havia uma névoa a turvar o seu olhar, de modo que todas as coisas entre o céu e a terra lhe eram absolutamente inefáveis, sendo-lhe difícil mesmo articular-se sobre suas simples necessidades. Por isto falava muito pouco, quase sem nunca completar uma frase, balbuciando três ou quatro palavras num dia, tendo já permanecido no mais absoluto mutismo por várias semanas. Era como se pudesse tocar o conteúdo latente da vida com dos dedos, de forma a multiplicar e atrair para si em frêmito anelo, aquela outra parte que deveria permanecer em oculto segredo sempiterno, e sobre esta não ousava pronunciar-se senão por meras refrações gestuais.

Apresentara-se naquela noite para o público indolente. A sua tragédia íntima, convencionada na sua arte, não era percebida por ninguém, porém zombada e ignorada por muitos. "De que adianta, viver só para si. Aguardar tantos anos um singular olhar de cumplicidade..." meditava em sua solitária caminhada noturna.

No outro dia seu corpo fora encontrado próximo à ponte, de onde lançara-se e poucos vieram a saber de sua morte. 'Pobre demente' - exclamou um senhor - 'por que, afinal esperar algo deste mundo'?
Grasiela de Barros
Enviado por Grasiela de Barros em 03/06/2006
Código do texto: T168537
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Grasiela de Barros
Curitiba - Paraná - Brasil
4 textos (146 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 12:21)
Grasiela de Barros