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Festa no funeral


FESTA NO FUNERAL


Isso eu posso lhe dizer, pois  o que fiquei sabendo não foi de minha memória. Já elimino as dúvidas daqueles amigos, que ficariam aí a dizer, que quando eu soube, fui informado pelo alegre embalar da aguardente que estimula a mente e solta o dente.
Não, nada disso, pelo contrário, gozava eu do mais perfeito entendimento das coisas da terra, tanto de baixo, quanto de cima dela.
Eliminadas as dúvidas sobre as surpresas das minhas invencionices, posso agora contar que quem me afiançou o fato foi meu amigo Miro. Amigo não digo, quero fazer força para nada inventar do ocorrido, mas era assim, como se fala de quem se sabe mas não se conhece, um conhecido.
Miro era tido como louco, que andava pela cidade, que pelo talhado que tinha, não precisava que o relógio da igreja fosse além das doze batidas, para que o trajeto dela inteira fosse corrido, ida e volta.
Foi esse louco que me contou o  estranho acontecido, pois como tal, sabe um pouco de tudo  o que é ocorrido, ou o fato das surdinas que é praticado por todos, mas  que só por quem é um pouco louco é percebido:
- Olha, no meu vai-e-vem com meu tomóve, nesses 10 mil e 800 dias da minha vida, que nos 30  do mês chega a 360 e para a anuidade é 30, eu juro pelas cêras do templo, que eu nunca vi com esses olhos de 180 graus na ida, com os outros tantos da volta enxergam a totalidade do possível, fora o mais que eu enxergo para dentro de mim mesmo, eu nunca vi um acontecido igual daquele.

É preciso dizer que o Miro Louco, como era conhecido na cidade, era mais rápido nos números de cabeça que o contabilista  no uso da maquininha de calcular que era a novidade do momento.
O que ele chama de tomóve, era um velho Chevrolet, daqueles com o câmbio perto da direção e que ele nunca teve e talvez jamais tenha entrado num.  Ele andava a pé pela cidade, obedecia as mãos de direção e mudava todas as três marchas do carro imaginário.
 Foi andando com seu tomóve que, ao passar perto do velório, parou para as reverências da educação. O que ele viu, deixo para sua própria falação, pois não tenho tinta para escrever de própria mão:
- O que tinha lá dentro não vi, -  prestou-me conta o Miro na sua louca sabedoria, -  mas tinha que ser defunto, que para outra coisa não serve um velório. Mas o  que acontecia do meu pé até o pé que estivesse mais próximo do caixão me dizia que velório de defunto não podia ser. Deixei  meu tomóve encostado na beira da calçada e tomei prumo para certificar o desconhecido que estava no alto.
Aqui interrompo a narrativa do Miro Louco, só para acertar que  o velório se dispunha em três alturas. Na mais baixa aqueles que nunca podem ver. No meio se dispunham aqueles que até tomam ciência de alguma coisinha. Lá no alto fica quem pode.
Lá foi Miro movido pela curiosidade.
Passando pelos mais de baixo, viu aquele povaréu chorando sabe Deus por qual falecido.
 Na altura do meio percebeu que não tinha mais choro. Apenas se lamentavam.
Subiu para a altura de quem pode e, pela primeira vez nos seus 10 mil e 800 dias, viu gente alegre no velório. Olhou para a urna onde estava aquele cuja morte faz uns poucos rir, outros mais se lamentar  e o povo chorar. Como nada conseguiu ver, voltou para o seu tomóve assuntando quem tinha morrido. Os de cima disseram que era um empecilho para os seus negócios e por isso festejavam. Dos que estavam no meio, ouviu que quem partia era da justiça e pela falta dele se lamentavam. Do povo que ficava em baixo ficou sabendo que quem se foi era a esperança e por essa razão choravam.
Morto assim só vi na cruz, mas debandou tão veloz das paragens terrenas que nem o tomóve do Miro Louco é capaz de alcançar.

José Carlos Sibila
Enviado por José Carlos Sibila em 05/06/2006
Código do texto: T169867

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Sobre o autor
José Carlos Sibila
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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