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CONTRABANDISTA

(Homenagem a João Simões Lopes Neto)

Jair pescava lá pras bandas do Pantanal, onde os peixes eram grandes, saborosos e fartos.
Era proibida a pesca do jacaré. Ele sabia e sabia também que mesmo sendo proibida, a pesca do jacaré corria solta nas madrugadas de lanternas fracas e sussurros mal falados que Jair observava da janela da sua casa na beira do rio.
Logo cedinho, quando colocava a barcarola pra navegar, ia vendo na ribeirinha, os vestígios dos Jacarés recém pescados. Olhava e não se conformava. Era proibido pescar Jacaré, mas aqueles homens quase invisíveis pescavam, muitos, e com certeza estavam com os bolsos cheios de um bom dinheiro para comprar o que quisessem, enquanto ele, pobre Jair, pescava para alimentar a família e vender alguma coisa para a farinha e o arroz.
Não era justo, pensava o Jair. Não era justo.
Numa noite de lua cheia, onde se enxergava longe a água do rio, Jair viu um barco, homens, lanternas. Um imenso jacaré sendo puxado para dentro do barco. Jair virou-se e olhou para a casinha onde morava junto com a mulher e mais sete filhos. Não era justo.
Saiu da casa levando uma lanterna e se pôs na beira do rio, olhando para o barco nem tão distante. Acendeu e apagou a lanterna por várias vezes, na direção do barco. Os homens se agitaram e já se ouvia as vozes cheias de perguntas de quem seria aquele ali, na beira do rio. Pensaram em atirar, mas viram que era apenas um homem, sem muito jeito de ser da polícia florestal. Chegaram-se com o barco mais próximo do homem e travaram uma pequena conversa cheia de interrogações de quem era, o que queria e essas coisas. No final de todo aquele palavrório, ficou acertado que Jair sairia com eles para pescar Jacaré. Ficaria com um bom dinheiro e assim, Jair foi dormir já pensando na riqueza de morar na cidade, em uma casa com luz elétrica e rádio daqueles de colocar na tomada.
Durante uns bons meses, Jair saiu para pescar Jacaré nas madrugadas de sussurros e lanternas fracas. Ia juntando dinheiro. Ia pescando jacaré. Ia juntando cada vez mais dinheiro.
Os vizinhos de Jair não entendiam o enriquecimento do amigo, de forma tão rápida. Os peixes eram os mesmos, o tempo, como sempre, era o mesmo e todos estavam como sempre, só Jair vestia roupas novas e usava um cordão de ouro no pescoço.
Um ano depois, ao sair para nova pesca, na madrugada, Jair estava com mais três homens puxando um jacaré para dentro do barco, quando foram surpreendidos pela polícia. Os tiros foram ouvidos em todo o lugarejo. A mulher do Jair acordou assustada e procurou pelo marido. Ele não estava. Correu para a beira do rio, preocupada. Onde estaria o Jair?
A polícia conseguiu capturar um dos homens, os outros escaparam ou foram alvejados por tiros. Não sabiam dizer, pois a noite não tinha lua e as lanternas eram fracas.
A semana passou lenta para a família do Jair que não tinha notícias dele.
No rio, um pescador puxava a rede para dentro do barco. Estava pesada. O homem cantava uma música feliz de pescaria bem sucedida, até que parou com os olhos arregalados. Enroscado na rede, o corpo de Jair, roxo, inchado, com os olhos esbugalhados. As mãos fechadas seguravam alguma coisa.
O corpo de Jair foi levado para terra, onde foi desenroscado da rede. Com muita dificuldade conseguiram abrir as mãos do afogado.
Entregaram o corpo e o que encontraram nas mãos dele à família de Jair. A mulher desesperada chorava toda sua dor ao perceber que Jair era um dos pescadores de jacaré que haviam desaparecido na noite da semana passada.
O corpo de Jair foi velado. Ao lado do caixão, simples, de madeira quase branca, ainda amarrotados e faltando pedaços estavam uma boa quantia em dinheiro e um anúncio de jornal: “vende-se casa com luz elétrica”.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 06/06/2006
Código do texto: T170194

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury